Jovens suicidas, jovens depressivos. A fase mais bonita da vida - apesar das incertezas e medos – mas tão rica pela surpresa do novo e a possibilidade de mudança, acaba desperdiçada no desencanto depressivo. Iinacreditável em um mundo onde quase tudo pode ser diagnosticado, remediado ou mantido sob controle. Fico abatido quando vejo tantos guris e gurias a sofrerem de forma tão intensa que chegam ao absurdo de atentar contra a própria vida. No início da semana, o ex-baixista da banda Charlie Brown Jr, cometeu suicídio. Leio nos jornais que Champignon, como era conhecido, sofria muito desde a morte do parceiro de banda, o vocalista Chorão, por overdose de cocaína (outro ato suicida). Ele não soube abrir os olhos para as coisas boas que permaneciam, como as canções, os fãs, e família e esposa, grávida de cinco meses. A depressão deixa suas vítimas cegas, surdas e mudas. Cria uma capa egoísta – eu sei bem, porque muito lutei contra a depressão – onde parece que a dor do mundo se concentra em si e diante de tanta e injusta aspereza, chega ai extremo de querer a morte.
Na minha adolescência, ainda existiam alguns desses médicos da família. O tipo que valia a pena se chamar de “doutor”, que ajudava contra os males do corpo e ainda receitava sábias dicas quando a dor era na alma. Um destes profissionais, certa vez me sugeriu que toda a vez em que estivesse “pra baixo”, levantasse o moral escrevendo sobre coisas bonitas, positivas. No princípio era doloroso exaltar o sol, quando eu me sentia coberto de nuvens negras. Mas na rua o dia lindo acabava vencendo. E se fosse tempço nublado, chuvoso, me forçava a buscar a beleza que se escondia na água que rolava da calçada, lavava os paralelepípedos (que palavra imensa!) e realçava o verde das árvores, dando um ar poético, mas não melodramático ao cotidiano.
E assim, fui enfrentando as adversidades, os monstrinhos dessa tristeza que surge do nada, ou às vezes de uma situação trágica, mas que deve ser enfrentada, porque essa é a nossa missão. Acho que tanto os jovens músicos do Charlie Brown cantaram temas bacanas, que talvez tenham esquecido sua própria mensagem. Sempre gostei, por exemplo, de ouvir “Dias de Luta, Dias de Glória” , um verdadeiro hino à resistência ao afirmar “quanto mais a gente rala, mais a gente cresce (...) Com a cabeça erguida e mantendo a fé em Deus, O seu dia mais feliz vai ser o mesmo que o meu. A vida me ensinou a nunca desistir, Nem ganhar, nem perder mas procurar evoluir. Podem me tirar tudo que tenho, Só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz pra quem eu amo.”
Impressiona, não é? Então, sejamos aqueles que enfrentam todas as batalhas, que não são poucas, para vivermos também dias de gloria. Vamos além da nossa imagem no espelho, onde aquele “eu” que busca sempre o entendimento, não vai sucumbir diante das maldades alheias, dos pensamentos turvos, dos contrapés que aplicamos em nós mesmos. Se a dor é química, tem remédio, para tratar. Se a dor é do espírito, tem sempre alguém para te escutar.
E tirar lá do fundo, com total entrega, mesmo nas manhãs frias que antecipam à luta, a canção do Charlie Brown que concluía sabiamente: “Hoje estou feliz, acordei com o pé direito. E vou fazer de novo, vou fazer muito bem feito!” Isso vale para até para os jovens como eu, que já acumulam mais de meio século. Dias de boa luta para todos!
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
O véu que cobria a noiva
E lá estava o velho eucalipto no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Imponente, majestoso, até desabar sobre três pessoas que faziam sua caminhada habitual, ou simplesmente curtiam o verde que resiste ao concreto da cidade grande. Não vou aqui iniciar um tratado sobre a podridão que o devorava por dentro, não sou botânico. Mas a metáfora das aparências é irresistível. As cenas que assistimos no cotidiano onde as estampas – macias, bonitas e fofas – muitas vezes se consomem em uma feiura e aspereza interior que pode levar a grandes e surpreendentes tombos.
Apaixonado por fotografia, muitas vezes registrei eventos, casamentos, batizados e festas de amigos. Na maioria das vezes era contratado para trabalhos diferenciados, utilizando filmes e filtros, em cenas inusitadas. Hoje é comum, esse tipo de coisa, mas nos anos 70 eu conseguia um dinheiro extra e ainda me divertia. Ou tomava sustos. Foi mais ou menos assim, na vez em que fotografei uma noiva linda, morena de olhos verdes. Guria muito séria, frequentadora de Igreja. Ela e o noivo.
Tão envolvida estava com a idéia de fotografar o cotidiano, das aulas na faculdade até o curso de noivos que, numa dessas sessões fotográficas esqueceu que eu estava ali para registrar tudo. Minutos depois da foto em uma antiga loja de discos da Capital - um beijo tipo “selinho” no noivo, este sempre com pressa para voltar ao escritório, beijou apaixonadamente um cara que eu não conhecia, em plena Rua da Praia. Quando ela se deu conta que eu estava ali e havia registrado tudo, implorou: “Ele é só um antigo amigo. Foi uma brincadeira”, jurou.
É claro que joguei fora os negativos que a incriminariam. E ainda por cima, no dia do casamento, caprichei em outras fotos alternativas não comprometedoras onde o véu branco, símbolo de virginal pureza, contrastava com um sorriso enigmático. Soube que a relação durou exatamente um ano. O marido não precisou de minhas fotos para descobrir o óbvio. A árvore que haviam plantado crescia bonita, mas por dentro, a hipocrisia envenenava as boas intenções e não permitia dar corpo e força às raízes. Tornava-se casca e folhas... Nem precisou de vento para cair.
Certa vez, ao ler Adam Phillips, um psicanalista inglês, lembro que ele dizia que exigir monogamia aos casais era mais do que uma mentira, uma pressão para um a ser tudo para o outro. “É uma demanda moral irrealista”, ponderava. Mas igualmente alertava que as pessoas não estão preparadas para a infidelidade. Que sinuca, hein? Em síntese, todos querem ser felizes. E para isso escolhem casamentos e profissões, muitas vezes só pela projeção social a ser desfrutada. As aparências! E o próprio psicanalista aconselhava: “Há coisas muito mais importantes do que a felicidade: justiça, generosidade, gentileza.” Virtudes que, somadas, ajudam a manter a árvore da vida frondosa por muitos anos, com certeza.
Apaixonado por fotografia, muitas vezes registrei eventos, casamentos, batizados e festas de amigos. Na maioria das vezes era contratado para trabalhos diferenciados, utilizando filmes e filtros, em cenas inusitadas. Hoje é comum, esse tipo de coisa, mas nos anos 70 eu conseguia um dinheiro extra e ainda me divertia. Ou tomava sustos. Foi mais ou menos assim, na vez em que fotografei uma noiva linda, morena de olhos verdes. Guria muito séria, frequentadora de Igreja. Ela e o noivo.
Tão envolvida estava com a idéia de fotografar o cotidiano, das aulas na faculdade até o curso de noivos que, numa dessas sessões fotográficas esqueceu que eu estava ali para registrar tudo. Minutos depois da foto em uma antiga loja de discos da Capital - um beijo tipo “selinho” no noivo, este sempre com pressa para voltar ao escritório, beijou apaixonadamente um cara que eu não conhecia, em plena Rua da Praia. Quando ela se deu conta que eu estava ali e havia registrado tudo, implorou: “Ele é só um antigo amigo. Foi uma brincadeira”, jurou.
É claro que joguei fora os negativos que a incriminariam. E ainda por cima, no dia do casamento, caprichei em outras fotos alternativas não comprometedoras onde o véu branco, símbolo de virginal pureza, contrastava com um sorriso enigmático. Soube que a relação durou exatamente um ano. O marido não precisou de minhas fotos para descobrir o óbvio. A árvore que haviam plantado crescia bonita, mas por dentro, a hipocrisia envenenava as boas intenções e não permitia dar corpo e força às raízes. Tornava-se casca e folhas... Nem precisou de vento para cair.
Certa vez, ao ler Adam Phillips, um psicanalista inglês, lembro que ele dizia que exigir monogamia aos casais era mais do que uma mentira, uma pressão para um a ser tudo para o outro. “É uma demanda moral irrealista”, ponderava. Mas igualmente alertava que as pessoas não estão preparadas para a infidelidade. Que sinuca, hein? Em síntese, todos querem ser felizes. E para isso escolhem casamentos e profissões, muitas vezes só pela projeção social a ser desfrutada. As aparências! E o próprio psicanalista aconselhava: “Há coisas muito mais importantes do que a felicidade: justiça, generosidade, gentileza.” Virtudes que, somadas, ajudam a manter a árvore da vida frondosa por muitos anos, com certeza.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Dias de Pais Harmonizados
| Pai também curte presentes caseiros |
O macho provedor, totalitário e muitas vezes irascível, tornou-se um sujeito preocupado com a harmonização – aproveitando uma palavra da moda – entre o trabalho e o lazer, passando por detalhes nunca antes imaginados para quem se considera um verdadeiro exemplar de seu gênero.
Hoje somos muitos a administrar as compras do supermercado, em listas que nós mesmos construimos, se possível em parceria com a esposa, ou mesmo, com com os empregados domésticos. Estes, que antes negociavam diretamente com a patroa, hoje ouvem respeitosamente os patrões, igualmente zelosos e detalhistas. Se gerenciam atividades no escritório, porque não o fazer em casa?
Toda essa conversa é para se chegar a conclusão de que, no Dias dos Pais, o foco é outro também. Pai, pelo menos o modelo que defendo, não fica achando que ninguém o ama se for esquecido ou receber um telefonema de última hora do filho para dar o “parabéns pelo teu dia”. Mas se existe a disposição para se comprar um bom presente, as opções agora são muito maiores.
Homens, antes restritos a grandes chefs em restaurantes, agora experimentam a estressante culinária doméstica. Com diferenças, ao contrário das mulheres, que aprendiam de mãe para filha e assim, na maioria das vezes refratárias às novidades, os novos donos de casa passam a curtir essas coisas inventadas para facilitar a vida na cozinha. Aparelhos para cortar, ralar e ajudar na tarefa cotidiana, são presentes muito bem vindos. Livros de culinária, são homens os grandes consumidores.
Enfim, tudo aquilo que ofendia uma dona de casa. Porque a prendia na cozinha, é libertador para o macho da espécie, que pode usar os músculos antes úteis para abater javalis, agora perfeitos para sovar o pão com ervas, acompanhamento perfeito em um assado de porco salvagem, devidamente encomendado em algum bom matadouro. Legalizado, é claro, Pai é exemplo.
E por favor, não vamos confundir homens de verdade com esses monstros que vitimizam familiares, em notícias trágicas de jornais. Nós, os caras que amamos do fundo de nossos corações os filhos gerados, somos responsáveis por lhes deixar a lição de que a força e a determinação de todo homem deve ser voltada à proteção de seu lar.
Se antes, éramos ensinados a sermos rudes e distantes, hoje recebemos nossos rebentos de peito aberto nas cozinhas de nossos lares. Um espaço magnífico onde as mulheres dominaram por tanto tempo e que nos cederam, pelo que vejo, com muito gosto. Então pessoal, as boas casas de utilidades no lar, reservam presentes bacanas para os novos papais donos-de-casa.
Às compras então, estão esperando o que?
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Mick Jagger e os roqueiros setentões
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| Velho? Sim, mas sem desafinar |
O que nos diferencia no tratamento com os velhos, nos dias de hoje? Com certeza não são as expressões do tipo “melhor idade”. A palavra “idoso”, embora sua origem em idade, tem uma conotação que segrega. Não considero meus 60 anos a “melhor idade”, no sentido do vigor que se vai, mas uma vantagem, com certeza, no quesito amadurecimento. Mas como tem muito velho com mentalidade infantil por aí, eu definitivamente não acredito nestes eufemismos. Coisa bem cínica. Dói tudo, os joelhos exaustos do sobrepeso, os músculos exigem menos sedentarismo – corpo de velho precisa de movimento – e ainda estou a pagar, literalmente, pelos erros cometidos na juventude afobada que tive. Minha alma sim está mais leve, mais bonita. Vê o mundo com a tranquilidade que nunca tive.
Tenho certeza que é essa leveza espiritual que move velhos ídolos dos anos 60. Mick Jagger, nesta sexta-feira completa 70 anos! Ringo Starr, baterista dos Beatles já vai pros 72! E está firme, dizendo que os tambores são a sua “loucura”. Assisti Paul McCartney em Porto Alegre, um guri aos 68 anos, tocando por três horas seguidas e levando o público às lágrimas de pura emoção. No Brasil, Caetano Veloso reclama das dores da idade, mas tornou-se um poeta menos preocupado com a fama e mais concentrado na musicalidade de seus versos do que as caras e bocas do passado. Gilberto Gil, Chico Buarque de Holanda, Paulinho da Viola, são mestres e ainda lotam teatros. A arte, quando autêntica é elixir da juventude.
Retomo a pergunta: o que nos faz diferente dos velhos de antigamente? Fundamentalmente, fomos retirados da redoma de falsa proteção e adoração que nos mantinha enclausurados nos mais terríveis covis do tempo. Minha bisavó Rita, era cercada de cuidados. Não deixavam a pobre velha fazer nada por ser... Velha. Como se a idade avançada a tornasse um bibelô trincado pelo tempo. É claro que ela morreu encurvada, paralisada pelo excesso de ajuda. Todo esse cuidado com os anciãos de outrora, também cansava os mais jovens que lá fundo, às vezes nem tão fundo assim, consideravam seus velhos um estorvo.
O século 20 passou rápido demais. Novas tecnologias, a vida urgente, compromissos, a indústria, o comércio a exigir mais e mais do corpo. Tudo virou negócio e, quem cansava mesmo aos 40, tornava-se dispensável. Hoje, no século 21, aos poucos, percebemos a diferença gritante. Velhos são os que não têm luz própria, que se focam em um único objetivo. Esses consomem toda sua energia no estalar de dedo que representa uma existência.
Nós, veteranos modernos exigimos respeito. Mas nunca a reverência cínica dos que nos queriam mandar para um asilo. Hoje nós decidimos ir ao asilo como forma queremos seguir produzindo, aposentados do trabalho, mas nunca da vida. Não precisamos ser úteis, mas nunca inúteis trastes. Os velhos passam a ser fonte de consulta, de lições de vida. Mick Jagger, quando sobe o palco, mostra que a vitalidade está no espírito, que lhes ensinou a domar a rebeldia, mas nunca sufocá-la. Cada show destes veteranos é uma aula de resistência, de amor a vida! E quem ama, eterniza-se. Por isso, iremos ao infinito e além!

segunda-feira, 15 de julho de 2013
Meu lugar no Dia do Homem
Tem lugar no tal Dia do Homem para aqueles que brigam com a balança? Aqueles que já levaram tantos tombos que já carregam mais cicatrizes do que medalhas?
Tem lugar para aqueles sujeitos que engolem sapos, mas não desistem da nobreza mesmo em trajes de liquidação?
Tem lugar para aqueles que economizaram pra comprar um anel para a amada e a grana virou feijão com arroz quando a crise apertou?
Tem lugar para os que viraram uma foto desbotada no álbum de casamento, mas não abandonaram a família? Se existir essa brecha, a homenagem é justa. Mas homem que é homem de verdade, não liga para essas coisas.
Tem lugar para aqueles sujeitos que engolem sapos, mas não desistem da nobreza mesmo em trajes de liquidação?
Tem lugar para aqueles que economizaram pra comprar um anel para a amada e a grana virou feijão com arroz quando a crise apertou?
Tem lugar para os que viraram uma foto desbotada no álbum de casamento, mas não abandonaram a família? Se existir essa brecha, a homenagem é justa. Mas homem que é homem de verdade, não liga para essas coisas.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Modo Shuffle
Por Roberto Quintana | Especial
Así amó, sin pasión, ausente de su propio cuerpo. Como si fuese máquina, bien dijo Chico Buarque. Se volvió de lado y estiró la mano, pero detuvo el gesto apenas recordó que Lidia no le permitía fumar en la cama, para qué comenzar una pelea el último día.
Siguió tirado boca arriba. Pegado a Construção irrumpieron los Beatles, con Yer Blues. Antes Barrio De Tango por Goyeneche y antes de eso Sting y Ella Fitzgerald, o al revés. Caprichos del iPod conectado en modo “shuffle” al equipo de sonido. Roberto nunca estuvo de acuerdo con esa forma anárquica de escuchar música, seguía prefiriendo el CD, lo tranquilizaba que las canciones se sucedieran en el orden correcto. Pero sabía que si lo dijera, Lidia lo acusaría de pensar como un viejo. Ambos habían conocido el disco analógico, sin embargo para ella, aún el digital ya era antiguo.
Lidia, la flaca Lidia, con la que habían bailado apretadísimos en una fiesta del colegio y de la que no había tenido noticias desde la graduación. Hasta que veinte años después, se reencontraron por casualidad en una conferencia y sin mediar palabra terminaron lo apenas insinuado en otra época. Roberto saliendo, muy a su pesar, de un matrimonio de más de quince años. Y Lidia, que ostentaba una larga lista de romances efímeros, pero estaba convencida de que esta vez, quería una relación sólida y duradera.
Mientras la miraba vestirse, las frases de Chico Buarque seguían sonando en su cabeza. Allí estaba, convertido en un paquete flácido después de tropezar en el cielo, igual que el obrero de la canción. Como en su adolescencia, cuando el lunes siguiente a la fiesta, vio a Lidia salir del colegio abrazada a Carlos, el de Sexto B, ese arrogante al que dos días atrás, entre risas, ambos habían apodado “El Príncipe Carlos”.
Por lo menos esta vez Lidia tuvo la decencia de comunicarle que se había enamorado de otro y que lo dejaba, pero que sería hermoso pasar esa última noche juntos. Roberto aceptó, al fin y al cabo eran gente civilizada. Ahora se daba cuenta de la torpeza cometida. Hubiera sido preferible una escena a los gritos, con reproches, portazos y lágrimas antes que ese último polvo melancólico.
Se asomó a la ventana y la vio cruzar la calle “con su paso tímido”, otra vez Chico Buarque, no había caso. Buscó el CD, lo colocó en la bandeja, apretó Play y encendió, ahora si, un cigarrillo. Terminó de escuchar el disco tirado en la cama. Todo sonaba en el orden correcto, sin sorpresas, en esa rutina que, antes de la llegada de Lidia, sentía como un bálsamo y que ahora podía disfrutar nuevamente. Pero ya no era lo mismo.
Así amó, sin pasión, ausente de su propio cuerpo. Como si fuese máquina, bien dijo Chico Buarque. Se volvió de lado y estiró la mano, pero detuvo el gesto apenas recordó que Lidia no le permitía fumar en la cama, para qué comenzar una pelea el último día.
Siguió tirado boca arriba. Pegado a Construção irrumpieron los Beatles, con Yer Blues. Antes Barrio De Tango por Goyeneche y antes de eso Sting y Ella Fitzgerald, o al revés. Caprichos del iPod conectado en modo “shuffle” al equipo de sonido. Roberto nunca estuvo de acuerdo con esa forma anárquica de escuchar música, seguía prefiriendo el CD, lo tranquilizaba que las canciones se sucedieran en el orden correcto. Pero sabía que si lo dijera, Lidia lo acusaría de pensar como un viejo. Ambos habían conocido el disco analógico, sin embargo para ella, aún el digital ya era antiguo.
Lidia, la flaca Lidia, con la que habían bailado apretadísimos en una fiesta del colegio y de la que no había tenido noticias desde la graduación. Hasta que veinte años después, se reencontraron por casualidad en una conferencia y sin mediar palabra terminaron lo apenas insinuado en otra época. Roberto saliendo, muy a su pesar, de un matrimonio de más de quince años. Y Lidia, que ostentaba una larga lista de romances efímeros, pero estaba convencida de que esta vez, quería una relación sólida y duradera.
Mientras la miraba vestirse, las frases de Chico Buarque seguían sonando en su cabeza. Allí estaba, convertido en un paquete flácido después de tropezar en el cielo, igual que el obrero de la canción. Como en su adolescencia, cuando el lunes siguiente a la fiesta, vio a Lidia salir del colegio abrazada a Carlos, el de Sexto B, ese arrogante al que dos días atrás, entre risas, ambos habían apodado “El Príncipe Carlos”.
Por lo menos esta vez Lidia tuvo la decencia de comunicarle que se había enamorado de otro y que lo dejaba, pero que sería hermoso pasar esa última noche juntos. Roberto aceptó, al fin y al cabo eran gente civilizada. Ahora se daba cuenta de la torpeza cometida. Hubiera sido preferible una escena a los gritos, con reproches, portazos y lágrimas antes que ese último polvo melancólico.
Se asomó a la ventana y la vio cruzar la calle “con su paso tímido”, otra vez Chico Buarque, no había caso. Buscó el CD, lo colocó en la bandeja, apretó Play y encendió, ahora si, un cigarrillo. Terminó de escuchar el disco tirado en la cama. Todo sonaba en el orden correcto, sin sorpresas, en esa rutina que, antes de la llegada de Lidia, sentía como un bálsamo y que ahora podía disfrutar nuevamente. Pero ya no era lo mismo.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
Velhice
Por Gilberto Jasper
“China cria lei que obriga filhos adultos a visitar os pais”. A manchete do rádio parecia irreal. Eram 6h da manhã, eu recém acordara, tudo parecia absurdo. Passei o dia com a manchete na cabeça até recorrer ao Google e ver que a notícia era verídica. A Lei do Direito dos Idosos entrou em vigor esta semana para tentar minimizar o crescente problema de isolamento dos velhos. Em 2010 aquele gigantesco país possuía mais de 178 milhões de pessoas com mais de 60 anos; A previsão é dobrar até 2030.
Trata-se de um alerta para o Brasil considerado um país jovem. Dados recentes, porém, revelam que o país possui 23 milhões de pessoas com mais de 65 anos, ou seja, aproximadamente 10% da população. Em 2020 o total de idosos brasileiros deve alcançar 30 milhões de pessoas.
Além dos notórios problemas de assistência à saúde de um país continental, nossos idosos deparam com o abandono de filhos e familiares. Todos conhecem casos de famílias onde pais e avós sobrevivem graças a amigos ou vizinhos. Os episódios se agravam quando envolvem doenças crônicas.
Autoridades chinesas reconhecem os obstáculos para a aplicação da Lei do Direito dos Idosos, mas dizem que um dos objetivos é mandar uma mensagem educacional. Ao contrário do Japão, onde os mais velhos são figuras proeminentes na hierarquia familiar, é difícil encontrar países onde a atenção ao idoso é prioridade. Mais do que a preocupação física com os idosos, o abandono afetivo machuca profundamente aqueles que legaram valores, tradições e a nossa própria vida.
Parece longínquo imaginar-se com 60, 70 anos quando somos jovens ou “adultos novos”. Os avanços da Medicina, somados à massificação de hábitos de saúde prolongam sistematicamente a expectativa de vida. A expectativa de vida no Brasil é de 68,6 anos, ou seja, 2,5 anos a mais que no começo da década de 90. É um avanço significativo, cujas consequências – lamentavelmente – significam o aumento do contingente de idosos desprovidos de atenção, carinho, cuidados e respeito humano.
Na media em que envelhecemos desperta a curiosidade sobre os antepassados e no resgate da árvore genealógica que nos trouxe até aqui. O crescimento dos filhos, o flerte com a aposentadoria, o cerco das doenças e as dificuldades em acompanhar a velocidade do mundo desorienta.
Sentir-se vítima do “descarte humano” certamente é um sentimento insuportável se somado ao abandono de nossos filhos e netos.
“China cria lei que obriga filhos adultos a visitar os pais”. A manchete do rádio parecia irreal. Eram 6h da manhã, eu recém acordara, tudo parecia absurdo. Passei o dia com a manchete na cabeça até recorrer ao Google e ver que a notícia era verídica. A Lei do Direito dos Idosos entrou em vigor esta semana para tentar minimizar o crescente problema de isolamento dos velhos. Em 2010 aquele gigantesco país possuía mais de 178 milhões de pessoas com mais de 60 anos; A previsão é dobrar até 2030.
Trata-se de um alerta para o Brasil considerado um país jovem. Dados recentes, porém, revelam que o país possui 23 milhões de pessoas com mais de 65 anos, ou seja, aproximadamente 10% da população. Em 2020 o total de idosos brasileiros deve alcançar 30 milhões de pessoas.
Além dos notórios problemas de assistência à saúde de um país continental, nossos idosos deparam com o abandono de filhos e familiares. Todos conhecem casos de famílias onde pais e avós sobrevivem graças a amigos ou vizinhos. Os episódios se agravam quando envolvem doenças crônicas.
Autoridades chinesas reconhecem os obstáculos para a aplicação da Lei do Direito dos Idosos, mas dizem que um dos objetivos é mandar uma mensagem educacional. Ao contrário do Japão, onde os mais velhos são figuras proeminentes na hierarquia familiar, é difícil encontrar países onde a atenção ao idoso é prioridade. Mais do que a preocupação física com os idosos, o abandono afetivo machuca profundamente aqueles que legaram valores, tradições e a nossa própria vida.
Parece longínquo imaginar-se com 60, 70 anos quando somos jovens ou “adultos novos”. Os avanços da Medicina, somados à massificação de hábitos de saúde prolongam sistematicamente a expectativa de vida. A expectativa de vida no Brasil é de 68,6 anos, ou seja, 2,5 anos a mais que no começo da década de 90. É um avanço significativo, cujas consequências – lamentavelmente – significam o aumento do contingente de idosos desprovidos de atenção, carinho, cuidados e respeito humano.
Na media em que envelhecemos desperta a curiosidade sobre os antepassados e no resgate da árvore genealógica que nos trouxe até aqui. O crescimento dos filhos, o flerte com a aposentadoria, o cerco das doenças e as dificuldades em acompanhar a velocidade do mundo desorienta.
Sentir-se vítima do “descarte humano” certamente é um sentimento insuportável se somado ao abandono de nossos filhos e netos.
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