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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Tempos em que festejavam nossos aniversários




“Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus ! Hoje já não faço anos. Duro.
Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos ! ...”



Este trecho do poema “Aniversário” de Álvaro de Campos - fecundo e emotivo heterônimo do poeta português Fernando Pessoa – espelha o ânimo de um amigão que, nesta primavera, completa mais um ano de vida. A sensação da alegria ingênua perdida nos aniversários festejados no passado, Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...”. A mesa posta com mais lugares, a melhor louça, “As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...” E agora faltam presentes, sobram fungos do passado e o véu indecifrável do futuro. Mas qual pitonisa atreve-se a adivinhar projetos prescritos, como um queromaníaco – sujeito que vive de uma alegria exacerbada e doentia – o oposto da melancolia que cerca tantos aniversariantes.

Tentei animá-lo, conversamos muito, eu e meu já veterano amigo. Combinamos uma grande festa, com gente querida de várias gerações. Alguns, prematuramente, já partiram. Mas a lista inviabilizaria o evento. Hoje, adulto, é o responsável por sua própria efeméride. E falta dinheiro para reunir, ao menos os mais íntimos. Brindar ter sobrevivido às injúrias, falta de afeto e de um bem-vindo reconhecimento. Digo que anda pessimista demais. Esqueceu pequenas mas significativas vitórias É um homem íntegro, nem anjo, nem demônio. Do tipo que ao errar sabe pedir perdão. Depois, tenta não repetir a mancada.
Projetos sonhados quando caem na ponta do lápis viraram rabiscos sem nexo. A casa nova, piscina, uma adega para safras especiais. E as viagens? Gramado, Nova Iorque, Paris, Buenos Aires. Quem sabe o paraíso Mediterrâneo? Azeitonas pretas, pimentões doces e frutos do mar... Portugal na primavera com suas flores de rosmarinho (alecrim) perfumando as estradas no caminho do Tejo. Nada é impossível, por mais sofrida que seja a espera. Por mais obstáculos que sejam impostos. Erramos, tropeçamos e retomamos a trilha. Disse a meu amigo que deveria trabalhar para atingir seus sonhos. Ele respondeu desaforado: “Chega de sonhos! Sonhos comemos fritos. Só permanecem as gorduras saturadas endurecendo artérias!”

Boca suja, magoada com os maus tratos que o cotidiano impôs. Fritou os sonhos e, em um dia que deveria ser especial, permanece em um abismo de inconformidade. Mas as coisas não se resolvem com rancor. O importante é viver enquanto Deus assim o desejar. Aproveitar a experiência adquirida, trilhas sulcadas na face feito, transformadas em rios salgados pelo suor do dia-a-dia. Marcas assim, escrevem e corrigem uma trajetória existencial. O bolo, singelamente pode representar a vida que mesmo fatiada, tanta vezes nos põe a engordar com supérfluos, tipo rancores, frustrações, amores desfeitos. Amigo, desculpa a metáfora pobre, mas encare como uma velinha reutilizada que mesmo pela metade, com pingos de cera, a chama acesa. Parabéns!

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