segunda-feira, 15 de junho de 2026

Sonhos em dias de Copa

Vivemos as emoções da Copa do Mundo de 2026. Em seus 39 dias, é a edição mais longa e a maior da história do torneio. E estranha!  Atletas, comissões técnicas e árbitros enfrentaram episódios de constrangimento e retenção ao chegar aos Estados Unidos. Ou seja, esses novos tempos não nos permitem relaxar nem às portas de um evento esportivo. Mesmo assim, tentarei esquecer um pouco os temas indigestos, aqui ou no exterior.  Guerras, desalinhos ideológicos e crimes de todo o tipo assombram os noticiários.  Estou precisando de alguns momentos de escapismo.



Inclusive apostei na Mega Sena. Me permiti o sonho de reunir uns pilas extras. Nem penso em milhões, mas um reforço para enfrentar um inverno mais acolchoado no extrato bancário. Alguns vizinhos, já fazem escalas de vôo, passeios imaginários em paraísos naturais,  ou calculando investimentos que assegurem uma vida mais frouxa.  



Quem não gosta do que é bom? Curto os carros bacanas, modelos novos com mais tecnologia. Painéis digitais, câmbios de mil marchas e vidros grandes para me sentir integrado às paisagens. Mas não sofro quando os vejo apenas nas vitrines. Automóveis no Brasil tem um custo absurdo. 



É claro, também, nada disso é reservado aos ricaços. Uma poupancinha bem planejada e apoio de uma boa agência de turismo, ajudam na hora de um giro por um pedacinho desse planeta conturbado. É um jeito de percebermos que nem tudo é ódio e preconceito. Eu, idoso assumido, aprendi a conviver entre crises existenciais e alegrias autênticas. Sempre na simplicidade, mas com elegância e gentileza no trato. 



Assim, vou ignorar o ranço alheio, acompanhar os jogos e, nos intervalos, ouvir meus discos de vinil (sim, nunca os abandonei). E girando assim, na rotação das melhores harmonias, me autorizo a um período pacífico, Os que odeiam e segregam que se multipliquem em seus nichos, longe de minha provisória folga. A vida afinal é melhor assim. Se não ganhar um naco da Mega, estou convicto de que  apostas vencedoras serão sempre as que nos colocam à frente em nosso próprio esforço. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

ANSIOSO DEZEMBRO NATALINO

 Todo ano é a mesma coisa: dezembro dá as caras e, de repente, parece que alguém apertou o botão de “acelera tudo”. As ruas se enchem, as agendas se complicam, os mercados viram arenas de gladiadores atrás de ofertas dos panetones e perús que, com certeza, acabarão sobrando depois das festas. Nas gôndolas e mesas dos lares.
 

Em novembro, eu já percebia essa ansiedade natalina que, invariavelmente, chega antes das luzes piscantes e demora mais que os enfeites para ir embora. É uma ansiedade curiosa, do tipo que não dói  mas cansa. 

A gente acorda com a sensação de que tem algo urgente para resolver. Só não sabe exatamente o quê. Talvez seja comprar presentes, aqueles mimos de baixo custo e, se possível,  bom gosto. Talvez lembrar onde guardou as bolas da árvore do ano passado. Quem sabe não é o tal espírito natalino tentando sair — tímido, cambaleante, procurando espaço entre boletos e compromissos.

Observem que nas conversas nesses dias, ninguém responde “tudo bem”. É sempre “na correria”, “uma loucura”, “estou me virando”. Até parece que estamos todos numa enorme gincana anual cujo prêmio é chegar ao dia 24 com a ceia completa e a sanidade intacta. Missão quase impossível.

E, no entanto, tem algo reconfortante nessa bagunça de final de ano. É como se a cidade inteira respirasse no mesmo ritmo meio atrapalhado. Um espirro de esperança aqui, uma risada nervosa ali, aquele vizinho testando pela décima vez a tomada do pisca-pisca. Somos todos personagens de um grande ensaio geral para a noite de Natal.

O curioso é que, no fundo, a ansiedade natalina também tem seu charme. Ela nos lembra que o ano passou, que vivemos coisas demais para caber em uma retrospectiva de rede social, e que — apesar da avalanche de pendências — ainda somos movidos por um desejo bonito: reunir, celebrar, estar perto.

A verdade é que dezembro é um mês ansioso por natureza. E nós, coitados, ficamos a tentar acompanhá-lo com café, lista de presentes e um humor que oscila feito luzinha de árvore barata. Ah! Tem as notícias de jornais, sempre com mais brigas, divergências políticas presas a tornozeleiras eletrônicas ou a opiniões imutáveis. E, no ano que vem, teremos campanha eleitoral. Socorro!

Mas aí chega a tão esperada noite de Natal. A mesa posta, as risadas, a farofa temperada, alguém discutindo que aquilo não é peru, mas um frango peitudo. “Eu nem provarei se ficar muito seco”, decreta a sogra com aquele olhar de cobra criada. Chega a hora dos abraços e percebemos que, no fim das contas, valeu a pena. A tensão se dissolverá com o aroma do café da manhã do dia 25.  Até que, claro, tudo recomece no próximo ano.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Quando o feriado é na sexta-feira

 O humor das pessoas na sexta-feira é mais positivo e feliz do que em outros dias da semana. O "sextou" é a antecipação do fim de semana, as pessoas aproveitam essa queda nos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, para curtir uma rara sensação de alívio e relaxamento. Melhor ainda quando é feriado na sexta-feira. Aí é quase um presente divino embrulhado em um calendário.


Na quinta à noite, o despertador já é olhado com desdém, afinal,  ele não tem poder algum no dia seguinte. A gente dorme mais leve, como quem sabe que  o dia seguinte o mundo pode continuar girando sem a nossa pressa.


A sexta, quando é feriado, tem um brilho diferente. O café parece mais aromático, o sol mais simpático mas, se chover, já começa a especulação sobre quais séries nós vamos finalmente concluir na TV. O ideal é ignorar o noticiário, político e focar nos cadernos de variedades. E se o vizinho  ligar o som alto às dez da manhã, eu vou assimilar a sensação de que ele se tornou um DJ de boas intenções.


Aqui em casa esse dia especial de folga, começa com algumas promessas tipo, arrumar a casa, fazer exercícios de alongamento entre outras frugalidades. No fim, cumpre-se apenas a parte de descansar o corpo e a consciência ainda aplaude. Nada de remorsos. Eu me permito achar que até o final do ano, antes do Natal, darei um jeito. 


O feriado na sexta é o par perfeito do domingo. Os dois se olham de longe, separados apenas pelo sábado, e formam o que os especialistas chamam de “mini-férias psicológicas”. A alma respira, o relógio desacelera e o coração agradece a generosidade do tempo.


E na segunda, a gente volta mais leve, quase acreditando que poderia viver assim: quatro dias de semana - três de descanso -, num mundo onde o calendário aprendesse a, de vez em quando, ter um pouco de compaixão.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Instantes eternos

No ano passado, enquanto caminhava próxima a orla, na Praia do Cassino, me  deparei com uma cena singela: um casal de idosos sentado em um banco, mãos entrelaçadas, olhando o mar. Não trocavam palavras, apenas silêncios. Mas havia ali uma comunicação tão intensa que me senti intruso por alguns segundos. O vento trazia o cheiro de maresia e o barulho das ondas completava aquela pintura de serenidade.


Imediatamente lembrei a frase “viver é muito perigoso, mas é bom.” do personagem Riobaldo, em Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. E aí voltei aos nossos dias - eventos extremos de profunda estiagem, seguidos de enchentes de proporções históricas. Pensei em como, apesar de tantas agruras, a vida se sustenta em momentos assim — pequenos, discretos, mas que têm a capacidade de eternizar o instante.


Continuei a caminhada e, um pouco mais à frente, um grupo de adolescentes ensaiava passos de dança para o Tik Tok. Entre risadas e poses improvisadas, repetiam a mesma música dezenas de vezes, até que o celular marcasse o “take perfeito”. De um lado, a eternidade da calma. De outro, a urgência do agora. A vida é esse vaivém.


Na volta, lembrei a citação de um amigo músico que, ao querer me tranquilizar sobre a brevidade existencial me disse: “A gente só descobre a grandeza do tempo quando para de correr contra ele.” Carreguei essa frase comigo especialmente nos dias em que quase não reconheço o senhor refletido em meus espelhos. Talvez seja isso: parar um pouco, respirar e aceitar que nem tudo se resolve na pressa ou é passageiro.


O casal, ali naquele banco, me ensinou que a cumplicidade dá conta do silêncio. E aqueles jovens, me alertaram para a leveza de rir sem medo do ridículo enquanto meu sábio amigo, me entregou uma chave à reflexão. 


Na soma de tudo, percebo que o tempo não é inimigo  — é professor. Ele mostra que não precisamos de grandes feitos para marcar nossa passagem. Basta viver com efetiva presença no aqui e agora, exatamente porque é nesse intervalo que se guarda a eternidade.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

O tempo é rei

Assisti ao show de  Gilberto Gil que, aos 83 anos, retomou as apresentações, após a morte da filha Preta Gil. “Tempo Rei” é um espetáculo perfeito, com momentos que me levaram do sorriso às lágrimas, em pura resposta à sensibilidade do artista à sua  reflexão sobre a natureza transformadora do tempo, soberano absoluto, mas nunca uma força de extinção. A frase "Tempo rei, ó tempo rei, transformai as velhas formas do viver" é a aceitação da mudança constante e, em meio a isso, a busca por um propósito a essa curta passagem terrena. 



Nas cadeiras abaixo da minha, tinha um grupo animado de jovens senhoras que, entre os muitos assuntos, recaíam, basicamente, na questão da saúde. Dores lombares, enxaquecas mas, especialmente, nas diversas classes de medicamentos antidepressivos, que estimulam a serotonina, nossa importante “molécula da felicidade”. Trocavam vivências, desde efeitos colaterais aos possíveis sintomas de abstinência ao abandonar os remédios. Tudo tarja preta!




Uma delas disse que sofrera muito tempo com transtornos de ansiedade e esses remédios a haviam salvado. Mas falava de olhos fixos ao palco, ansiosa. Quando passou um ambulante oferecendo vinho, as três brindaram com um duvidoso cabernet sauvignon. Foi aí que, por alguns momentos, entramos em sintonia. Uma delas gritou: “Vinho é o meu calmante!” As amigas riram, levaram as taças em direção ao palco e, com certeza, naquele momento a alma delas cheirava a talco, “feito bum-bum de bebê" como, posteriormente, cantou Gil.




Mas levar a bebida à condição de bálsamo também é exagero. Um taça, quem sabe, estabiliza. Os vinhos, inclusive em cultos religiosos, representam a alegria, a fartura e a benção. Mas na medida certa, sem o trágico caminho do alcoolismo. E aí volto às moças do show. Movidas pelo vinho, naturalmente se abriram a comentar sobre amores, ilusões e desilusões. Estavam solteiras pelo que entendi. E em busca de amores, senti. Uma delas reclamou que o tempo estava passando muito rápido. Perdi o resto do comentário porque o show iniciou. 




Eu que já superei a fase dos medicamentos, mas sigo parceiro de bons vinhos, lembrei outra canção sobre o tempo, “All Things Must Pass” (Tudo Passa), do beatle George Harrison, que já partiu mas deixou sua mensagem: “O nascer do sol não dura toda a manhã, nem um céu carregado de nuvens será o fim do amor que partiu sem aviso. Nunca será sempre assim, cinza. Afinal tudo passa”. 




E neste momento, já distante da juventude, aprendo com a maturidade a valorizar cada dia vivido. Um amigo poeta - o Sid D'Jesus - uma vez disse, ao me ver frustrado com essas coisas típicas de um cotidiano difícil. “Não esqueça jamais: sonhos não possuem prazo de validade. A vida coloca obstáculos, mas tu define os limites”. E talvez por isso, Gil supera a perda de uma filha ao voltar a seu público, cantando:  “Não me iludo. Tudo permanecerá do jeito que tem sido. Transcorrendo, transformando. Tempo e espaço navegando em todos os sentidos”.


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Inverno no calor dos encontros

 Confesso que já gostei mais dos invernos. Apesar da chuva, da geada que  resseca a grama, eu dava mais atenção à correria de meus filhos, gostosos de apertar, feito bichinhos de lã, com suas bochechas vermelhas e fofas. Lembro do frio que cortava feito diamante o vidro da janela e me obrigava a recorrer aos chás, cafés especiais e, quando possível, provar vinhos mais encorpados. Até uma confraria criei ao lado de amigos. O ar gelado era desculpa para reuniões animadas. 


Enquanto o gelo cobria a capota dos carros, lá fora, no calor da lareira esquentava-se a vida. Lembro dos amigos que recitavam poesias, inspirados pelo mesmo deus Baco que, de propósito, os fazia esquecer estrofes, ou engolir rimas. Mas tudo era válido, quente e aconchegante. Porque era inverno e estávamos juntos. 


A lareira parecia nunca apagar, a adega sempre cheia. Os confrades traziam seus vinhos e pães, queijos, salames coloniais e caldos a ferver seus vapores aromáticos. O inverno se cobria de um frio suportável assim, mesmo que insistisse em chuvas intermináveis, entremeados de raros dias de sol pleno, abaixo de zero. Lagartear era tudo o que se precisava para recarregar as baterias.


Chimarrão, chás de todos os tipos e cafés servidos direto da cafeteira italiana. Era energia pura, que se agarrava na certeza de que toda estação tem seu encanto, mesmo que absolutamente fria, com ares melancólicos, quase depressivos. Eu não me permitia sofrer contra o óbvio. Porque reclamar do inverno frio, se não tinha como ser diferente. A alternativa, o norte ensolarado, era apenas uma fantasia cara demais para ser verdade. E duraria poucos dias. Longos seriam os meses a pagar passagens aéreas e hospedagem.

Quero de volta esse frio que convida a algum tipo de celebração. Que não me isole num edredon solidário. É bom, mas não é tudo. Brindar a reação ao frio é importante também. Logo ali teremos o advento gostoso da primavera, em seguida o verão, onde reclamaremos do calor, cada vez mais extremado.    


Mas por enquanto, quero a certeza de que, com algum esforço criativo, não nos faltará parceria para aquecer a tão necessária alegria de viver. Encontros próprios para se quebrar o gelo, melhorar o humor. "E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia, dentro de mim, um verão invencível," filosofou o escritor franco argelino Albert Camus. Que assim seja!

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Crise existencial e um cabernet

 

Algumas vezes, me pergunto se está tudo realmente bem encaminhado na minha vida. Uma amiga, psicanalista, diz que todos  nós passamos por esses momentos. Questões existenciais são perguntas frequentes, e profundas, sobre a natureza da existência humana, o propósito da vida, a liberdade, a morte. Qual o significado de tudo isso? Depois de muita leitura e  alguma autoajuda barata, decidi pela constatação que considero  definitiva: vivemos entre a ilusão da felicidade eterna e a certeza do preço que pagamos para encontrá-la. 


Um vizinho, parceiro de confrarias, acompanhou minhas divagações filosóficas, e ameaçou me tirar o copo de vinho se eu não trocasse a pauta pesada por dúvidas mais objetivas e frequentes.  “Será que vai esfriar mais?” sugeriu. Mas a pergunta congelou no ar e eu retomei a filosofia barata sobre a condição humana e a busca da perfeição por meio da sabedoria, empatia e comportamento íntegro. 


Corri até a sala, abri outra garrafa e decidi esquentar meus amigos com taças de um bom cabernet. Mas ao segundo gole, lá veio o vizinho, provocando ironicamente, ao reafirmar que a noção de perfeição pode e deve ser questionada, “afinal errar, como o vinho que tu me serviu agora, é parte de nossa condição existencial”. 


Bebia o que eu oferecia e ainda criticava, justificando que a imperfeição fazia parte da humanidade. “É o que dá asas à evolução. Por isso, na próxima vez, vais me oferecer um Malbec, vinho bem mais encorpado e adequado à temperatura de hoje”, sugeriu com ar de esnobe sommelier. Certamente esse amigo sabe muito pouco sobre evolução, ou filtra o que lhe serve em bate-papos etílicos. 


Corri à adega e voltei com o vinho encorpado exigido. Quem sabe assim, conseguiríamos uma pitada filosófica sobre a busca por sentido em um mundo aparentemente despido de significado. E reservamos um viva às safras de tintos robustos, às conversas malucas, provocações bem humoradas e a paciência de quem chegou até fim deste texto. Aparentemente, bem encaminhado. Tim-tim! 

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Até que a instabilidade os separe

Ela era uma das maiores divulgadoras de jogos de azar no país, ele filho de Leonardo e igualmente intérprete sertanejo.  Eu me refiro à influenciadora Virginia, que nessa semana anunciou a separação de Zé Felipe, prometendo que serão “apenas amigos”, aquele lugar comum de todos  divorciados que se esforçam em manter a elegância, apesar do roteiro de “sofrência” que costumam cantar. Ganharam notoriedade por serem famosos, mas li nos jornais que, no ano passado, houve um aumento nos divórcios no Brasil, marcando um recorde de 420 mil casos. 


O amor para todo o sempre, está cada vez mais finito, atarefando cartórios na discussão de sentimentos e partilhas, às vezes, nada amistosas. Sim, desse total,  340.459 foram realizados por meio judicial e 79.580 de forma extrajudicial. O número de casamentos, por outro lado, apresentou uma queda, refletindo a tendência de diminuição contínua desde a pandemia. É o amor perdendo para a paixão? Meu coração romântico ainda tenta uma salvação para as ditas uniões estáveis, cada vez mais sujeitas a chuvas e trovoadas. 


Talvez a sertaneja Virginia tenha confundido a moral dos relacionamentos com a do jogo que divulgava em redes sociais. Mas o “Amor não é jogo de azar”, já alertavam os igualmente sertanejos Bruno e Marrone. Quando termina, por esse ou aquele motivo, deixa lá seus rastros de bons momentos, mas principalmente, muita mágoa e frustração por tantas promessas e juras corrompidas.  Eu sei do que falo, estou em um terceiro relacionamento e, desta vez, mais curtido e experiente com a vida à dois, sei que ela deve ter um bom acordo e regras para depois não ficar naquela discussão tipo “a culpa é tua”. 


Tenho um amigo que, nos longos anos em que convivemos, já deixou o lar umas dez vezes. Um quase recordista da rendição. Atualmente vive próximo a ex mas se diz independente. Livre! Pensa que me engana, eu sei das visitas íntimas sorrateiras que promovem. Meu pai dizia que o mundo da tecnologia, da cultura de massa e o número avassalador de divórcios, não acabaria com os casamentos, mas o tornaria flexível na mais ampla leitura dessa palavra. Entre tapas e beijos é o que tenho percebido.  Estarei errado?


quinta-feira, 15 de maio de 2025

A salvos no pleno outono

 

Outono é minha estação favorita. E não é apenas a sensação térmica amena que me seduz, ou os doces aromas de chocolates quentes,  a volta dos assados, o calor do forno. Manhãs frias, tardes quentes, noites que pedem um cobertor. Existe algo a mais na troca de estações. É uma predisposição a misturar alegria e melancolia, a pedir vinhos mais encorpados e cervejas escuras. A exigir minutos a mais na cama na hora de levantar. Algo acontece e não tem a ver com quedas hormonais ou  pressão arterial. Sim, o vovô está a salvo. 


Um amigo viúvo, diz que a antecipação do outono o faz lembrar o passado, com a falecida. "Era o período em que estávamos envolvidos com nós mesmos e tudo parecia conspirar a favor”. Hoje tem uma namorada, mas a relação deles é tipicamente de verão. Viajam juntos, curtem praia, bares e fazem amor até cansar. E acho que ele cansa mais, do que faz. Depois, a coisa volta à rotina, como se uma barreira invisível os colasse ao cotidiano. Sozinho, percebe a movimentação do ar, dos ventos, das questões interiores, da natureza que sutilmente se transforma.


Outono e especialmente o inverno,  exigem um pouco mais de nós. Assim como o corpo pede alimentos calóricos, o espírito também precisa de um bom cobertor, de um sopão aromático onde a essência que lhe dará tempero será a energia acumulada nos anteriores dias onde a luz era farta. 


Outra amiga, me segreda que sonha em ter alguém com carinho e afeto quentes. Mas antes disso, reconhece, precisa mover as resistências geladas que a abraçam. Os medos, a perda do espaço. Mas o outono é mais leve justamente para ajudar nessa troca, digamos assim, de folhagem existencial e quem sabe,  liberar os empedernidos a essa busca.


É bom ter alguém para aquecer. Não importa a motivação: amor, identidade ou interesse simplesmente. Não é esse o outono que você idealiza caro solteiro convicto? Abandonar as redes sociais e por algumas horas se refugiar em um bom e macio cobertor. Livros ou uma seleção de filmes não-depressivos, ajudam muito. Um jantar quentinho com os amigos. Um chá com familiares domingo à tarde e uma fatia daquela torta, receita antiga das tias e vós. É outono puro. 


Época linda para se observar os campos, paisagens urbanas, especialmente no pós tragédia climática que nos atingiu. O tom amarelo-dourado das folhas, ilustram instantâneos magníficos. Lembro do meu pai, na sacada, logo após o almoço. Permanecia ali, atento, emoldurando pensamentos bons e retornando alguns minutos depois para o interior da casa, sempre com seu melhor sorriso outonal.


No verão, é diferente, você quer se integrar à paisagem. Assumir os tons criados pelo sol. No inverno, a chuva e a geada nos obrigam a cerrar o olhar e as cortinas. Observamos a vida através das janelas. Muitas vezes a tristeza aperta. A primavera é linda, mas ligeira. Aqui no Sul, chove muito e lá se vão as flores e as cores vivas. A primavera é perfeita demais para garantir-se a eternidade.


Aproveitemos então, neste outono, as memórias sem dor, os projetos sem prazo, os dias amenos e a brisa que varre a estética bonita das folhas secas. Vamos fingir que reinventar a vida é simples. Que conseguiremos decifrar o que ainda nos angustia e que, examinado a fundo, com todo o rigor, não deve ter a menor importância. 

sexta-feira, 28 de março de 2025

Turismo da reconstrução


Vinha naquele ritmo de um sujeito saudável mas carregado de sacolas de compra. Um mini rancho, proporcional à aposentadoria que passou a receber desde janeiro. Mas era um sujeito prevenido. Tinha acertado  uns bicos de marcenaria para sempre ter um extra. Planejava conhecer melhor o Rio Grande do Sul. Por exemplo cidades devastadas pelas cheias. Como está a reconstrução? Ao me avistar apontando na esquina, perguntou o que eu achava de seu projeto “turístico-cultural”. E me prometeu  iniciar o roteiro pelo Vale do Taquari, “vou dizer que sou amigo do colunista do Alto Taquari, em Arroio do Meio”, brincou.



O que esse amigo propõe é um sadio turismo regional. Temos o que exibir, desde paisagens naturais, gastronomia e cultura. Ele está certo, assim como os quase 600 mil visitantes internacionais que, apenas em janeiro deste ano, chegaram ao nosso estado. Por enquanto as vinícolas na Serra e Gramado - é lógico - atraem num primeiro momento. Mas esse mesmo amigo lembrou outras regiões que valeriam um passeio.



Atualmente, a grande maioria das cidades gaúchas tem condições de absorver um razoável fluxo turístico. Esse meu amigo lembrou que esteve a trabalho em Lajeado e curtiu muito as horas de folga que viveu. Comeu e bebeu bem, comprou um mimo bacana para a esposa e, na hora de retornar, ainda encontrou quem lhe oferecesse cervejas artesanais produzidas na região. “Só me faltou conhecer o Morro Gaúcho. Mas voltarei”. Bem diferente da vez em que passei pela região, muitos anos atrás, num domingo, e não encontrei um único boteco para um lanche. 



Ajudei meu vizinho a carregar as compras até seu edifício. E lembrei dos dias de enchente - em setembro do ano passado, quando pensei que a Capital não seria a mesma. Adeus, turismo. Mas vejo que não é bem assim. Estamos reconstruindo, oferecendo novas atrações e creio que isso se repete em todo o Estado. Cada um à sua maneira, mas convencidos de que se é lazer para os visitantes, é fonte de renda, empregos e um importante meio de valorização da cultura e patrimônio locais. 


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Viva a Repúbica!



Não há nenhuma razão, é isso que está errado, não aceitar nossa condição de mulher, de boneca sentimental, mas o que fazer! Mas por que usamos tanto o coração? Ai que tédio, ser tão sentimental... Por que não ser de pedra, como os homens? Mas é inútil querer imitá-los. Temos que nos conformar em invejá-los" Púbis Angelical - Manuel Puig

Essa história aconteceu há pouco tempo e tem a ver com o 15 de Novembro, feriado da proclamação da república brasileira. O movimento que explodiu lá em 1889 derrubando a monarquia, incentivou Jane a se rebelar contra Jonas, o marido. Ela o acusava de transformar uma bela união estável em um reinado absolutista. Ele o imperador máximo e ela, uma típica rainha do lar, onde o cetro se transformava em vassoura.

 

Jane sabia que, em parte, a culpa era dela. Incentivara mimos demais no início da relação e  Jonas abusava. Por exemplo, exímio cozinheiro na fase de namoro, conquistou a esposa com risotos variados e ainda era carinhoso, gentil e vigoroso amante. Toda semana lhe oferecia flores, ou mimos como livros e doces especiais da confeitaria favorita dela. 


Jonas alegava que assim, manteria a doçura na medida certa para os momentos mais amargos da vida que, inadvertidamente, chegaram apesar dos quindins e outras guloseimas. O marido não se conformou com as queixas. Sentiu-se igual ao Jonas bíblico, preso à barriga de uma baleia. Mas se essa era a sua missão, se esforçaria mais  para voltar a ser o marido que a fazia feliz. 


Jonas reclamou do sufoco nos últimos tempos. Ambos haviam sofrido com o coronavírus, a casa onde vivem, escapou por poucos das cheias, mas todos seus amigos haviam sido afetados.  E de bom esposo, quem sabe, havia se tornado um sujeito assustado com as tragédias naturais. É claro que ela não caiu nessa desculpa. E xingou a acomodação em todos os níveis. Todos! 


E foi aí que acendeu a luz de emergência na cabeça de Jonas. E partiu para um plano que o livrasse da barriga de qualquer baleia doméstica. Jurou que, a cada virada de mês - sem uma data específica - celebrariam a proclamação da “Repúbica” dos países baixos (revisores, sem o L mesmo). Uma forma marota de afirmar que além dos acepipes que ela se habituara em mais de uma dezena de anos, seria um exemplo dedicado de fervoroso amante. 


Jane achou justo e divertido, mas desconfiou de alguns termos do acordo como, “na virada de mês” ou “sem data definida”. Sentiu nessas palavras  um certo tom de procrastinação à caminho. Mas não bancaria a insensível.  E só por isso, deixou o alerta de que, em caso de rompimento do acordo proposto, iria buscar uma comemoração fora de casa, sem direito a queixas ou condenações. 


Ainda citou o próprio Jonas que, no período inicial da relação proclamava:  “O amor elimina o hormônio do estresse, libera endorfina, aquela  sensação prazerosa” e, aparentemente, havia assumido uma condição de marido relaxado. Era um Jonas de castigo, na barriga da baleia do comodismo. Mas se na criação da república brasileira houve um compromisso pela unidade, ela exigia rigorosa fidelidade às antigas promessas do casal. Era isso ou ele sofreria um autêntico golpe de estado, bem lá, na tal “repúbica.” 


quarta-feira, 2 de outubro de 2024

O voto e a consciência

Na semana passada, por pouco não ultrapassei erradamente um acesso rodoviário. Esbravejei contra a falta de sinalização. Foi aí que meu caroneiro, discretamente, apontou a imensa placa, com seta e velocidade limite indicadas. Tudo perfeito, não fosse a pichação com riscos que a encobriram totalmente. E aí me dei conta de que a maioria gosta de criticar administrações públicas mas esquece sua parte nisso. 


Com certeza não foi um parlamentar sem noção quem destruiu a sinalização. Talvez tenha sido um sujeito que a toda hora, critica os políticos. É fácil dos candidatos despreparados e da falta de ação nas esferas governamentais. Queremos que se cumpram as leis, mas  aceitamos deixar nosso rabo preso a uma placa destruída de trânsito.


Vejo militantes, muitas vezes, constrangidos ao divulgar as propostas de seus candidatos, como se fosse um pecado, uma guerra santa que desmerece, indiscriminadamente, o esforço de tantos. Serão todos assim? Anular os votos em protesto é uma promissória em favor dos que lucram com a miséria, com a ignorância. Os maus políticos.


Outros reclamam das propostas, da mesmice apresentada em ralos minutos nos meios de comunicação. Querem originalidade, mas em seus cotidianos, o que fazem para tornar a vida melhor, menos repetitiva? Alguns quando chamados na escola porque o filho aprontou, por exemplo, desabam em ira contra os mestres, na defesa irracional dos rebentos. 


E os que praticam pequenos delitos? Receptam, por exemplo,  fios de cobre que escurecem vias urbanas sustentadas com nosso caro imposto! Usam o carro da firma para assuntos pessoais e, se as taxas são muitas, sonegam. Pagar o imposto e cobrar sua aplicação correta, seria bem mais ético. É fundamental ler as propostas que, afinal, representam o nosso futuro. 


Candidato não brota em  árvore. É um sujeito igual a nós, que bota a cara a bater por gostar de política. E se ele entrou nessa para se locupletar, na próxima votação, o povo que é atento, o pune nas urnas. Nem precisa conspirar nas redes sociais. Mas alguém aí fiscaliza? Lembra em quem votou na eleição anterior? Que feio! Anotemos tudo, então. 


Está na hora de limpar a política do conchavo espúrio, do interesse exclusivamente pessoal. Pensar no coletivo faz o indivíduo andar melhor, mais seguro, dono de seu nariz. Não desligue o rádio e a TV, anote e se faltou criatividade, sugira algo melhor. Porque o maior mal está à espreita dos que se omitem. 


Fique atento: alguns têm um título eleitoral em uma mão e uma arma na outra.  Nós que ocupamos as mãos com o trabalho que carrega o país, vamos levar o título eleitoral  no bolso esquerdo ou direito do peito e transformar esse documento na arma que dispara saúde, cultura, segurança e oportunidades. 


Aquilo que prometem apenas nós, gente do povo, pode fazer valer, se usar corretamente a urna eleitoral. Portanto, atenção ao horário gratuito, que não tem nada de gratuito e pode custar caro aos que se omitem. Dê essa chance a você mesmo e, se antes não funcionou, faça um mea culpa, vote outra vez. Mas nunca,  jamais, se omita.

sábado, 21 de setembro de 2024

Divertidamente no espelho

 

Uma querida amiga curtiu minha crônica  Divertida Mente. “Enfrentamos a  ansiedade. Estamos juntos nessa.” Eu fiquei pensando sobre como esse mal vem arrastando gente boa, dedicada aos afazeres diários e os obriga a enfrentar o risco do desânimo para quase tudo. Aquela sensação de fugir das coisas boas quando, vejam só, o importante é justamente estar aberto a tudo que nos melhore o humor. 

Lembro da vez em que fiquei me enrolando para ir ao aniversário de um amigo, vizinho de porta. E o que aconteceu? Meu pai literalmente me empurrou para fora de casa. Ao chegar na festa, tudo passou. Foi uma noite bacana de risos e alegria. Se eu tivesse seguido em casa, o enjoo teria continuado, firme e talvez, mais forte. 



Na semana passada li um extenso artigo da norte-americana Alicia Meuret, professora de psicologia que, de certa forma, confirma o acerto de meu velho. O  ilustre leitor encaramujado pode me perguntar: E quando falta aquele empurrão amigo? Bom, aí é que entra o exercício proposto por esse estudo psicológico, ou seja, reforçar ou criar “uma  musculatura da felicidade,” o que não é participar de uma academia de fisiculturismo (mas se lhe fizer feliz, vale). 




Meuret percebeu que adultos com depressão ou ansiedade ao participarem de sessões de psicoterapia focadas em aumentar as emoções positivas, tiveram melhoras consideráveis em relação a outros  grupos cuja terapia se concentra em reduzir as emoções negativas.  O estudo valoriza o que classifica de sensibilidade à recompensa e a partir daí gerenciar suas emoções. 



Por exemplo, eu não queria ir à festa. Estava no auge da depressão comum para muitos na adolescência, mas ao chegar lá, aos poucos fui absorvendo o astral que celebrava com humor, risos e oferecia lembranças que dariam energia a essa tal musculatura de experiências felizes. E isso vale até para aqueles que têm dificuldade em viver situações prazerosas - a anedonia - como se chama cientificamente.



Isso não significa que preciso fingir não ter problemas psicológicos, o que Mauret orienta é basicamente criar alternativas para se atingir a alegria e, quando chegarmos a esses momentos, valorizá-los, criar lembranças agradáveis. “Comece planejando uma atividade por dia que deixará você feliz”, aconselha a psicóloga. 



Algo tipo de se presentear com uma comidinha favorita, ligar para um amigo, ou dar uma escapadinha a uma confeitaria. Sei, você não eliminou as coisas ruins, mas criou memórias positivas. Pode parecer piegas mas, em meu caso, funciona muito bem. Bate uma sensação ruim, eu fecho os olhos e volto aquela lembrança boa que cultivei - o som de uma música, do vento ou um dia de muita luz. 



Muitas vezes nem lembro direito o que aconteceu, ou onde vivi aquele momento alegre. O importante não é ter um registro quase fotográfico, mas amplificar a  sensação de que permanecerá ali, tatuada na musculatura de recompensas boas.  Afinal, não temos uma borracha que apague a  dor, frequente em dias de tantos malfeitos. Mas valorizar o que nos eleva a estima, como diz, jocosamente, um amigo, “parece difícil, mas não é fácil”


sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Inverno é a geleira da paixão?

O vestido da moça levantou até onde não deveria, provocado pelo forte vento da manhã. E a cena, ao contrário de qualquer conotação sexy, foi hilária. Era uma cebola de panos multicoloridos até se chegar a um abrigo velho, cor de abóbora que provocou risos da turma que aguardava o sinal verde, na esquina da Rua Uruguai com Siqueira Campos, no Centro Histórico de Porto Alegre. É difícil manter a elegância no frio. Namorar ainda é pior.

Aprendi alguns macetes que podem ajudar a esquentar os corpos em todos os sentidos. Um jantar a dois, por exemplo, nos dias frias não depende apenas de caldos e sopas. Pitadas estudadas de pimenta, por exemplo, ajudam muito. Dependendo da variedade, desde a de menor até as de maior efeito picante (ui), a pimenta melhora a irrigação do sangue, o que causa uma sensação de bem-estar e chega lá, naquela região que se escondeu do frio abaixo de ceroulas e outros panos.

Até amendoim com casca pode ajudar. Sim, não é piada, a vitamina B3 favorece a circulação sanguínea, aumenta a vaso dilatação. Nem precisa sacudir a casca que caiu no colo do namorado (mas nada impede a prática).

Chocolate quente – nem tanto para não queimar dedos e línguas – mas na medida para liberar energia, graças a três componentes – a cafeína, a teobromina e a feniletilamina. A primeira estimula o corpo, a segunda especificamente o coração e o sistema nervoso, e a última, troca aquele ar de “tu tá mesmo a fim?” por um sorriso estimulante. Sem tristeza, o resto é com você, amantes latino. Aliás, tem gente que inclui o uso tópico do chocolate nas brincadeiras amorosas. Aprovo sem restrições.

Bem vestidos - E por favor, a dica final, fundamental. Permaneçam bem vestidos, cobertores para dar aquele conforto quente. Provocação com roupas também é válida. Fantasiem aqueles tempos adolescentes dos primeiros namoros, quando tudo era a tato, no escuro do cinema, ou no sofá da casa assistindo uma sessão da tarde da tevê, enquanto o pai vigilante roncava.

Lambuzados - Até chegar a hora que tudo, mas tudo mesmo aqueceu, se decide o que é possível ser descartado do corpo já aquecido. Afinal, somos gaúchos e - mesmo em invernos amenos - precisamos aprender a enfrentar essa estação quase estraga prazeres. Caso contrário será um festival de sopão, feijoadas, massas com molhos fortes pouco estimulantes. Muita boca engordurada, muita barriga cheia e pouca satisfação em outros campos.

Não é difícil namorar no inverno. Pratiquem! O negócio é ser criativo, ter paciência. Se der tudo certo, quando o vento levantar o vestido de uma desavisada na rua, ninguém se abalará para espiar.  Estarão todos muito bem comidos.

terça-feira, 13 de março de 2018

Incidente em Praga


Ao abrir a porta, a cena lhe pareceu familiar: uma silhueta de mulher atenta a um livro, emoldurada pela luz quente do entardecer que cedia espaço ao brilho do néon, abaixo de raras nuvens no céu de primavera. Lembrou a viagem a Paris no ano anterior. A Europa deixava de ser apenas uma coleção de cartões postais enviados por amigos extasiados, ou recortes de revistas, com dicas de lugares para se conhecer um dia. Roma, Londres, Madri, Lisboa e uma série de pequenas vilas perdidas em lugares que se tornavam ainda mais bonitos ao lado da mulher amada. Em um imenso pote de vidro, haviam guardado rolhas de vinho e espumantes de todos os cantos. Ali repousava o espírito feliz de um passeio inesquecível. Em todos os sentidos.

Aproximou-se da poltrona e a diarista assustada, desculpou-se por folhear o livro que inundava a mesa de imagens. Pagou a moça que levou consigo o asfixiante rastro de perfume e alvejante. Mas a mulher amada não estava mais lá nem em fotos, Tivera o trabalho de guardar para si, apenas as paisagens visitadas. Especialmente Praga, a linda cidade tcheca que encerrara a excursão. Com a grana já curta, permaneceram no “Ai 4 Angeli”, um flat restaurado, bonito como tudo naquela cidade acolhedora.

O gerente falava português! E foi assim - às margens do rio Moldávia -, na cidade das cem cúpulas, uma das mais lindas da Europa que juraram um amor tão harmonioso e duradouro quanto aquela romântica metrópole com suas ruelas de traçado irregular, a revelar belezas em cada curva e a surpreender com seu povo simpático e culto. Por ser a terra de Antonin Dvorak, o famoso compositor erudito, haviam combinado assistir a um concerto no Teatro Nacional. Mas naquela tarde, ela sentiu-se mal. Estava muito enjoada. Cansada da imensa caminhada.

Acabou convencendo-o a ir, mesmo assim, ao concerto da Sinfonia do Novo Mundo, escrita no período em que o Dvorak vivera em Nova Iorque. Era uma oportunidade única. Quando voltariam à Praga? E somente por isso aceitou deixa-la a sós. Antes do último movimento sinfônico, a preocupação com a amada, o fez deixar o teatro. Correu de volta ao flat.

Ao entrar no quarto, ao contrário da mulher abatida e nauseada, deparou-se com um cenário kafkaniano! Sim, Praga é a cidade do atormentado escritor Franz Kafka. Na imensa cama, a mulher amada sofria uma terrível metamorfose de anjo em voluptuosa barata a rastejar em busca de roupas e desculpas sensatas.Qual a lógica para um momento assim?  

Retornaram em aviões distintos e o casamento que estava programado para o final do ano, foi cancelado em vários idiomas. Ouvi-la - mais tarde - justificar que a euforia, a beleza do passeio, o clima sensual da viagem a levaram a cometer tal desatino, apenas o fazia sofrer ainda mais. "Foi só uma aventura. Eu te amo!" jurou. Só?

O porteiro, um húngaro bonachão procurou consolá-lo: “Aconteceu aqui, longe de tua casa. Ninguém vai saber, se você não contar". Mas qual a vantagem de descobrir – em solo estrangeiro - que a namorada não tinha escrúpulos? E ainda perdera o final do concerto! Assim, enquanto folheava o livro, decidiu voltar a Praga. Ainda está em dívidas quanto a data. A única certeza é de que, desta vez, estará só.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Romantismo

Meu bem entenda, nosso problema é semântico.
Na verdade, eu não sou aquilo que idealizas.
O par perfeito, um ser etéreo, romântico.
Desista de mim se é disso que precisas.


À noite me encontrarás abraçado a lua.
Ou entre estrelas a medir o infinito...
Pobre tolo, dirás antes que meu verso conclua.


Imagina! Mensurar o imensurável!
Mas não será tua, a alma romântica?
Enquanto eu, patético, em esforço admirável
Tento empiricamente compreender física quântica.


Beijar é química pura. É a mistura homogênea de sais
Beijar eriça, tira um corpo da inércia!
Viu? Voltamos à física, apesar dos suspiros e dos ais.
Confundir com romance - me perdoe a rima - é solércia 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Marido dez porcento

Cansada do marido farrista, a indignada esposa o expulsou de casa. Não bastava a crise que lhe roubava clientes na loja e ainda tinha que aturar as escapadas conjugais. As amigas a recriminaram. Ele era trabalhador, simpático e boa pinta, embora volta e meia sumisse. Era um carteado em lugar ermo, pescarias em açudes de sereias e um celular repleto de números e ligações estranhas em horários incômodos.

Na meia idade, filhos criados, não precisava aturar um gato fujão. O único felino naquele seu espaço teria quatro patas peludas.Referia-se a Charles, um siamês de personalidade forte, por coincidência, presente do marido que, aliás, não se conformou com a expulsão. Queria a milésima chance. Mas resistiu bravamente ao assédio de flores e ligações chorosas. Ela jurou que também iria cair na noite, com as amigas. 

Mas bastava ouvir o refrão "...A terceira música nem acabou. Eu já to lembrando da gente fazendo amor. Celular na mão, mas ele não ta tocando..." e os dez porcento aumentavam na conta da saudade. No meio de tudo isso, até o siamês sumiu. Chovia muito, ventava demais e o gato não retornou como em outras vezes. Mais um macho a lhe decepcionar. Charles, pelo menos, era solteiro e independente, como todo bom siamês, consolou-se. Uma semana depois, apareceu o marido confessando o “seqüestro” do gato. 

Só o devolveria se o aceitasse de volta. Jurava ter amadurecido. Argumentou que era igual aos gatos que gostam de passar a noite na rua, e sempre retornam querendo carinho. Ou seja, se as mulheres amam os bichanos, devem compreender também os homens, que têm as mesmas características. A infeliz comparação provocou gargalhadas na esposa. 

O bom humor, mesmo nas horas difíceis, era o que mais a agradava nele. A noite tinha sido pavorosa. Chuva e vento, os bares vazios de quem lhe atraísse. Também sentia falta do "cretino sem-vergonha". Abriu a porta e entraram felizes, o homem e o bichano.  Mas alertou, com olhos de gata arisca:" Só castração para acalmar um gato fujão e virar um dócil amiguinho. Então, o mesmo vale aos homens fujões."

 "Não brinca assim...", gemeu o marido com ar sofrido. Ela falava sério. No dia seguinte, o bichano foi castrado. Acabaram-se as noitadas de cio. O outro gato, impactado, acalmou-se. Teve "castrados" o celular, que ganhou um novo número, e, pior de tudo, senha compartilhada. As festas, ou pescarias, ela acompanha. Ou ficam em casa assistindo filmes. Não sei se um marido fujão tem cura, mas por enquanto ela economiza os 10 porcento. 

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Democratas sonâmbulos

Sintonizar o rádio, ajustar a antena no melhor sinal digital é como abrir espaço para a pior em áudio e imagem. Não temos mais noticiários, temos séries diárias, com velhos e novos personagens em roteiros mal escritos, despidos de verdade. Quem de nós pensou que seria assim? Tanta renúncia, tanta voz perdida em discursos onde apenas permaneceram os murros aos céus. Hoje cada uma daquelas mãos fechadas desce para nos atingir na esperança. Não tenho mais bandeiras. Não me animo a dizer que um dia votei nesse ou naquele, porque me envergonha o voto que dei. Eu tenho uma vergonha alheia dos que defendem bandidos. O que é isso, companheiros?

Um certo romantismo revolucionário, como bem observa Fernando Gabeira em “Democracia Tropical – Caderno de um aprendiz”, torna belo, mascara os desvios criminosos de quem se admira. Eu que não tenho amigos para me emprestar um sítio, ou milhares de dólares para o custeio de advogados, paguei por meus enganos com juros e uma correção monetária e moral abusiva. Mas durmo em paz com minha consciência.

Em minha inocência olhava para as regiões carentes convencido de que lhes poderíamos levar cultura, educação, trabalho e amor próprio. Mas ajudamos aqueles a quem elegemos a fechar o círculo e, no inverso do esperado a repetir, de terno e gravata, o sistema brutal e individualista dos guetos.

Esse sistema corrompido ainda permitiu a formação de grupos bem arregimentados que se infiltravam em meio aos que nada tinham para perder e os educavam na arte do ódio, em ocupações em nome de causas sociais. Enquanto isso, os parlamentos mudos, a trocar votos por ouro, joias e contas no exterior.

Hoje sou vizinho de gente sem fé, sem disposição para nada que não venha de mão beijada, ou na força bruta, afinal “não dá nada”. E se me tirarem a vida por um celular velho, amanhã terá um mais na mão de um guri assustado. Se for preciso, morrerá também. Não ocupamos quem estava desocupado e eles se ocupam de nossa energia.

Cada partido, cada movimento, cada ação individual ou coletiva me parece estar contaminada com um vazio de propostas, de sinceridade. A imoralidade do Planalto contaminou a nação e hoje nos dividimos em siglas, em cotas, em codinomes. Somos filhos do insólito. A política virou uma armadilha.

A nossa missão, o nosso dever é desarmar essa armadilha, reunir as centelhas de indignação que ainda sobrevivem ali em seu espírito de cidadão e juntos formar novas lideranças. Eu falo aos que perderam familiares na guerra do crime, aos que perderam o direito a uma aposentadoria digna ou aqueles que jogaram fora a bandeira de seu partido. A culpa não está na ideologia, mas em quem a corrompe.

A novela em capítulos da Operação Lava Jato, só terá um final feliz, aquele que esperamos, se nos livrarmos daqueles que lucram com a nossa infame alienação, a nossa incentivada ignorância e essa estúpida convicção de que se der tudo certo para mim, os outros que se lixem. Os outros, com certeza, são os que nos lixam. Acordemos pois, brasileiros! Eu cansei desse sonambulismo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O legado de cada um


A vida passa tão rapidamente que não nos damos conta de coisas boas que poderíamos deixar gravadas em nossa história. Nada revolucionário, ou midiático, mas ações cotidianas que serviriam de inspiração aos jovens ou exemplo a ser citado pelos mais velhos. Na maioria das vezes, nos acomodamos em algum ilusório conforto material, ou nos impomos a um ritmo alucinado que engole o tempo, em nome da luta pela sobrevivência. Atitudes que embrutecem o espírito, envolvidas na indiferença que, fatalmente nos jogarão a um vácuo existencial terrível.

Tantas portas para abrir, mas as chaves, sempre nas mãos dos mais rápidos, nos levam a essa disputa insana pelo que imaginamos ser a realização pessoal. E não adianta rezar, ajoelhar pedindo bênçãos e ajuda aos desvalidos se logo em seguida voltamos a nos encerrar em projetos alienados ao entorno social e íntimo. Tantas vezes recriminamos, sofremos com as vilezas cotidianas, mas permanecemos acomodados e atentos aos relatos que julgamos importantes para nossas fantasiosas bibliografias.

Infelizmente não é só isso. É preciso mais para se atingir essa tal realização. Na semana passada li no Facebook de minha prima Lísia, formanda em Psicologia, onde lembrava que, logo no primeiro semestre na faculdade, uma de suas professoras solicitou que todos escrevessem uma carta endereçada a eles próprios sobre qual o legado que gostariam de deixar às pessoas ao cursar Psicologia. A carta foi lacrada e devolvida apenas no último semestre do curso.

Ela confessou que gostaria de “desaprender” algumas coisas e dar espaço a uma forma de viver mais livre e produtiva. Em outras palavras, fazer da profissão uma possibilidade concreta de ajudar aos outros, objetivo que se alcança com o estudo. “Gostaria de saber desapegar do meu eu e poder olhar para além dos meus limites e da minha realidade para que outros tenham a chance de viver, amar e aprender o quanto antes”.

Assegurou, antes mesmo de um contato mais efetivo com a psicologia, que seu legado deveria surgir do esforço em conhecer não apenas as verdades que trazia consigo mas, com respeito, buscar o entendimento da realidade alheia, o que se atinge com chances iguais para todos de um tratamento psíquico, “voltado ao melhor em saúde mental para um crescimento equilibrado, focado na essência do bem, para o desenvolvimento da humanidade”.

Com certeza, o verdadeiro legado de qualquer profissional, está na capacidade de levar qualidade de vida aos que necessitam de ajuda. Realização pessoal não é apenas retorno financeiro, mas, principalmente, aquilo que se atingiu muito além dos limites materiais e transformaram, positivamente, situações de conflito e dor. O dinheiro, se utilizado frivolamente, apenas cobre de adornos e paparicos que, um dia, serão arquivos mortos de projetos incompletos.

“Espero fazer jus a minha carta”, concluiu. Pelo que li e, diante da atitude apaixonada que se releva em artigos compartilhados nas redes sociais, pelo empenho na conclusão do curso, tudo está muito bem encaminhado na trilha de uma profissional que busca a felicidade na realização alheia. Que maneira bonita e completa de se deixar um legado. Quem sabe, outros não se interessem pelo “desaprender” desta cultura da inércia, por uma existência nova, repleta de humanidade que tanta falta faz na atualidade.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Delírio de verão

Lá no fundo, bem ao fundo, alguém acenava. Uma mão solta no ar, quase sem corpo, desfocada contra a luz do sol. A semana começara difícil. Pensou em ligar para o marido. Três dias distante. Três dias sem trocar uma ideia, sem carinho. Quem a observasse naquele momento pensaria que rezava, em voz baixa. Olhar sério, compenetrado na calçada à beira-mar no centro de Florianópolis. Mas era a luminosidade que reduzia a definição da vista já cansada. Sinal da idade e da teimosia em não consultar um oftalmologista. Virou-se de costas e retomou a caminhada.

Em plena crise, era um bom momento nas constantes viagens a trabalho que lhe causavam enjoo. Pior, passaria o final de semana sozinha. Mas alguns clientes insistiram para uma reunião no sábado ao meio-dia. “Esses caras não têm família?” Mas ela ainda era a renda mais alta em casa. Os filhos já adultos estavam independentes, mas o esposo remava contra a maré.

Pequeno empresário no Brasil é escravo de muitos patrões e vítima da sede por impostos e das instabilidades de mercado. Às vezes desconfiava que ele – talvez cansado dessa diferença – buscasse casos extraconjugais para “sentir-se mais macho, já que no salário perdia”, sem dar-se conta do preconceito que alimentava.

Seria fácil. Sempre em viagens de negócios em função da atividade que exercia, atendia um grande público feminino. Era marceneiro, e dos bons! Produzia peças para artesanato. Mas não, não cometeria tal desatino ao lembrar a italiana “muito sem graça” que encomendara entalhes para a próxima Páscoa.

“Coisa simples”, dissera o marido, não fosse a grande quantidade de outras encomendas, para tantas outras clientes. A italiana era a favorita dele. Vá lá, ela encomendava muito. Mas detestava quando chegava com sotaque forte e gestos largos para elogiar, repetidas vezes, as virtudes do esposo. “Ai tem…” pensava.

Longe de casa, em Florianópolis, em um hotel lotado, cercada de turistas querendo festa e executivos bem resolvidos financeiramente, todos cheios de disposição para uma aventura instantânea, e “tu ainda preocupada com o marido que vive uma situação muito diferente”, recriminou-se. O pobre deveria estar, naquele exato momento no atelier, trabalhando, bem escondido em uma rua simples, sem charme, sem paisagem bonita, na distante zona norte de Porto Alegre.

Quem sabe não seria a vez dela acrescentar emoção à rotina de sua vida? Aquele diretor da empresa concorrente lhe sugerira um vinho. Sem compromisso. Quebrar o gelo, trocar ideias de trabalho. “Sei…” Em casa, o maridão no trabalho e ela, solitária, carente, insatisfeita. Arrependeu-se na hora. O sol era só uma mancha no céu bem limpo e aquela visão distante – a da mão que acenava – ganhava forma, embora ainda imprecisa.

“Para de pensar bobagens, guria”. Ligou para o marido. Conferir é prevenir, sentenciou. Um funcionário atendeu. O marido fora entregar encomendas. Uma delas para a tal artesã italiana. O sangue ferveu de tal maneira que a paisagem paradisíaca da beira-mar de Floripa, ganhou tons vermelhos de ciúme.

Então era isso: uma entrega especial. E para ela, nem um telefonema de boa noite? Homens! “E eu boba, insisti para ele fazer dieta. Agora perdeu uns quilinhos e já se sente um galã!” Ao mesmo tempo, a imagem desfocada que antes parecia lhe acenar, ganhava forma. Vinha em sua direção. Era um homem. E se fosse bonito, adeus boa moça!

Quando a imagem ganhou definição, a poucos metros de seus incrédulos olhos, um novo choque: com um sorriso imenso e familiar, camiseta, jeans muito surrado e a barba por fazer – ali estava ele. Não o provável amante, mas o marido a lhe fazer uma surpresa. A primeira em tantos anos e com certeza, na hora certa.

Depois do abraço e beijo cheio de culpa e saudade, soube que ele decidira por uma folga “Vim dar uma incerta”, brincou. Só não contou que a passagem fora adquirida graças ao pagamento antecipado de uma cliente. Isso mesmo, a italiana. Ela não entenderia.

Sonhos em dias de Copa

Vivemos as emoções da Copa do Mundo de 2026. Em seus 39 dias, é a edição mais longa e a maior da história do torneio. E estranha!  Atletas, ...