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sábado, 24 de dezembro de 2011

O Natal que saiu do lixo


O que vale mesmo?

Ar de gente cansada. Falta de ar nas lojas, nas repartições, nos abraços apertados entre milhares de celebrações natalinas. Estou asfixiado por tanta ansiedade, tanta contabilidade. A televisão insiste com dicas para quitar dívidas ancestrais – limpar a ficha – e voltar a consumir. A engrenagem precisa continuar a girar. Domingo, voltando de (mais) uma destas festas de final de ano, cruzei por municípios entre os vales do Rio Pardo e Taquari e percebi lojas de portas abertas à espera de consumidores. Não vi muito movimento. Mas as pessoas, a grande maioria, acumula estresse e esgotamento. Li que os empresários já projetam que este será o segundo pior Natal em quatro anos. “Só perde para o de 2008, quando houve retração de 1,7% por causa da crise americana, apontam dados da Associação Comercial de São Paulo (ACSP),” ouvi na tevê. A crise mundial e as ameaças ao sistema econômico estão botando para correr Papais-Noéis. Não é só isso, ou melhor, não é por aí que se avalia a angústia da grande maioria.

Final de ano é tempo de balanço. E um dos piores balanços é o fatídico ajustar de contas que fazemos conosco. Metas esquecidas ou superadas depois de muito sacrifício. Ausência daqueles que não estarão conosco na ceia de Natal. Por doença, falecimento ou outras rupturas que sempre deixam marcas. Mas é um tempo de paz, de esperança. A contabilidade, o presente ideal, a fila imensa nas grandes lojas, nada disso é pior do que o júri malfeito de pecados.

Lembro que num destes natais do passado, eu andava atordoado por todos esses motivos e outros. Enfim, estava a me sentir um minúsculo verme perdido entre tanta música e decoração de gosto duvidoso. Eu estava lá – hora meio apagado, ora a acender no tranco – feito essas pequenas e irritantes lampadazinhas chinesas de Natal. Foi quando em uma das mais movimentadas ruas de Porto Alegre que percebi uma cena típica da cidade e da época. Pai e filho, classificadores de lixo, no entardecer do dia 23, antevéspera de Natal.

O menino segurava na mão esquerda um desses bonecos articulados. Um super-herói qualquer. Não dava para perceber a cor da capa. Apenas que estaria em boas condições – não fosse lhe faltar uma das pernas. Por mais que voasse, um herói daquele porte também dependia das pernas para pisar no chão firme. O pai, com a cara enfiada em um saco de lixo, revirava tudo, “Eu vi cair aqui”, disse ele. Lá pelas tantas, voltou com algo que parecia a perna do boneco. Foi ao carrinho, puxou uma caixa cheia de pregos e parafusos. Acho que eram centenas deles. Revirou até achar o que queria. Deitou o boneco na calçada e com uma faca pequenina – transformada em chave de fenda, ou bisturi – sei lá, recolocou a perna no super-herói. Mas não devolveu ao filho.

“Agora só vais brincar com ele no Natal. A tua irmã também vai ganhar um presente do Papai Noel.” Cético, afinal havia juntado o presente no lixo, o menino disse, convicto: “Isso não existe, pai.” Sem perder tempo, o homem indagou ao menino de onde tinha caído aquele brinquedo? E por que perdera um parafuso? Ora, havia sido jogado lá de cima, do trenó de Noel. E viera com tanta força que quase se quebrara todo. Caíra no lixo porque em casa não tinham chaminé, nem fogão a lenha. Colocou o brinquedo ao lado de outro, uma boneca de cabelos arrepiados que deveria preparar para a filha, talvez.

E percebi ali, que toda adversidade, tudo o que contraria a lógica ou nos tira o foco, se resolve com determinação. Está em cada um de nós e não se compra com cartões de crédito ou depende de paciência no comércio vil e interesseiro. O verdadeiro espírito natalino resiste à aspereza da vida, porque se alimenta das lições que conseguimos aprender entre decepções e conquistas durante um ano, ou toda uma existência. Então, paz para não nos faltar ar, fôlego, neste Natal!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

É tarde para pensar, Pedro (por Tárik)

Desculpem bancar o pai-coruja, mas o texto do meu filho Tárik, trabalho de escola, no magnífico Dohms, inspirado em "É tarde para saber”, de Josué Guimarães, está perfeito. Coisa de um guri de 15 anos que vive todas as sensações da adolescência, mas não se aliena, graças ao estímulo à leitura, também possibilitado por seus pais, Ari e Dulci. Quem tiver paciência, por favor, confira. “Deleitem-se!” como sugeriu a professora do Tárik.


Tárik: rock e literatura juntos
“Observava-se a neblina da manhã no Rio de Janeiro. Aquele Pedro acordara sem grandes motivações externas, porém se mantinha empolgado ao planejar um encontro com Mariana. Entrava na sala da casa alugada, um velho sobrado esquecido no meio do subúrbio carioca. Existia lá nos pensamentos dele a justiça e o amor por Mariana, que estava rendido às lutas dele. Senta no sofá, à sua volta todos os companheiros do movimento contra ditadura. Todos lá idealizavam uma revolução que acabaria com o governo militar e os abusados burgueses. Pedro, entre uma paixão burguesa e uma revolução, cumpre seu papel com Mariana e vai até a casa dela desenhar o círculo. O ato foi rápido, o DOPS circulava muito naquele dia, no anterior houve um confronto estudantil e estavam atentos a tudo. Pedro esteve lá e saiu muito machucado. Quando estava a duas quadras do departamento revolucionário, foi surpreendido por um agente infiltrado no bairro, que arrastou-o a um beco e perguntou sobre onde o rapaz ia. Pedro tentou manter a calma, mas a pressão estava grande, teria que ver Mariana e aconchegar seus pesadelos num canto esquecido de sua mente. Por fim estava num carro a caminho do DOPS. Lá permaneceu calado, por uma hora foi devastado por torturas e saiu pela porta, como qualquer um, para ir ao encontro.

Enquanto atravessava a avenida Atlântica era observado por todos, sentia o perigo que corria lá, mas como sempre, deixou de lado as dicas daqueles colegas revolucionários que ele nem sabia o nome para que, por algumas horas, pudesse ver a sua errônea paixão. Podia parecer que ele fosse alguém cheio de dúvidas, mas na verdade, o amor era o motivo pelo qual ele queria fazer a revolução andar. O grupo Comunista queria igualdade, uma liberdade que refletiria na sociedade, acabando com as diferenças sociais sentidas por Pedro. Rapaz de origem humilde, e Mariana, a rica carioca que mora na Atlântida.

Mariana o viu, como sempre chegava reclamando do jeito do relacionamento deles e, no fundo, isso o agradava. Pedro via isso como semelhança, fruto de uma esperança dele. Mariana não gostava do relacionamento deles e ele do jeito do país, quase a mesma indignação. Anoitecia e ele não se interessava mais por ela, o compromisso gritava pela volta dele. Se despediu dela e agora ia ao recanto revolucionário. Foi a pé, quando bateu na porta e logo breve entrou, assustou-se com os colegas que o olhavam. O embaixador estava no segundo andar esperando interrogatório. Preparou o seu jeito grosso e lá questionou. Nada foi dito e Pedro calou o suíço.

A resposta foi negativa e Pedro ainda teve que aguentar as rebeldias de Mariana em relação à vida misteriosa dele. Ele sabia da tensão, e a perseguição aumentava, falou com o chefe, gritou para a imensidão e no tempo que passava aconteceu a invasão. A porta arrebentada e o DOPS no primeiro andar do sobrado já dava tiros. Pedro sabia que era o fim, e nos últimos pensamentos que restavam –lhe lembrou que Mariana foi de táxi até o local na noite anterior, teria ela dado a localização?! Pensou nisso, nessa dúvida, pranteou, morreu e virou notícia de jornal”

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobrecarga no Natal Luz


Beleza que atrai milhares em busca da luz natalina
Gramado é uma cidade linda. A limpeza, as vitrines e acima de tudo, a paisagem magnífica, encantam.  É um exemplo de sucesso no trabalho voltado ao turismo. Tudo parece saído de um mundo paralelo de perfeição e encantamento. Gente de todo o país, estrangeiros e até gaúchos curtem a expectativa de alguns milímetros de neve no inverno ou o anoitecer iluminado do Natal. 

Mas não existe estrutura, atendimento cuidadoso que resista uma invasão de visitantes ansiosos por toda aquela fantasia. Aos sábados e feriados, especialmente neste período de Natal Luz, é assim. Querem comprar, comer, utilizar sanitários sempre em bando. Desorganizados. As excursões, em vans e ônibus derramam-se nas ruas enfeitadas, somam-se a milhares de veículos particulares e por volta do meio dia, a cidade já está próxima da explosão.

As lojas lotam. Se você encontrar um restaurante com mesa disponível, desconfie. Ou é problema de preço alto, comida ruim, ou tudo isso junto.  Quem pensa em utilizar os sanitários públicos, dependendo do dia, é preciso paciência para vencer uma longa fila. Está "apertado"? Tente no comércio. Mas os banheiros destes locais, são disponíveis apenas para os mijões clientes. Então, consuma qualquer coisa. E alivie-se!

Na grande maioria destes lugares a higiene perde a luta contra o movimento intenso. O ideal, para se evitar tudo isso - superlotação, filas, banheiros lamentáveis- é visitar a cidade nos dias de semana. Sempre haverá muita gente, mas tudo numa medida racional, que evita sobrecargas de tensão, em um período que deve ser de Luz.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Oração à Santa Niña de Las Piscinas


Santa Niña de Las Piscinas Azuis
Neste verão de tantas privações,
De suores ardidos, desodorantes vencidos...

Neste verão seco, abafado e de muito pó,
Que não nos falte água pra despertar os sentidos.
Por favor, só lhe peço um simples gesto de dó.
Um tanque bem grande, ou uma piscina de plástico.

Não sou vaidoso. Nem quero ostentar.  
Pode ser piscina de lona, azulejo ou fibra.
O que for + prático.
Não precisa nem de escorregador ou trampolim,
Isso não importa pra mim.

Minha Santa Niña de Las Piscinas,
Tudo o que lhe imploro é um singelo mergulho.
Numa milagrosa água clorificada!

Porque suar no inferno deste Forno Alegre,
Vai derreter às bicas o que me resta de orgulho.
Por isso, Santa Niña de Las Piscinas,

Atenda minha súplica antes do capeta atentar,
Este acalorado devoto que te ama,
Pros gelados barris de chopp da Brahma!
Prost! 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Um descasado sem par e o verão.

De Cidreira ao litoral catarinense, a inglória busca
Estradas em péssimas condições, nos caminhos do litoral, a situação é ainda pior. Tente ir a Florianópolis em um feriado e verá a imensa  tranqueira que se forma. Imaginem o que acontecerá em plena temporada. Mesmo assim vamos nos atirar rumo ao sol. Todos querem a brisa marinha, o calor que tosta e nos deixa com ar de turista estrangeiro em pleno litoral brasileiro. E se chover? Sim, Florianópolis e suas belas praias têm o péssimo hábito de nos inundar com chuvaradas intermináveis. Torceremos todos por chuva de verão. Aquela que refresca e nos dá infindável paciência para encarar as filas nos restaurantes, a comida ruim a bebida cara. É o preço do sol, da paisagem, da água cristalina e das belezas que desfilam nas areias finas.

No ano passado um vizinho, divorciado ainda na primavera, entrou verão com aquele pique de novo (ou quase) solteiro. Começou com festa no litoral Norte gaúcho.  Em Cidreira conheceu a filha de um ex-chefe, que o acompanhou em uma noitada de muita cerveja. Era aniversário de um tio (tios e tias não faltam em Cidreira). Não rolou nada. Aliás, “ficaram” e ele entendeu o real significado deste pré-namoro: beijinhos e abraços, sem grandes avanços.  Nada conseguiu também entre o sábado e o domingo e na segunda-feira, tomava o rumo de  Capão da Canoa e Atlântida.  Descasado em férias ignora a comida ruim, as filas no supermercado, ou a interpraias maltratada das nossas cidades litorâneas. Só precisa de bebida gelada e é claro, mulheres disponíveis.

Assim, em Atlântida, conheceu uma psicóloga – ou melhor – foi reconhecido por ela que o via com freqüência na clinica onde trabalhava (ele e a mulher haviam tentado terapia de casais, antes dela encontrar a cura com um engenheiro civil). Foi divertido. mas talvez por cacoete profissional, insistia em analisar cada movimento seu, fiscalizar maternalmente, se bebia em excesso ou estacionara em local proibido. O beijo sem graça o fez sentir-se um Édipo mal-resolvido e assim, tomou o caminho de Atlântida. Lá conheceu a dona de uma estética de Canoas. Mulher madura, bonita que o convidou para um champagne ao final da tarde.

Tudo corria bem não fosse descobrir, na pior hora, que ela era casada e o marido chegava. De surpresa. Escapou, porque o sujeito ligara antes. O que confirma a teoria de que ligar antes evita terríveis constrangimentos!  Tentou Florianópolis, mas desistiu quando uma simpática argentina que mais parecia avó de Gardel, insistiu que dividissem uma caipirinha.  Ainda experimentou Garopaba. Na casa alugada por amigos, divertiu-se muito. Cozinhou para os amigos, mas como todos eram casados, não atingiu seu objetivo de um rápido namoro de verão. Nos bares, dezenas de outros casais e alguns solteiros, a maioria homens, o desanimaram. 


Ficou assim, meio tatuíra, com pinta de quem vai se enterrar na areia da depressão. Acabou por voltar às praias gaúchas, onde ao menos, poderia conversar com amigos e amigas próximos. O tio – aquele de Cidreira – perguntou se ele não queria acompanhá-lo em uma pescaria. Aceitou, por falta de coisa melhor e também, para economizar. Gastara muito no litoral catarinense. E foi lá, que reencontrou aquela primeira paquera e... Bom isso fica para o próximo sábado.  

sábado, 12 de novembro de 2011

As contas do adeus*


Será que partir é sempre necessário?
Todos os dias ela contabilizava os minutos, os segundos, como quem administra uma poupança de milhões em ouro ou dinheiro. Era uma conta onde a valia era o quanto a menor lhe restava. Queria apenas a liberdade de abrir a porta e entrar em um novo mundo, uma vida renovada. Ar! Queria ar! Sem humores instáveis, dúvidas, ânsias e rádio patrulhas, decisões  sem pé, nem cabeça. Paz! Queria paz! Sábados eram o inferno virado em compras, faxina em casa e uma sensação de que à noite desabaria defronte a tevê, sem muito o que escolher. Tudo isso seria aceitável, não fosse ainda pressão de dividir problemas e pouco prazer com alguém que já lhe inspirara tanta satisfação, tanta energia e bom humor.

Era uma conta cheia de incertezas, juros a pagar, excessos engavetados ou congelados, em um frost free de indiferença. Pior, muito pior, era a certeza de ao dividir o pouco, pagava o dobro em reflexões sem nexo. Ou com todo nexo. E foi assim, nesse pinga–pinga  típico de quem não sabe bem o que mira, que jurou: “hoje eu decido: boto tudo em pratos limpos.” Os leitores já perceberam que a coisa gira em torno de uma relação desgastada. Um romance sem chama para acender qualquer tipo de salvação. Acomodado.

Para tornar tudo mais civilizado, saiu do trabalho e foi à estética. Coisa rara. Mudou o corte de cabelo, fez unhas, massagem. Ouviu fofocas, confidenciou que estava decidida a mudar de vida. Por que mulheres confidenciam essas coisas. Chega de amassar o pão e alimentar outras fantasias. Gostou da metáfora! Saiu lindinha, embora aquela barriguinha. Preparou uma janta leve, arrumou a mesa com a melhor louça. Seria um encontro de contas, ou melhor, uma aceno de mão, um tchau civilizado. E serviu-se de espumante. Ele chegou como fazia todos os dias, com vontade de uma ducha urgente e qualquer sanduíche para devorar. “Um filme”, sugeriu, ele que sempre dormia na melhor parte. Era sempre assim. Mal se falavam.

Mas não resistiu e perguntou se iriam celebrar alguma data que, mais uma vez, esquecera. Ela respondeu que precisava comunicar-lhe uma decisão que tomara a partir de sua disposição em poupar tempo, para viver mais coisas boas, do que más. Ele riu, irônico, ao sentir aquele clima de fronteira, onde se tem intimidade mas sempre se está próximo ao estrangeiro. Diante da alternativa entre o lugar comum da acomodação, ou a possibilidade do novo – saboreou, como a muito não fazia, o prato que ela lhe servira. Um raro filé de peixe, regado a um mais raro ainda, molho de laranja. O paladar o enfeitiçou-se.  E a cerveja? Ok, uma taça de espumante também servia naquele momento diferenciado, exótico entre eles.

Ela quis falar. Mas estava relaxada, sentindo-se em outro lugar. Estranho, mas foi ele, sempre quieto e ausente que disse: “gostei desse teu cabelo. E teu rosto? Me parece mais coradinha... é a bebida”, percebeu, ao lembrar que ela jamais consumia álcool. E com a mão grande e pesada, conferiu a maciez daquele rosto, tão familiar que já virara um quadro antigo na parede de casa. Gostou tanto que um arrepio o empurrou a um raro beijo. Ela quis outra vez falar, fugir, mas as palavras eram prisioneiras daquela carne macia, que saciava uma fome muito mais urgente. Seria apenas carência? 


É claro que não. Tinha muito mais, trazia respostas para quem era só ansiedade e não sabia como perguntar. Sábado é só mais um dígito no calendário, pensou no embalo dos braços que embora fortes, não a forçaram a nada. E deixou de lado, pelo menos por mais alguns minutos, a contabilidade de uma despedida que, com certeza ainda não estava pronta. Entendia que às vezes, o que falta é o inesperado – um ritual – pois, onde tudo anda morno, sempre se pode atear algum fogo, antes que se esfrie de vez. 


* Canção do extinto grupo gaúcho Couro, Cordas & Cantos

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A superação e um Ringo “All Starr”, no Gigantinho


Um ex-beatle com muita estrela
Era uma noite fria na Liverpool dos anos 40. Dos céus se ouvia a sirene de alerta a um mortal bombardeio alemão. A jovem mãe salta da cama, pega o filho no berço e, desesperada, corre em direção ao abrigo antiaéreo onde junta-se a outras famílias de seu bairro. Na profunda escuridão do blackout - o bebê chora muito, demais! Apesar de o embalar com carinho. Preocupada, procura pelo rosto do filho em meio a escuridão e se dá conta que na correria, segurara o menino de cabeça para baixo. 

As coisas nunca foram fáceis para Ringo Starr – o protagonista desta história e que – por isso mesmo, sempre disse ter uma “estrela”, a guiar-lhe no caminho do sucesso. Era baterista de uma banda famosa de sua cidade, mas aceitou o convite daqueles três jovens – John, Paul e George, para juntar-se aos novatos Beatles - que não estavam satisfeitos com Pete Best, então baterista da banda.

É este sujeito de estrela, com estilo único e perfil bonachão, que assistirei nesta quinta-feira (10), em Porto Alegre. O menino que passou a infância doente, que enfrentou um preconceito comum naqueles tempos por ser canhoto e assim, acabar obrigado a alfabetizar-se com a mão direita, porque escrever com a esquerda era  “coisa do diabo”.  

Mesmo assim, insistiu em tocar bateria, adaptando sua condição de canhoto “adestrado” a um estilo só seu. Não é fácil, reconheço, eu também um canhoto “treinado” a ser destro e que, em função disso, nunca me senti um bom exemplo de coordenação motora. 
   
Ringo jamais foi o preferido das meninas histéricas, nem teve os melhores dotes vocais ou talento como compositor. Mas uma obstinada capacidade de adequação às adversidades, o colocaram em condição de igualdade na banda que abriu portas para um novo conceito musical a partir do rock. 

Não espero um show grandioso, como o de seu parceiro Paul Mcartney, casualmente há um ano atrás, no Beira-Rio. Ele estará ali ao lado, no Gigantinho, apresentando-se com sua All Starr recheada de músicos de primeira linha e, com certeza, não irá fazer feio.

É um caso raro de baterista com grande produção musical seja como autor ou instrumentista. Ele tem mais de 20 álbuns e alguns clássicos como It don’t Come Easy, praticamente autobiográfica, ao lembrar que as coisas boas da vida, não vem tão fácil assim.

Estarei lá, para aplaudir meu colega canhoto. E ouvir um eficiente rock básico em plena quinta-feira. Afinal, um ex-beatle é sempre o melhor de todos os motivos para antecipar a festa.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Muito além de um reality show


Dois jovens, com a força que a juventudes lhes premia. Dois jovens, em passos largos e decididos avançam contra o homem que não espera pelo ataque. Um senhor aproximadamente de minha idade – mas um senhor especial. Com deficiência mental. Sem tempo, sem condições de correr, defender-se ou argumentar. Este cidadão especial passa a ser agredido. Muito mais do que isso, humilhado por socos, chutes, pauladas. Covardes, abjetas, diabólicas. Dois jovens demônios, Dois seres sem idade, sem tamanho, sem consciência de sua maldade ou pior, plenamente lúcidos de seu ato sem nome, sem razão, sem nenhum sentido. Monstros são melhores, porque existem em fantasias ou pesadelos. Eles estavam lá, ao vivo, gravados em um absurdo reality show da condição humana, por uma câmera de segurança. Contraditoriamente, era a cena mais clara, mais nítida da estupidez que a baixa resolução daquele equipamento oferece.

Tudo isso aconteceu diante de uma loja no litoral, na tarde de terça-feira. Até agora me pergunto se teriam alguma pendência contra a vítima. Relatos tinham a vítima como um sujeito pacífico. Vá lá, entender os desequilíbrios, as fontes repletas de ira que se derramam diariamente sobre os incautos. Mas a rua, por mais vontade que tenhamos por vingança, a rua não é espaço para tribunais ou execuções bárbaras. Os tribunais por mais inacessíveis, a justiça por mais distante, deve ser preservada. É por meio dela que devemos brigar. Não no sentido belicoso do confronto físico. Ou de tortura psicológica.

Existe um caminho a ser desbravado até a redução destas vítimas do acaso, ou da execução planejada por este ou aquele motivo. Lembro do pai e filho agredidos por um grupo de homofóbicos, que ao vê-los abraçados imaginou que fossem um casal gay. E se fossem? O que é mais constrangedor e perigoso? O carinho ou a carranca? Não posso – eu não me permito – sequer ao um íntimo regozijo diante de imagens como a de um Kadaf executado pela fúria dos que antes, por ele talvez tenham sido igualmente abusados.

Às vezes, ao cruzar as ruas de minha cidade, o faço com ares de quem saiu de um desses filmes de Stephen King, onde o mal vence sorrateiro e assustador. Tudo conspira para esse medo paranóico de ver a literatura de terror tornar-se realidade diante de meus olhos ou sobre mim. Essa realidade é pior do que qualquer  livro onde vampiros, lobisomens ou mortos-vivos, apavoram lugarejos lúgubres, casas amaldiçoadas.

Dois jovens, dois homens desfocados, tornam-se roteiristas, diretores e protagonistas do horror gravado pela câmera fixa de uma vitrine. Era dia claro, em uma rua qualquer e eu sei bem em qual gênero de espetáculo estes dois jovens atores se enquadram. Lamentavelmente, impune. 

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Pimenta no casamento dos outros...

Como evitar o platonismo amoroso?
Na semana passada, um amigo de longa data veio me confidenciar que precisava dar um jeito em seu casamento. Não, ele não queria separação. Tudo o que pretendia era “apimentar” a relação de 21 anos. Mas bastou eu indicar – falando sério – alternativas como roupas íntimas mais ousadas e, quem sabe, visita a uma sex shop para voltar a encaramujar-se. Teme a reação da esposa que, por mais de uma vez, reclamou da frieza do marido. Tentei argumentar que se isso está acontecendo é porque ela espera pela iniciativa dele. Qualquer movimento nestas horas é sempre positivo. Ele prometeu que iria buscar uma solução. Lembra que já desistiu da idéia romântica de ir a Gramado, por exemplo. Neste inverno andou pela Serra e não passou do jantar a luz de velas. “Acabamos comendo muito e, ao chegar ao hotel, apenas dormimos”. No dia seguinte, o clima estava desfeito, ambos de ressaca e indispostos, trocaram a paixão por uma caminhada e compras.


O pior é que ele anda tenso. Quer resolver a questão logo, desencantar. A mulher já desconfia que arrumou uma amante “E não é nada disso”. A intimidade quando vira o fio, torna tudo mais comum, menos sensitivo e o prazer a dois precisa de algum estímulo. Ele disse que tentou com palavras, enviou um torpedo sacana via celular que funcionou, mas quando chegaram em casa, esqueceram de dar continuidade a proposta. Encabulados, comentaram o trabalho, os filhos e as contas que precisavam ser pagas apesar da greve dos carteiros, dos bancários e todos os funcionários públicos que se animavam a desafiar seus patrões. Eles igualmente em greve de criatividade, tímidos como jovens imaturos, perderam a chance de fantasiar.

Acabei criticando uma certa imaturidade na relação que mantinham. Após longos anos de vida a dois, dividindo angústias e contas a pagar, não conseguiam buscar, também juntos, uma alternativa à monotonia? A intimidade do cotidiano pode roubar aquelas faíscas do novo, mas permite um melhor entendimento da reação de cada um. Saber o que se curte mais – desde o tempero do feijão com arroz, àquele que dá sabor a sexualidade. O entendimento de seus próprios limites e capacidade de superação é uma das vantagens dos relacionamentos duradouros.

De qualquer maneira, entreguei a ele o endereço de uma loja que vende artigos eróticos – desde roupas até brinquedos para gente grande – será uma barreira enorme a vencer. Eu mesmo não sei se teria coragem de entrar em um desses estabelecimentos. Mas em caso de emergência, vale tudo que possa unir e reavivar a paixão. Desde que feito à dois, sem forçar a barra. Se a vida de casados é pragmática demais, com tudo certo, tudo bem encaixadinho na administração do lar, é possível que outras partes deste quebra-cabeças não se encaixem mais com tanta facilidade.

Ousar é a melhor saída, demonstra interesse e afeto, ao contrário do adeus, sempre nefasto e doloroso. Espero que meu amigo consiga vencer essa barreira e, na fase mais estável de sua relação, reacenda aquela chama que insiste em virar fumaça. Vale a pena.

sábado, 8 de outubro de 2011

Uma fisgada entre o trabalho e o sentido da vida


"É preciso estar faminto com a vida"
A primeira vez foi uma fisgadinha, como se lhe houvessem cutucado com algo pontudo. Depois percebeu que era cansaço do esforço repetitivo no computador. E precisaria sair a rua para tomar  ar, fazer aqueles chatos exercícios recomendados pelo fisioterapeuta e nem pensar em retomar o trabalho naquele dia. Ao persistir, viriam as dores, o formigamento nos braços e uma quase perda de movimentos. A seu lado a revista Alfa, da Abril,  exibia outros homens de meia-idade ou mais velhos ainda. Atléticos, sarados e dispostos a longas caminhadas ou exercícios intermináveis em academias. Viveriam 200 anos! Seriam profissionais atentos mesmo dentro da faixa dos 80 anos. Lá estava o riso seco de Clint Eastwood – feliz, ao lado da esposa, uma senhora de 45 anos – anunciando seu 35º filme. Jurava que não pretendia parar. Feliz, com frases feitas magníficas: “Sempre estive aberto a mudança e em sintonia com o mundo. É preciso estar faminto com a vida,” anunciou ao jornalista canadense Harold Von Kursk. Maravilha! É a perfeição em conceito, mas quase impossível no mundo real.

A fisgadinha retornou nervosa, desta vez no olho direito. Lá vai dinheiro em outra consulta no oftamologista. Seguiu a leitura. Eastwood é realmente admirável. Joga golfe nas horas vagas, pratica piano, ouve jazz e depois de ser o durão dos ótimos spaghetti western de Sérgio Leone, libertou-se em uma carreira de êxitos. Filmes de grande sensibilidade como “Bird”. Mas nem todos podemos viver assim. Hollywood está lá, bem longe. E viu as múltiplas funções que deveria cumprir, algumas até o final da vida e que não tinham o mesmo glamour do cinema. Essa era a vida que escolhera. E precisava assumir a velhice sem culpas, ou uma visão pessimista, mergulhado no passado. A fisgada insistia. O colírio apenas lavava o globo ocular sem muito resultado.De repente se dava conta que misturava as coisas.

Retornou a mesma revista onde a entrevista do veterano ator norte-americano juntava-se a uma série de outros senhores de sucesso, muito bem conservados. Foi salvo pela citação da filósofa alemã Hanna Arendt que destaca a diferença entre trabalho e obra. O primeiro representava o ganha pão, a sobrevivência no cotidiano. Algo como os filmes mais comerciais da carreira de Eastwood. Caça-níqueis. Mas para a filósofa, uma obra é aquilo que deixa um legado. É um projeto, uma construção que leve a algo mais sólido e presente. “Não necessariamente notável, mas que faça sentido para você”. Lembrou dos entalhes  madeira deseu pai. Era um trabalho minucioso, que contava sempre uma história: famílias humildes, mulheres grávidas, gente celebrando. Nunca expôs nada. Mas o fazia sentir-se feliz com os elogios dos vizinhos e amigos.

Percebia que apenas a exaustão em troca de salário, do complemento à aposentadoria, eram poucos, não apenas pela baixa remuneração, mas pela falta de objetivos. Pagar as contas da casa, o alimento. Era isso apenas? Pensou então que deveria existir não simplesmente para os outros, mas para si. O que importava o que pensavam? Muito pouco. Mas cuidar da vida como um projeto nobre, uma alternativa mesmo singela de se criar algo, iniciar uma obra, mesmo que isso seja um curso de risoto, ou de idiomas para surpreender os amigos e, quem sabe, galgar uma nova posição no mercado de trabalho, seriam movimentos não repetitivos importantes.

Talvez por casualidade, a vizinha, dona Laura, cruzou em sua frente bem na hora dos exercícios físicos e elogiou o esforço. “Querendo chegar em forma no verão, hein?” provocou. Riu, sem graça e emendou: “quero algo melhor ainda na primavera, tenho pressa.” Ela seguiu, com aquele risinho malicioso tipo “tudo bem se eu for incluída no projeto.” ”. E lá veio outra fisgadinha. Desta vez, sem dor....

Blues para surdos, só na Fiergs...


Não vi Eric Clapton, só ouvi. E mal.
Definitivamente, em minha humilde e talvez, errônea opinião, o pátio da Fiergs, na zona norte de Porto Alegre, não serve para grandes eventos musicais. Pelo menos, em relação aos espetáculos que acompanhei até agora, incluindo a frustrante apresentação de Eric Clapton e banda, contabilizei mais pontos negativos do que positivos. Primeiro: os espetáculos acontecem no estacionamento e aí, é claro, falta lugar para que vai de carro. Lógica pouco inteligente essa, não é? Ainda não temos metrô em Porto Alegre, transporte coletivo para atender a multidões, muito menos. E o trânsito na região? Naturalmente caótico durante o dia, ganha o direito de ser pior a noite no dia destes eventos. Deixei meu carro em um posto de gasolina ao meio dia e retornei ao estacionamento, de ônibus mais tarde. Mão de obra imensa.



Compramos ingressos em promoção – e foi um parto achar onde trocar o tal voucher pelos bilhetes – mas conseguimos, depois de muita caminhada e explicação para todos os tipos de porteiros. Ao entrar, percebemos que o espaço denominado simplesmente de "pista" era realmente reservado à plebe rude, com direito ao desconforto da torre de som, bem ao centro e as lâmpadas do estacionamento acesas durante todo o show. Chegava a doer nos olhos, desconcentrava.  


Aos primeiros acordes do mestre Clapton, percebemos que o som era baixo demais. O povo, especialmente aqueles localizados mais atrás, gritava por mais som "aumenta o volume!" Era o grito coletivo a cada intervalo. Infelizmente foram ignorados. Ficamos, uma hora e meia de pé, acompanhando os cochichos sonoros de um show de blues  – daquele que um dia fora chamado “Deus” – mas que desta vez, não nos parecia tão celestial. 

Sim, mostrou seu virtuosismo, nós lá do fundão abandonado, nos esforçávamos a entrar no clima bluseiro. Mas as conversas paralelas, a branca justificada do público, dispersava toda a energia do bem que pretendiamos renovar. O espetáculo intimista, talvez tenha sido bom para os que pagaram pelas áreas nobres do concerto. Eu percebia os flashes inoportunos, naquelas bandas. 

De positivo, foi me permitir a certeza de que, ao estacionamento da Fiergs, só voltarei para estacionar veículos, quando necessário. Em shows e outros fins, nunca mais!    

segunda-feira, 3 de outubro de 2011


Leptospirose é uma piração que acontece àqueles que digitam demais no laptop?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A sustentável leveza da Construmóbil

Com uma proposta moderna, atraiu mais de 40 mil visitantes e bons negócios
No final da tarde de sábado (24/9) junto com a Magali – esposa e decoradora-chefe de meu humilde lar – visitei a quinta edição da Feira da Construção Civil, Mobiliário e Decoração do Vale do Taquari - Construmóbil 2011, que acontecia no parque do Imigrante de Lajeado. Gostei do que vi.

Com o tema “Sustentabilidade - Sigas as Novas Tendências”, o evento caprichou em criatividade e alternativas "ecologicamente" corretas. Saí de lá com a certeza de que é possível viver-se em um ambiento bonito, confortável e mesmo, longe dos custos astronômicos de outros tempos para se ter uma construção sólida, prática e bonita.

Eram mais de 300 expositores e parceiros, mas a visita fluiu tranqüila. Nem percebi o tempo correr entre estandes legais como o do Alex e Monica, que administram a Esteck especializada em climatização, a Katia Abreu e Carlos Fell, com esquadrias de alto padrão de acabamento. Sempre ao lado dos compadres Gastão e Márcia,  (que nos recepcionaram em sua linda residência para uma rodada de espumantes, ou quase...).

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

É possível dirigir e maquiar-se?

Cena comum é a mulherada nos carros – no banco do carona – é claro, fazendo seu make up matinal. Tenho amigos que consideram sexy este momento. Elas concentradas entre seus cosméticos e espelhos, ao lado do motorista. Minha mulher é uma que se produz desta maneira. Mas hoje assistimos, eu e ela, a uma perigosa variação desta prática: uma loira, em um Ford Focus preto a nossa frente, transformou seu veículo em salão de beleza, no trânsito lento da avenida Castelo Branco, na entrada de Porto Alegre. Espelho retrovisor virado para seu rosto, maquiava-se com um kit que, pela movimentação, deveria ser completo: base, lápis, sombras, batom, rímel e pó compacto. O carro rodava, no lento anda e pára, como se fosse guiado por algum tipo de piloto automático.

Encerrada essa primeira parte, ela passou a escovar o cabelo. Dispensou janela afora, os fios que se soltavam. Fechou o vidro e de repente, a farta cabeleira abria-se enquanto movia o pescoço lentamente, como se estivesse em um comercial de shampoo. Não descobrimos se utilizava o ar condicionado do carro, ou algum secador instalado no painel.

Engraçado para quem via de fora, mas com certeza, perigoso. Dirigir de maneira displicente no tráfego enlouquecido das primeiras horas do dia é insano, com ou sem maquiagem. Quando a ultrapassamos, percebemos que ainda carregava um cigarro na mão esquerda. Acumulava dois hábitos bem nocivos à saúde: direção de risco e o vício do fumo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Nem fera, nem Deus. Apenas um chato só

Na semana passada, encontrei um antigo colega de colégio. Ambos senhores om pouco tempo para coisas perdidas no tempo mas, mesmo assim, permitindo-se ao menos, a um intervalo para um cafezinho Afinal, os longos anos que nos separavam até o reencontro casual, pareciam um simples lapso de tempo. Lembramos professores, outros colegas de aula e, é claro, sobre o que fazíamos, afinal, para sobreviver. Eu, jornalista, ele comerciante naquela base do “sobreviventes de anos difíceis.” A conversa se tornou mais interessante quando começamos a falar dos amores. Ele jura que eu lhe roubei uma namorada, jovem linda de olhos verdes. Tudo o que eu lembro é que ela me trocara por um cara bem mais velho que circulava em uma Rural Willys – avó das camionetes modernas. Casamentos? Ele tivera um, que resultou no único filho – um baita parceiro – me disse. Teve ainda uma tentativa de recomeço que fracassara e “um período confuso” sem amores, vivendo sozinho.

“Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é Deus,” me disse, ao citar o filósofo grego Aristóteles. Contou que, desiludido com o casamento desfeito e os problemas com uma “namorada neurótica demais”, havia decidido viver sozinho. E foi aí que se deu mal. “No começo era aquela sensação maravilhosa de liberdade”, lembra, ao citar as noitadas de carteado com os amigos, a rotina dos botecos nos finais de semana e a agenda sempre cheia de candidatas a namoro. “Depois, cansei. Das festas, dos bares e da anarquia que meus amigos faziam lá em casa”, reclama. No principio não percebeu, mas estava se transformando um coroa ranzinza. Detalhista. Cheio de manias.

Preocupou familiares. Ou melhor, se tornou insuportável para amigos e parentes. O filho quis ir morar com ele, que reagiu contra. “Indicavam outras mulheres, a maioria delas solitárias e tão cheias de manias quanto eu, ou seja, só pioravam meu drama”. Foi quase sem querer, quando decidiu matricular-se em um curso de idiomas que acabou conhecendo Ana. “Ela me tirou desta rotina solitária,” reconhece. Foi um começo difícil, pois estava habituado a ficar só. O máximo que suportava eram dois, ou três dias juntos. Mas aos poucos, foi percebendo o homem rabugento em que se transformara. Um reizinho tirano perdido em seu império de manias. “Um chato, eu reconheço”.

Simplificando, ele chegou a conclusão inevitável: nem todos sabem lidar direito com a solidão, mesmo voluntária. Ou deprimem-se, ou acabam como assim, meio "fera selvagem" como percebera o filósofo grego. “Eu virei um predador. Comia pra não morrer de fome, bascava o sexo só por instinto”, conta. A partir de uma nova relação, pode enfim, retomar a vida com mais equilíbrio. Ou seja, muitos precisam ter alguém que os faça reagir. Nem só com carinho e amor, mas para assegurar o foco nas coisas importantes. Aquele puxão de orelhas contra a mesquinharia, o medo de dividir experiências e aceitar o jeito de cada um lhe fez reagir. “Amar, afinal das contas, te deixa mais humano”, afirma, sem medo de ser óbvio. Afinal, em uma tarde de final de inverno, não se pode esperar muito além disso. Principalmente entre dois ex-colegas de ginásio, saudosos de um tempo que não volta mais, graças a Deus, porque o hoje, está sempre bem melhor.

sábado, 17 de setembro de 2011

Polêmica Farroupilha acampa no Facebook

Domingo passado, minha mãe, que é quase vizinha do Parque Harmonia, em Porto Alegre, onde acontece o acompamento farroupilha, impressionou-se com o movimento no supermercado próximo a sua casa. Nas filas, dezenas de gaúchos e prendas de pilcha, fardos de cerveja e outros tragos, além de pacotes de carne e linguiça. "A Semana Farroupilha virou comilança!" imaginou dona Hedy, já achando que o negócio era "preservar" a cultura em canha e graxa. "Porque afinal, a guerra nós perdemos mesmo." Postei o comentário no Facebook e choveram comentários entre o jocoso e o formal, em defesa das tradições gaúchas. Quase polêmica. Não sou contra festejar a cultura dos pampas. Aliás, acho que somos um povo muito ranzinza para celebrações coletivas. Na Bahia, o carnaval, maior manifestação cultural de lá, dura meses. Aqui, vá fazer um festerê na praça, ou na rua, para ter vizinho reclamando do barulho, do trânsito interrompido.

Mas a questão era outra. A idéia, a partir da constatação de minha mãe, era brincar com essa descontração gauchesca, que ocorre justamente quando celebramos um evento belicoso. Só isso. Nada contra, muito mais a favor! Plinio Nunes, um dos editories do Diário Gaúcho, vestiu as bombachas e revelou suas origens campeiras, onde viveu até tomar o rumo da Capital “Só quem tem essa vivência sabe o quanto uma música, ou uma palavra gaudéria, toca fundo na lembrança. Vejo algumas críticas ao nativismo e tradicionalismo com tristeza: já que agora é moda (Graças a Deus) conviver com a diversidade, vamos respeitar aquele que tem gostos diferentes dos nossos sem que percamos a capacidade de emitir nossas opiniões,” bradou.

Tárik, o píá de 15 anos que por acaso é meu filho, foi sério e histórico: “Perdemos para um império corrupto e escravagista enquanto tinhamos ideias humanitárias e democráticas... mais importante que o ato de vencer no real, é ter a mente sã de que estamos certos. Não concordas, meu pai ?” Concordei, na hora. “Na verdade, os farroupilhas não perderam, empataram. E empate em casa é derrota”, reconheceu Plinio. Mas o Tárik – esse talento para as letras que não sei de onde puxou – destacou o valor dos antepassados “criadores de uma cultura com tanta beleza histórica, que divaga-se até hoje nos tais famosos Campos do Seival”.

O fotógrafo Arfio Mazzei lembrou os tempos de guri em Livramento, na Campanha: “Conviví com autênticos gaúchos defensores dos usos e costumes do RS, desfilei por duas vezes no Fogo de Chão Negrinho do Pastoreio, que reúne o maior número de cavalarianos e 99% são peões. O que se vê em Porto Alegre, ao meu ver, é puro modismo, gente que só se "traveste" na Semana Farroupilha”. Tem gaudério de boutique, eu sei. Mas vejo o lado positivo: divulga a cultura e ainda aciona o comércio de trajes típicos. Fora dos galpões e CTGs. Diante desses comentários, outro amigo, o Horst Eduardo Knak, me alertou:

“Em tudo que é radical, xiita, tem o lado bom e o lado ruim. O resgate das tradições foi muito bom, porque trouxe um lado sadio do campo e a nossa própria história para as cidades. Redundou em música, filmes, vestuário recuperado, culinária, entre outras coisas. Ao mesmo tempo, o ranço de quartel me afasta,” afirmou ao lembrar, talvez, a rigidez dos CTGs, em relação as regras de convívio em seus espaços. De qualquer maneira, como me advertiu Júlio Sortica, outro talentoso ex-colega dos tempos de Zero Hora: uns mais, outros menos, “mas que gaúcho é meio xiita, é isso é. Mas vamos indo... um dia quem sabe damos no perau.” Acho que é isso, seja lá o que for esse tal “dar o perau”, já que sou gaúcho urbano e não domino bem o palavreado regionalista.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Alguma verdade...


O álbum "Imagine" completa 40 anos hoje. Mas esta canção Gimmie Some Truth,  cheia de raiva santa - a cata de verdades - é um hino e, em minha opinião o grande discurso deste fantástico ábum.
Chove lá fora, e aqui tudo o que pedimos é coerência.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Quem ri-do-rato, vive!

Organizava cadernos e papéis em minhas entulhadas gavetas - um trabalho quase psicanalítico - quando achei a carta de uma ex-colega, lá dos anos 80, tempos em que ainda se escreviam cartas, coisa anterior ao e-mail e redes sociais. Ela agradecia minha solidariedade, após uma fase depressiva e dizia achar graça dos exageros, da brutal carência e falta de amor próprio que a levara ao gesto extremo de tentar acabar com a própria vida. E o fez com requintes de estilo. Redigira um texto de frases feitas, citações de grandes poetas e ainda gravara um último adeus – voz compungida – entremeada por soluços da mais pura e sincera mágoa contra o mundo cruel. Ó dor!

Um momento assim é realmente devastador, especialmente no caso dela, casada com um pacífico e dedicado professor europeu, que chegara ao Brasil para uma curta temporada esticada pela paixão. Ele só retornou quando o amor fez as malas e antecipou-se ao adeus. Partiu de repente, sem adeus. Sem aviso.

Chorou o que pode. Sentia-se pior do que o mais vil dos seres humanos e, sufocada por uma devastadora torpeza, mirou-se no reflexo das mágoas  questionar “és afinal, uma mulher ou uma desprezível ratazana”? E se pôs a roer a estima feito minúsculo camondongo.

Correu à dispensa onde guardava produtos de limpeza. Encontrou o pacote de veneno granulado para ratos. O antigo Ri-do-Rato. Abriu um,espumante francês, Veuve Clicquot, que reservara para o jantar romântico que celebraria os cinco anos de vida a dois. As primeiras taças para lhe dar coragem, as demais para ajudar a digerir as quase dez pilulas engulidas.  E assim, brindando a cada momento feliz da relação, entre choro e gargalhadas, embebedou-se.

De repente uma dor lancinante lhe torceu os intestinos. O veneno agia. Um calor, uma força estranha, como se algo se movesse apressado em seu ventre e tentasse rasgar-lhe as entranhas. Era o fim chegando, imaginou. E correu ao banheiro, onde de forma nunca antes vista, uma brutal, uma avassaladora diarreia a prendeu ao vaso. Morreria daquela maneira estúpida, humilhante? Após mais alguns longos e sofridos minutos tudo passou. E sentiu-se melhor. Muito melhor. Aliviada. Vazia.

O veneno deveria estar vencido, imaginou. Quando examinou o pacote, percebeu que ingerira um forte laxante que seu ex escondera ali. Ela tinha mania por dietas agressivas com esse tipo de medicação. Voltou a razão e abriu outro espumante. Desta vez para brindar ao homem que a jogara ao fundo do poço e que, de alguma maneira, a salvara do limbo.

Estava pronta, pós catarse, ou melhor pós diarreia, para ser feliz ou simplesmente curtir seu novo momento independente e lúcida. “De alguma forma, dele ficou aquele último gesto de carinho", escreveu ela, que voltou a namorar. "Sem grandes expectativas, porque assim, dói menos", escreveu. 

Feijão com arroz e um amor injuriado

Quando falta tempero, é hora do adeus?
Tudo ia às mil maravilhas quando ela, em uma noite quente de sábado, perguntou com aqueles olhos grandes, cheios de devoção se ele a amava mesmo. Assim, sem ressalvas, apaixonadamente. Ele, bom marido, pai exemplar, com aquela franqueza que sempre se dividia entre a rudeza e a inocência, disparou: “Amor de paixão, sei lá, é difícil medir, mas acho que não sinto mais.” Foi o que bastou para ela, injuriada, ferida em seu orgulho despachar, sem chances de reversão, naquele momento mesmo, o cara que tinha como seu para o "resto da vida". Resto que ela agora varria, entre lágrimas e o dedo em riste a indicar a porta da saída. Até hoje não entendo o porque dessas perguntas dispensáveis – especialmente pelo lado feminino da espécie – quando as coisas aparentemente vão bem. Outro dia, a mesma situação se repetiu, porque no amor não existem roteiros originais desde os tempos de Adão e Eva.

Desta vez, o ilustre marido, casualmente também em um final de semana, de uma hora para outra ajeita a mala com um kit básico de roupas e, ao contrário do que a esposa esperaria ouvir, tipo uma viagem urgente de negócios, diz que está abandonando a vida a dois. Entre lamúrias, diz sofrer com lembranças de uma ex! Sim, aquela mesma “safada” que o transformara em um "molambo desengonçado da afetividade humana", conforme suas próprias palavras. Em todo tempo juntos, a ex aparecia em pensamentos que, naquele instante delicado, não sabia definir como saudade ou paixão mal-resolvida. Aliás, esta a causa mais provável. Como se poderia prever saiu de casa no domingo e na segunda, já estava mergulhado no vácuo dos que não sabem bem o que desejam da vida, ou no mínimo, de seus amores.

Voltava depois de alguns anos para o velho quarto de infância, na casa da família. E lá lá, ouviu dos pais que tudo o que pretendia ouvir: que agira afoitamente, misturara sentimentos e magoara a mulher que verdadeiramente o amava. Mas jamais a traíra e ela sabia disso. Assim, depois de esfriar a cabeça, decidiu pedir para voltar. Com aquele típico discurso de arrependimento. Queria mais uma chance o que, em outras palavras, significa um novo acordo. Com as regras dela, sabia. Afinal, o erro fora dele. Mas a moça, intempestivamente, não o aceitou de volta. Nem pensou duas vezes. Disse que doía ainda a humilhação inesperada, sentia-se “uma idiota após esse tempo todo juntos.” Justo ela, 24 horas honesta e também fiel.

A vida oferecia o prato mais simples: o feijão com arroz das soluções existenciais. Mas ela decidira, por sua vez, complicar a receita com um toque pessoal. E no amor, assim como na culinária, uma pitada a mais é sempre um risco. Engrossou o caldo e não o aceitou de volta. Se me tivesse pedido uma opinião eu responderia com outra pergunta: Ainda sente amor por ele? Ele te tratava com carinho e afeição? Em caso positivo, troque o orgulho ferido – pela afeição que sempre é transformadora e positiva. Até porque o inverno ainda está aí e aquele lado frio da cama faz mal a quem se habituou ao calor do ser amado. E que pode sim, apesar de toda devoção, ter seus momentos de insegurança e infantilidade. Alguém aí do outro lado é perfeito?

sábado, 3 de setembro de 2011

O repórter e uma entrevista com "seu" Dilermando

O touro é "do" ou "de" Dilarmando?
A pauta era aquele imenso touro charolês, o mais pesado da raça. O reporter deu uma rápida olhada no banner pendurado acima do box, em busca do proprietário do animal e perguntou ao peão, que afofava a cama do bicho – poderia falar com o “seu” Dilermando? –  e o peão,  debochado, respondeu, sério: “Vai ser difícil... Ele morreu faz tempo.” Às gargalhadas advertiu que Dilermando de Aguiar é o município sede da cabanha, na região Central do Rio Grande do Sul. E concluiu o inevitável: "gente da cidade é muito ignorante."

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carros modernos, motoristas ultrapassados

Nas rodovias,  motoristas ignoram riscos  
Antes, eu ouvia dizer que os motoristas brasileiros entre outros riscos, se matavam nas estradas por dirigirem carros velhos, ou fabricados em plataformas ultrapassadas. Sem as mínimas condições de segurança. Hoje a situação é oposta. Carros importados maravilhosos, e nacionais muito bem equipados ocupam as ruas. Mesmo assim, acidentes acontecem com fúria insana. Eu dirijo diariamente cerca de cem quilômetros ida e volta, entre minha casa, no Guaíba Country Club, em Eldorado do Sul e Porto Alegre. E vejo coisas de arrepiar. A cada dia aprendo uma nova lição do que não fazer na estrada.

Hoje todo carro com um motor 1.0 pode andar a mais de cem por hora. E todos o fazem. Sem respeito a sinalização, movimento ou a mínima atenção às condições das pistas. Chuva ou sol, simplesmente não muda nada. Os mais perigosos nas rodovias, ainda são os caminhões, muitos com cargas acima do peso e dirigindo mais do que deveriam, no limite do estresse. Logo atrás vem as insanas caminhonetes pick-ups. Voam! A sensação deste motoristas talvez seja a pilotarem casulos inatingíveis que lhes autoriza a fincar o pé e “empurrar” quem lhes vede a passagem. E realmente, mais matam e dilaceram do que morrem.

Jamais desafio a fúria destes condutores. Quando percebo excessos – abro caminho e me mantenho mais atento ainda. Conselho que divido com todos que circulam por estradas e ruas nas cidades. Nos dias da revolução tecnológica dos veículos urbanos, das grandes máquinas da estrada, ultra-equipadas para auxiliar em uma condução mais defensiva, ainda falta chegar às rodovias uma geração minimamente preparada para substituir estas “plataformas ultrapassadas” representadas por um grande número de condutores de veículos em nosso Brasil. Que venham logo, porque os que ainda estão aqui, ceifam e mutilam vidas. Impunes.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Pode um amante ser "prestador de serviços?"

Atenção amantes! Viver uma paixão secreta, às escondidas, pode resultar em quase tudo: divórcio, quando uma – ou ambas – partes forem casadas, grandes sustos, momentos de intenso prazer ou cenas magníficas de escândalos e tensão em ambientes públicos. Quase tudo, menos um compromisso tipo união estável. A relação entre amantes, é puramente passional, um acordo secreto e que, em tese, não pode ter regras convencionais. Aí sim se transformaria em algo tipo concubinato, imagino eu.

E foi por isso que o desembargador Luiz Felipe Brasil Santos, do TJ-RS não atendeu a pretensão indenizatória “por serviços prestados” de uma mulher que reclamou prejuízos após cerca de quatro anos com um homem casado. A reclamante alegou que, inciada a convivência amorosa, “passou a se dedicar com exclusividade, deixando de trabalhar para satisfazer os desejos e vontades do homem,” conforme diz a matéria do TJ.

O desembargador foi direto ao ponto: "não se pode determinar o preço das relações afetivas." E vai além, ao afirmar que o relacionamento amoroso, mesmo que reconhecido, “não caracteriza uma união estável.”

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Um, dois, três. Quantos casamentos são possíveis?

Quantas vezes você pode casar até encontrar o par perfeito? A pergunta partiu de uma amiga que, ao ver meu perfil na rede social, fez as contas e percebeu que eu já tinha uma boa experiência nesta praia. Eu, que nos tempos de guri ouvia os comentários escandalizados dos mais velhos contra “o casa separa do meio artístico”, hoje percebo que as relações se volatilizam com o passar dos anos. Sinal, ou melhor, sina dos tempos. Pensei seriamente a respeito. Afinal de contas, a pergunta era pertinente. Ela me contou que por mais de uma vez tentara encontrar um novo companheiro. Buscou em todos os lugares possíveis: festas, indicações de amigos, em bailes e bares de solteiros. “Mas, apesar de conhecer homens legais, estes pareciam distantes, mais preocupados com o momento”, reclama.

Ela se diz cansada de a cada sexta-feira “vestir-se para matar” e voltar para casa sem muito a acrescentar nessa verdadeira batalha em que se transformam os ambientes onde frequentam solteiros originais, ex-casados que retornam a essa condição e prováveis novos solteiros: casados em “escapadinhas”. Esses, “o pior perfil”, define a amiga. De qualquer forma, não existem alternativas diferentes para quem deseja ter alguém a seu lado. Juízo, muito mais do que determinação, e amor próprio, acima de tudo. Quem não se gosta vai encontrar quem não gosta de ninguém!

Sou um tanto arisco a uma atitude de “caçador” nestas horas. Em botecos, por exemplo, é mais difícil encontrar-se o tal “par ideal.” Não que seja impossível. Mas tenho exemplos doidos de gente que literalmente “casou na festa” e acabou enfrentando uma ressaca monumental ao final. “Mas por onde devo começar?” exige a amiga, já um tanto desarvorada. Não deixar de divertir-se, manter o espírito festeiro é importante e aprender, aos poucos, a avaliar um pretendente. Descasados precisam guardar lições de relações passadas. Amadurecer é tudo. E investir em perfis, não em ambientes. Aquela mulher, aquele cara que te atrai e está disponível, quem sabe?

Atingido o objetivo maior, chega a etapa de responder à pergunta que abre esta crônica. Será que vai durar o suficiente? Se não, poderei casar outras vezes? Erro crasso de avaliação. Faça o melhor para tornar a vida a dois muito mais do que tolerável, com bons momentos de felicidade. Criem planos em conjunto, não pensem que poderia ter sido melhor desse ou daquele jeito, mas que existe uma maneira única de se construir uma história a dois. De repente, os anos passaram e a parceria aumentou. A febre da paixão não ultrapassa mais os 37,2 graus, mas é perfeita para acalmar a ansiedade e alimentar um amor formatado na admiração mútua.

E assim, entre combinações para a reforma da sala, o passeio à Serra ou quem sabe uma temporada na praia, essas coisas tão comuns, mas que fazem uma falta terrível quando se está sozinho, conduzem o tempo de uma maneira especial. Isso vale por toda uma vida? Ou pode se repetir com muitos outros candidatos? Aí, respondo, é simplesmente uma questão de energia e saúde. Buscar o amor é tão importante quanto manter um amor. Uma, duas, três… Até onde se poder contar.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Música


Densa partícula de éden,

te quero assim, fina retícula.

Fotografada toda por

fragmentos de minha alma.


Minha voz, minha existência.

Meu compasso, minha calma.

Meu muro minha resistência


Te tenho como amante

e quando silencio,

mesmo num simples instante,

incenso, alimentas meu cio.

(IN) VERDADES

O pior mentiroso
Conta verdades
Absolutamente
inacreditáveis!

Morre atropelado
Pela sinceridade e
Sofre até a última
gota sua fantasia
Absurdamente
Verdadeira.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Help! Os 46 anos do filme que antecipou a MTV

No dia 29 de julho de 1965, foi lançado o segundo filme dos Beatles. Help! "Uma aventura surreal," segundo a crítica da época, com cenas em Londres, Bahamas e Alpes Suíços e uma estética que influenciou, definitivamente, o estilo de clips, tal qual conhecemos hoje. Aliás, o diretor Richard Lester, é considerado o "pai da MTV".

No filme os quatro cabeludos sofrem com a perseguição de membros de um culto indiano que precisa do anel de Ringo para seu culto. Tem versão remasterizada nas locadoras. Lembro que no Brasil, o filme chegou quase um ano depois... Eles já haviam lançado Rubber Soul, preparavam o fantástico
Revolver e nós gaúchos, nos conformávamos com os cartazes do filme, a amarelar nas galerias dos cines Imperial e Guarani, na Rua da Praia.

Hoje, antes mesmo de chegar às telas, já temos as cópias pirateadas dos grandes lançamentos em filmes e música. Quando me dou conta disso, me sinto o próprio homem das cavernas, recém saído da idade da pedra. Que coisa! Mas na verdade, os anos 60 representaram a abertura de portas para esses tempos digitais. Havia ânsia pela revolução do novo.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Guia caseiro de compras e diversão em Rivera


Gilberto, Henrique, Carmen e Laura: um brinde a Rivera!
Por Gilberto Jasper/Especial Concriar

Fazer um passeio à fronteira do Rio Grande do Sul é sempre bom. Para a alma, para o espírito e, porque não, também para o bolso... Desde que se faça compras - como diz o comercial - “... com moderação”. No último final de semana fui novamente a Santana do Livramento. A esposa e os dois filhos adolescentes (15 e 17 anos) acordaram cedo (sem reclamar) e ás 5h30min estávamos na estrada e pouco antes do meio-dia chegamos. (dicas anteriores sobre Rivera, clique aqui)

Abaixo algumas dicas que, eu espero, sejam úteis para aproveitar as compras no Uruguai, evitar contratempos e perda de tempo na estada pela fronteira da paz:

| Viagem: Procure elaborar um planejamento mínimo. Por exemplo: chegamos perto do meio-dia e decidimos almoçar cedo para evitar otumulto entre 13h e 14h30min quando restaurantes, bares, lancherias e congêneres estão superlotados. Ao terminar a refeição, fomos às compras com o movimento em baixa e revigorados da jornada de quase sete horas de estrada.

| Viagem II: Como contei no depoimento anterior, antes de sair de casa costumo passar no supermercado e comprar refrigerante, frutas, água mineral e barras de cereal. As bebidas são colocadas numa bolsa térmica com gelo. A cada hora e meia paro para esticar as pernas, espantar o sono e ir ao banheiro. Vale a pena! Serve como prevenção e para curtir o visual do pampa gaúcho.

| Hotéis: Os principais são Portal, Verde Plaza e Jandai,tradicionais que possuem preços semelhantes, mas existe uma infinidade de hotéis menores, pousadas e hotéis fazenda na entrada da cidade.

| Hotéis II: Os tradicionais têm apartamentos de luxo casal ao custo aproximado de R$ 200,00 e de solteiro por R$ 150,00 com pequenas variações. De segunda a quinta-feira os preços são bem mais atrativos, sem falar no movimento da Avenida Sarandi – onde se concentra a maioria dos free shops - que é menor e os balconistas dispõem de mais tempo (e simpatia) para fazer um atendimento personalizado. Evite viajar sem reservas antecipadas! O roteiro para Livramento está super aquecido, inclusive no meio da semana. Nos feriadões o movimento chega a 30 mil turistas!

| Pesquisa: Na minha opinião não adianta pesquisar muito, ainda mais para quem  tem pouco tempo. A diferença entre os preços é mínima. Geralmente onde o valor cobrado é bem menor existe a grande possibilidade da cotação do dólar em relação ao real estar acima da média. Abra o olho!

| Variedade: A diversidade de produtos de todos os tipos chama a atenção. Existem muitas mercadorias não encontráveis por aqui, inclusive de marcas renomadas. Isso vale para eletroeletrônicos, bebidas, cosméticos,perfumes, alimentos, roupas pesadas de lã e couro e quinquilharias em geral (apetrechos para chimarrão, copos e braseiros de inox usados para acomodar aparrilla, tênis, entre outras atrações).

| Alimentação: Na hora do meio-dia devoramos duas ala minutas ao custo de R$ 45,00 cada. Foram porções generosas por um entrecot macio, acompanhado de fritas, arroz, salada mista e ovo frito, regada com cerveja da melhor qualidade porque não iria dirigir mais naquele dia: Norteña, Patrícia ou Pilzen - pequenas, medias ou de litro. Praticamente todos os restaurantes mantêm uma vasta carta de vinhos a preços mais baixos que os cobrados pelos similares gaúchos nos restaurantes de Porto Alegre. Graças à ausência ou taxação reduzida.

| Alimentação II: Se você viajar com crianças ou adolescentes procure opções que ofereçam carnes, massas e pizza para atender a todos os gostos. O Hotel Uruguai-Brasil, localizado no coração da Avenida Sarandi, é uma boa opção, apesar da desorganização. Em nenhum estabelecimento é observada a ordem de chegada ou distribuída senha para a chamada dos clientes. Dica: Observe uma mesa onde as pessoas já estão no cafezinho ou sobremesa, puxe assunto com elas e fique por perto. Quando levantarem, peça licença e sente rapidamente!

| Vinhos e bebidas: A loja Barão, uma das principais – em preços e variedade – está concluindo as obras e possui uma das sessões de Rivera. Vasta, espaçosa e onde as promoções chamam a atenção. O honesto carmenère chileno Cassillero Del Diablo custa 8,30 dólares, mas há desconto para compras acima de duas garrafas. Há cervejas de vários países, tequila, absinto, vodkas espetaculares, energéticos de diversas marcas,espumantes (as champanhes) de países inimagináveis e várias atrações.

| Vinhos e bebidas II: O que facilita a compra é que as bebidas são entregues diretamente no hotel. É uma cortesia oferecida por todas as lojas. Basta acompanhar o carregador que não cobra gorjeta, mas fica feliz ao recebê-la. No final de semana foi impressionante a procura por vinhos – argentinos, uruguaios, italianos e chilenos – principalmente. Mas observe a cota máxima que é de 10 litros (e não 10 garrafas) por pessoa para evitar complicações em caso de fiscalização da Receita Federal. Esta quantia deve estar dentro da cota máxima por pessoa de 300 dólares.

| Outras opções: Chocolates suíços, queijos de todas as variedades (inclusive ralado), azeite, alfajores, temperos variados, o irresistível dulce de leche (doce de leite), balas coloridas (xodó da gurizadinha!) estão entre produtos de excelente qualidade e preços atrativos.

| Fiscalização: A Receita Federal mantém permanentemente um treiler na entrada de Livramento, junto à Polícia Rodoviária Federal. Nunca fui parado, mas os veículos grandes – especialmente as picapes – são alvos preferidos dos patrulheiros. Evite exagerar na compra de eletroeletrônicos (como splits eaparelhos de som), e pneus. O excesso geralmente não é perdoado. E a burocracia para regularizar a situação é lenta, sem falar da despesa...

Outras dicas:
  • Evite dirigir com sono: a viagem tem inúmeros trechos feitos de longas retas que são traiçoeiras sem a noite foi mal dormida;
  • Revise o veículo antes de pegar a estrada.
  • Cheque principalmente freios, faróis, estepe e não se esqueça de calibrar os pneus. Há grandes extensões de rodovia sem postos de gasolina, oficinas mecânicas e borracharias.
  • Fique de olho na previsão do tempo. Viajar sem chuva ou neblina é sempre mais prazeroso e     menos cansativo.
  • O pagamento com dinheiro vivo – dólar ou real – permite maior barganha. A maioria das     lojas mantém preços diferenciados
  • Evite andar de carro em território uruguaio. Nos finais de semana o movimento é intenso e a probabilidade de pequenos acidentes é grande, o que causa muitas dores de cabeça aos motoristas porque a burocracia dos hermanos é implacável.
  • Se for necessário faça várias “viagens’ ao hotel para levar sacolas.
  • Todas as lojas (à exceção da Siñeriz) mantêm armários na entrada para guardar compras. Eu costumo deixar o carro na garagem do hotel na chegada e retirá-lo somente na hora do retorno.
  • E por último: se você não quiser se incomodar com amigos, parentes e conhecidos, evite divulgar que viajará para fronteira. Do contrário, sua cota máxima de compras será     preenchida somente com emcomendas...
 Boa viagem!

domingo, 24 de julho de 2011

Amy, e o soul cantando agora livre

Eu ouço Amy Winehouse sempre com uma sensação de aperto no peito. Com Janis Joplin era a mesma coisa. Canções rasgadas em emoção - ora irônicas, ora despudoradamente apaixonadas - mas sempre com um pé na cova, a cavar tragédias só pra ter motivo para mais uma dose...

Agora que ela se foi, e com certeza, onde estiver deve estar finalmente em paz. Quem sabe ao escutar seu belo timbre de voz, consiga aproveitar melhor aquelas melodias - modernas - embora a ambiencia dos arranjos à moda do soul music de minha infância.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Escândalos para inglês ver

Será que o escândalo das escutas telefônicas promovidas às escondidas pelo News Of The World servirá de exemplo e acabará com essa imprensa antiética e medíocre, que alimenta-se do pior da raça humana? O semanário inglês de 168 anos fechou as portas esta semana. Os grandes grupos tomarão mais precauções, e continuarão com seu noticiário de fofocas, deduções instáveis e calunias sobre gente inocente ou ávida por promoção. Mesmo assim, acabam invadidas em sua intimidade por fotógrafos e redatores sem escrúpulos. O público leitor, a grande massa que consome tragédias para sublimar as próprias mazelas, consome avidamente esse tipo de jornalismo.

Eles ficam à espreita, vigiam artistas, políticos e outras figuras ilustres sempre esperando o erro fatal. Sim, Amy Winehouse é uma grande cantora, de vida atribulada e tragicômica, mas só acompanhar seu trabalho não adianta. É preciso acompanhar o mico, às vezes escatológico, outras vezes deprimente. Jogar a condição humana na vala mais suja, como a repetir: olhem aí seus ídolos de barro!

Conservadores, somos todos. Moralistas de bombachas que, na maioria das vezes, pisam no próprio pala e aí gritam, desesperados, contra a “falta de profissionalismo” das publicações sensacionalistas. Os fãs de musas criadas pela mídia, como Britney Spears, não se contentam com suas canções de fácil disgestão, ou clipes ultraproduzidos, querem as imagens distorcidas dos paparazzi que as flagram sem calcinhas, em boates da moda, ou de amasso com outras celebridades, em excessos que envolvem drogas e álcool.

Escândalo só não é bom quando bate a nossa porta. Aí a casa cai! De resto, estamos de portas abertas aos programas de fofocas, às revistas coloridas com notícias sem cor, sobre a fulana que ficou com este, esta e aqueles tantos outros. É um resurmir-se a tão pouco que chega a envergonhar (quem tem a vergonha no lugar certo, ou seja, muito acima do local focado na maioria das vezes).

É justa a condenação, o rigor na punição aos que foram longe demais. Mas entre os bretões toda a nudez será castigada. Aqui, se desnuda o crime, mas existe sempre uma maneira escusa de se defender o indefensável. Quem mandou se expor? “Se age assim, é porque quer aparecer”. Mas quantos casos sérios, sequestros ou assassinatos misteriosos, foram atrapalhados por “investigações” sensacionalistas?

A ressaca da musa, o affair gay de um galã é só a camada mais fina deste submundo que se diz jornalístico. Mas é apenas panfletagem rala em papel caro. E aí, vamos continuar assinando estas publicações?

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A economia nossa de cada dia


Lidar com as finanças é uma arte
Assisti a palestra de Gustavo Cerbasi, quarta-feira (6), à noite, promovida pela corretora Geração Futuro, em Porto Alegre. É uma dessas ocasiões em que tomamos uma injeção de ânimo e renovamos o compromisso com nós mesmos de economizar mais pensando no dia seguinte. Muitos saíram de lá motivados, e se conseguirem superar a rotina do desperdício e desequilíbrio, seguirão adiante. Cada uma a sua maneira e dentro de sua própria realidade.

O ideal, como insiste a economista da família, Magali Beckmann,  por acaso minha esposa, é evitar o lugar-comum de nos depararmos de com um daqueles monstros típicos do mau uso do dinheiro e, diante de problemas quase insolúveis, nos boicotarmos com pensamentos do tipo: “Mês que vem compenso e deposito um pouco mais.” Sabemos que esse dia nunca vem e caímos na boca de outro monstro, maior ainda.

Cerbasi é um profissional pragmático, que viu nas maçantes aulas de análise fundamentalista que proferia, a oportunidade de tocar num assunto que ainda é restrito nos lares domésticos: a educação financeira. Com os pés no chão, e adaptada a realidade de cada um, ele diz que é possível sim conquistar a independência financeira.

“O primeiro milhão parece impossível? Comece com a metade”, diz ele, inspirado pela própria experiência: aos 37 anos, está “aposentado”, mas trabalha só por prazer. Aí você pensa: “por que não guardei dinheiro quando era jovem?” O próprio Cerbasi lembra que hoje, vivemos muito mais. E assim, não faltará tempo para uma virada, especialmente para nós, 50tões que, em nossa juventude enfrentávamos o descrédito das instituições financeiras. Bolsa de Valores? O que era isso em 1950 ou 60? Dinheiro era aquilo que a inflação devorava. Feliz a geração da estabilidade destes novos dias!

Quem é Gustavo Cerbasi:
Mestre em Administração/Finanças pela FEA/USP, formado em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com especialização em Finanças pela Stern School of Business - New York University e pela Fundação Instituto de Administração (FIA).  Leciona em cursos de pós-graduação e MBAs pela Fundação Instituto de Administração, além de diversos cursos ministrados in company. Com experiência prática e acadêmica em finanças dos negócios, planejamento familiar e economia doméstica, desenvolve treinamentos, palestras e consultorias para diversos públicos por todo o Brasil.

Bibliografia:
  • Casais Inteligentes Enriquecem Juntos
  • Dinheiro – Os segredos de quem tem
  • Filhos inteligentes enriquecem sozinhos
  • Finanças Para Empreendedores e Profissionais Não Financeiros
  • Investimentos Inteligentes
  • Investimentos Inteligentes (Guia de Estudo)
  • Mas Tempo, Mas Dinheiro
  • As Mulheres e o Dinheiro
  • Cartas a um jovem investidor
  • Como Organizar Sua Vida Financeira
  • Guia para Investir em Ações
  • Investimentos inteligentes

terça-feira, 5 de julho de 2011

Acelerados na cidade nervosa

Havia uma cidade onde todos tinham muita pressa. Levantavam uma hora antes, afobados. Tomavam café às pressas, vestiam as crianças em segundos, os que tinham crianças a cuidar e lhes alimentavam de um desjejum instantâneo, sem sabor, porque saborear exige tempo. Em seguida, estavam na porta da casa, do ônibus escolar ou na recepção da creche. Mãos nervosas a acenar beijos tensos. Precisavam estar à frente, antecipar-se ao engarrafamento, evitar as filas. Porque tinham de estar lá, precisamente na hora certa. Ou melhor, muito melhor, alguns bons minutos antecipados. Assim, corriam para pegar o ônibus, ou abrir a garagem, para antecipar segundos, buscar um desvio, escapar do sinal fechado, avançavam faixas de pedestres. Cometiam deslizes, em nome do compromisso, esqueciam os bons modos e reclamavam de quem lhes atrapalhava o ritmo. Se havia fila, davam um jeito de furá-la. Que feio!

Esta cidade sofria com altos índices de intolerância. Todos chegavam praticamente juntos para disputar os espaços, cada vez menores, no ônibus, no trem ou nos pontos dos táxis, onde motoristas neuróticos odiavam os roteiros em vias congestionadas. Mas lá, existiam apenas avenidas modernas, entupidas de gente e veículos. De todos os tipos, modelos ou cores. Sempre a mil. No trabalho, lutavam por mesas, computadores, telefones e cargos que acelerassem seus processos. A ânsia de poder, não os permitia perder tempo para o questionamento abstrato, que de uma maneira ou outra, poderia encaminhar soluções menos sofridas. Mas a vida naquela cidade era para ser rápida feito seus lanches, seus cafés em pó e sua fugaz alegria.

Eles riam nos bares, ao final do expediente. Misturavam bebidas e enérgitos para acelerar o prazer como quem busca recompensa por uma missão que não se definiu ainda o sentido. Voltavam para casa dispostos a dormir o quanto antes e assim, no caminho, não percebiam a cidade aflita por uma noite sem sirenes, ou mortes gratuitas. Apenas uma noite para sonhar. Mas sonhos não eram mais permitidos, porque lhes obrigariam a pensar, interpretar as mensagens de seus subconscientes. Então, tomavam pílulas para dormir e, ao acordar, pílulas para lhes bloquear o apetite, pílulas para motivar a repetir a rotina da pressa.

Lembro que no dia em que parti desta cidade funesta. se formara um grande congestionamento nas principais vias. Todos, exceto alguns poucos excluídos, haviam se deslocado exatamente na mesma hora. Haviam caminhado os mesmos passos afobados, percorrido as mesmas ruas na mesma louca velocidade e, desafortunadamente, cometido as mesmas pequenas contravenções para chegarem, é claro, antes.

Assim, de uma forma inédita trancaram ruas, calçadas, elevadores e todos os espaços públicos possíveis. Ainda consegui ver a minoria lenta circulando por vias alternativas. Evitavam assim a neurose dos semáforos de três estágios, a zanga dos jogavam - uns contra os outros seus parachoques - e frustrações. Escapavam da fobia dos que não sabiam admitir que, às vezes, mudar o rumo evita um grande problema e cria uma nova alternativa. A cidade de uma hora para outra, estava entupida de gente afobada.

Gente que não conseguia desligar. Que pensava na aposentadoria que viria um dia, ou no final de semana que passaria rápido demais, entre o shopping, o cinema e quem sabe um pouco de amor, eterno dentro de alguns minutos. As buzinas soavam como somente o coral do desatino poderia soar: aos berros. Os gritos, os desaforos e as ambulâncias misturavam-se em outros tons, sem saber a quem  socorrer. Era um engarrafamento monstro de ansiedade bruta. De monolítica ignorância entre tantos cidadãos com diplomas, títulos de nobreza e uma não declarada vontade de sumir o mais rápido possível.

A minoria lenta seguiu pacientemente a desviar dos grandes corredores, das perimetrais e túneis que a cidade grande construía para causar uma falsa sensação de agilidade, de leveza urbana e trancar tudo metros adiante, em seus funis de concreto. E foi assim que esta destemida minoria lenta chegou lá. Ainda a tempo de bater o ponto sem angústia. Aproveitar o aroma gostoso do café recém-coado e observar, da janela, o movimento das pessoas nas calçadas, desta vez, cada um a seu ritmo, com um toque inédito de civilidade e paz. Pontuais, como sempre poderiam estar.