Pesquisar este blog

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A criança e o monstro

Como transformar rancor em tolerância?
Quem afinal nós somos? Seremos extraterrestres, ou ao contrário, seres dependentes em demasia das coisas terrenas? As pessoas seguidamente me classificam como um sujeito calmo e pacificador. Diante do espelho quase acredito nesta imagem. Na verdade, não contem para ninguém, existe dentro de mim um sujeito inconformado, com uma agressividade latente, doido para mandar muita gente para bem longe. Colocar todos em uma nave e deixá-los em outra galáxia, onde terão tempo para pensar nas bobagens cotidianas, cometidas às pressas, por puro egoísmo ou desleixo ou, até mesmo contágio. Quem disse que maus humores, teses preconceituosas ou intolerantes não podem ser contraídas inadvertidamente?

Psicopatas que dizimam dúzias e depois saem para jantar, terroristas que matando supostamente atendendo mandamentos divinos, acabam servindo como justificativa àqueles de personalidade instável que, insuflados pelo comportamento doentio alheio, justificam seus atos, não tão violentos assim, mais igualmente carregados em delitos. Quem começa batendo carteira pode acabar explodindo bancos! Por isso, toda a calma, toda a tolerância é bem-vinda. E não pensem que o ser raivoso que habita em mim, de repente explodirá em fúria, massacrando gente com gritos de meias verdades, que corresponderiam a mentiras inteiras. Errar me leva à autocrítica. Evito acumular frustrações de coisas que deixei de fazer por puro medo. Reconheço minhas limitações.

Por exemplo, quando não ousei em questões profissionais, ou domésticas, assustado com os inevitáveis riscos. Eu deveria ter feito isso, assim e assado. Não o fiz e agora me puno sendo um autêntico “mala sem alça” que desnorteia quem me cerca. Ao contrário, assumir a própria fragilidade dá forças para se olhar bem lá no fundo e arrumar as gavetas. Atitudes desta natureza seguram o mostro insano que habita em meu íntimo. Ele apieda-se de minha própria insanidade e libera como camuflagem, o personagem sensível, conciliador criado para escapar de atritos inúteis e ainda, de quebra, conquistar a admiração alheia. É bom ser reconhecido como um cara legal, do bem e saber que a fera está domesticada.

Para atingir esse nível, é preciso muito esforço. Ouvir as gentes, quem sabe fazer psicanálise. Todo problemático odeia terapia. E aí, vive maquiado às avessas, carregando o peso de uma carranca, que pode ser odiosa, ou falsamente bela e sedutora, mas que no fundo, apenas destrói e detona pontes que o ligariam à consciência, ao prazer de viver. É uma espécie de narcisismo doentio e infantil, porque, na verdade, o ser bacana, está lá embaixo, sem forças para reagir, sufocado por sentimentos como o egoísmo, a inveja e a ganância.

Pode soar ingênuo tudo isso. Mas é essencial. A fera que habita em mim, o ser extraterrestre, na verdade, é um menino que nunca amadurecerá. Mas que pede que o ensinemos a viver melhor. E quem, realmente, busca por isso, educa essa eterna criança. É possível, sem gritos e sem rancor.

2 comentários:

Caren Mello disse...

Belíssimo txto, Ari!!

Ari Teixeira disse...

Brigadão, Joinha