Pesquisar este blog

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Um exemplo de portabilidade amorosa em Porto Alegre

Semana passada acompanhei a discussão de um casal no ponto do ônibus circular que me deixa no trabalho. “Te vi com aquele barbudo de novo. O que ele queria?” Ela, com ares da mais fingida inocência, justificava ser apenas amigo de seu mano. “Eu percebi teu jeito de olhar. Estavas provocando ele. E aquela mini blusa que juraste usar só comigo? Nem terminei de pagar e tu já mostra pros outros? Reclamou o desconfiado namorado. Minutos depois, a senhora sentada a meu lado, cochicha: “Essa deve ser daquelas...” Eu via uma garota que mal saía da adolescência seguindo o caminho natural e seletivo da vida. Confesso que torci pelo tal barbudo ser mais esperto do que aquele pobre infeliz.

Dois dias depois, no mesmo ponto de ônibus, quem eu avistei? A garota, a polêmica mini blusa, e outro rapaz. Sim, era ele: o barbudo! Ignorando todos nós, ela se desmanchava no jogo típico da idade onde hormônios atropelam neurônios. “Te curto, gata”, repetia o galã canastrão. Ela excitava-se: “Tu és louco!” “Cachorra!” gemeu ele, apertando a cintura da guria que, se fazendo de indignada rosnou: “não sou dessas de baile funk!” O barbudo não perdeu tempo: “Quem te disse que eu quero dançar contigo?” Ambos riram maliciosamente e o ônibus arrancou. Com o ruído não ouvi mais nada. Aliás, não ouvimos, pois todos os passageiros daquele horário matinal, já acompanhavam as aventuras amorosas da guria.

No dia seguinte, lá estávamos a espera de mais um capítulo daquela novela urbana. E não é que ela chegou com o namorado oficial? Sim, ele mesmo, o bobo pagador de carnê. Pelo jeito haviam selado a paz. Entre amassos apertados ele perguntava qual seria o presente que ela lhe daria no Dia dos Namorados. “Ai amor, tens tudo. Vou te dar um vale CD. E eu, vou ganhar o quê?” Ele, empolgado, mostrava o cartão de crédito liberado “até 150 pilas”. Lá viria um jeans, ou outra blusinha reveladora de macio umbigo. “Vamos passar o fim de ano em Tramandaí. Já reservei hotel!” Vibrava o moço. Nós, testemunhas habituais desta história de encontros e desencontros, amor e traição, já suspirávamos conformados, quando percebemos que o abraço forte e gratificado no namorado era mais do que reconhecida gratidão por tão bons presentes. Do outro lado da rua, o barbudo desviava a rota, alertado por ela que, com as mãozinhas nervosas, o mandava seguir adiante.

Quase me bateu pena do pobre e ingênuo namorado. Mas olhando bem no fundo daqueles olhos sem brilho ou personalidade, achei que ele merecia. E que a moça tirasse tudo o que pudesse o quanto antes, porque o tempo é inimigo dos amantes voláteis e fúteis. Um dia, sua única moeda de troca se manterá empinada a base desses jeans de esperto elastano. À nossa musa do circular, poderá restar o suplício, o castigo de passar o resto da vida ao lado de um manso alegre. Isso se o tal não encontrar outra ave rapineira pelo caminho. A carne é fraca. Especialmente a dos tolos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Tintim faz 80 anos


Quando eu era guri, todo final de semana aguardava com incontida ansiedade a chegada do jornaleiro com o Correio do Povo, imponente e graficamente belo, em seu formato stardard. Para evitar a bronca de meu pai, o abria cuidadosamente até chegar ao caderno que me interessava onde vivia as aventuras de Tintim, criação do belga Georges Remi - ou Hergé – como assinava. Tintim era um jovem repórter franzino, com um topete pra lá de esquisito. Andava sempre acompanhado de seu cãozinho Milu. Tinha talento e um invejável senso de humor para desvendar crimes insolúveis nos mais distantes rincões deste planeta. Guardei todas edições de seus álbuns que, neste ano, completam 80 anos.





As gerações de hoje mal conhecem esse herói que não tem porte físico avantajado, tampouco custumava usar armas. As vendas anuais de dois a três milhões de exemplares de seus livros em quadrinhos, mostram que seu estilo ainda vive. E após lançamento de um filme de Steven Spielberg, já em produção com lançamento previsto para 2011, deverá retornar a mídia o personagem que estreou num suplemento de uma revista belga em 10 de janeiro de 1929. Pouco tempo depois, "Tintim na terra dos Sovietes" marcava a estréia do jovem repórter em formato de livro de quadrinhos. Desde então já foram vendidos mais de 200 milhões de exemplares de seus livros, traduzidos para mais de 100 línguas e dialetos locais. Desde a morte de Hergé, nos anos 80, não saem álbuns novos, mas Tintim continua a ser um sucesso e com a força de Holywood, estará ao lado dos heróis neuróticos de nossos tempos.




Atualmente quem cuida dos direitos deste astro nascido na Bélgica é o empresário britânico Nick Rodwel que ao casar-se com a viúva de Hergé, assumiu o comando da Moulinsart, empresa que detém os direitos do merchandising de todos os personagens dos livros "Tintim". De chaveiros a camisetas, passando por exposições e até mesmo um musical, Tintim é sinônimo de bons negócios. A Dreamworks de Spielberg comprou os direitos sobre os 23 álbuns. O diretor Peter Jackson, da trilogia "O Senhor dos Anéis", levará a tecnologia digital à recriação de Tintim. Por enquanto, o 80º aniversário de Tintim é celebrado, neste mês, com um Festival Tintim na cidade de Namur, na Bélgica. Aqui me resta a saudade de personagens como os atrapalhados detetives Dupunt e Dupund – sempre chegando atrasados as cenas de crimes – do rabujento e boa gente Capitão Hadock a blasfemar onomatopéias e metáforas esquisitas. Personagens que, em suas viagens pelo mundo, levavam cultura e engajamento social. Coisa rara hoje.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Crônica não postada para o dia das Mães. Freud explica

Comprou um presente pra mamãe? Se ela tem tudo, faltam opções criativas, se não tem muito, também rareiam os recursos para presenteá-la. Mas ela mesma te disse que não queria nada, não é? A presença do filho ou um telefonema saudoso bastam. E o almoço, será na sogra? Sim, sogra também é mãe. Inacreditável, mas verdadeiro. Quem sabe muitos enfrentarão as longas filas dos restaurantes.

E na corrida, nem poderão reclamarar do galeto servido quase cacarejando de tão cru ou do churrasco, invariavelmente tostado demais. Os garçons que também tem mãe, não sabem como atender tanta gente. Os filhos mais caras-de-pau colocarão, quem sabe, as homenageadas na cozinha, ou prepararão, eles próprios, algum prato especial. Elas confessarão ter adorado a lembrança e a filharada custará a crer que dizem a verdade. Até porque, comida boa quem faz são elas mesmas. O resto é bobagem.


Mãe! Três letras que agregam um universo de sentimentos puros e intermináveis campanhas publicitárias que vendem um mundo cor-de-rosa, parcelado em prestações nos cartões ou cheques pré-datados. Tantos poemas a decorar, tantas crônicas sensíveis, tantas bênçãos e sermões nos púlpitos acabam obrigando a todos nós, bons filhos, a mantermos lacradas as gavetas da consciência onde mofam sentimentos confusos e contraditórios. Lá estão as culpas dos meninos maus e das meninas sapecas.


Mesmo os filhos já próximos da terceira idade, na maioria das vezes não ousam tirar os babeiros temendo o julgamento materno. “Eu não fui o doutor que ela sonhava” ou “Nunca a visitei como devia”. Culpas.Alguém aí do outro lado da página, ainda duvida que é desta culpa original que se fundamenta a psicanálise? Quantos experimentam o alívio de estresses afetivos em cronometrados e caríssimos minutos no divã? Pagam para abrir as gavetas emperradas por anos de lágrimas incontidas presas a ferrugem escura do rancor. “Mamãe não me entendia...” Tanta mágoa disfarçada de maturidade; tanto trauma transformado em transtorno compulsivo.


Vasculhamos nossas vidas até chegarmos ao berço onde tudo se originou. E quando o embalamos cheios de auto-piedade nos damos conta de que o bebê que estamos a ninar em nossa regressão tem a cara de nossas mães. Sim, a humanidade é um xerox de carne e espírito.Evoluiu quem percebe que entrar em conflito com o útero onde foi gerado é entrar em conflito consigo mesmo. É da mãe que sai a benção do amor maior do que sua força geradora.


E faz de qualquer um, seja ele doutor ou iletrado, mais do que o filho querido, um ser especial e único. Feliz desde que aceite o amor materno que também tem limitações e erros. O colo da mãe será sempre seu último refúgio, mesmo quando se considere tarde demais. Afinal, neste universo materno, não existe o tempo, a vida ou a morte. Existe sim, o filho, único e absoluto, síntese e essência de sua existência. Com ou sem culpa.