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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Dias de luta, dias de glória. Porque não?

Jovens suicidas, jovens depressivos. A fase mais bonita da vida -  apesar das incertezas e medos – mas tão rica pela surpresa do novo e a possibilidade de mudança, acaba desperdiçada no desencanto depressivo. Iinacreditável em um mundo onde quase tudo pode ser diagnosticado, remediado ou mantido sob controle. Fico abatido quando vejo tantos guris e gurias a sofrerem de forma tão intensa que chegam ao absurdo de atentar contra a própria vida. No início da semana, o ex-baixista da banda Charlie Brown Jr, cometeu suicídio. Leio nos jornais que Champignon, como era conhecido, sofria muito desde a morte do parceiro de banda, o vocalista Chorão, por overdose de cocaína (outro ato suicida). Ele não soube abrir os olhos para as coisas boas que permaneciam, como as canções, os fãs, e família e esposa, grávida de cinco meses. A depressão deixa suas vítimas cegas, surdas e mudas. Cria uma capa egoísta – eu sei bem, porque muito lutei contra a depressão – onde parece que a dor do mundo se concentra em si e diante de tanta e injusta aspereza, chega ai extremo de querer a morte.

Na minha adolescência, ainda existiam alguns desses médicos da família. O tipo que valia a pena se chamar de “doutor”, que ajudava contra os males do corpo e ainda receitava sábias dicas quando a dor era na alma. Um destes profissionais, certa vez me sugeriu que toda a vez em que estivesse “pra baixo”, levantasse o moral escrevendo sobre coisas bonitas, positivas. No princípio era doloroso exaltar o sol, quando eu me sentia coberto de nuvens negras. Mas na rua o dia lindo acabava vencendo. E se fosse tempço nublado, chuvoso, me forçava a buscar a beleza que se escondia na água que rolava da calçada, lavava os paralelepípedos (que palavra imensa!) e realçava o verde das árvores, dando um ar poético, mas não melodramático ao cotidiano.

E assim, fui enfrentando as adversidades, os monstrinhos dessa tristeza que surge do nada, ou às vezes de uma situação trágica, mas que deve ser enfrentada, porque essa é a nossa missão. Acho que tanto os jovens músicos do Charlie Brown cantaram temas bacanas, que talvez tenham esquecido sua própria mensagem. Sempre gostei, por exemplo, de ouvir  “Dias de Luta, Dias de Glória” , um verdadeiro hino à resistência ao afirmar “quanto mais a gente rala, mais a gente cresce (...)  Com a cabeça erguida e mantendo a fé em Deus, O seu dia mais feliz vai ser o mesmo que o meu. A vida me ensinou a nunca desistir, Nem ganhar, nem perder mas procurar evoluir. Podem me tirar tudo que tenho, Só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz pra quem eu amo.”

Impressiona, não é? Então, sejamos aqueles que enfrentam todas as batalhas, que não são poucas, para vivermos também dias de gloria. Vamos além da nossa imagem no espelho, onde aquele “eu” que busca sempre o entendimento, não vai sucumbir diante das maldades alheias, dos pensamentos turvos, dos contrapés que aplicamos em nós mesmos. Se a dor é química, tem remédio, para tratar. Se a dor é do espírito, tem sempre alguém para te escutar.

E tirar lá do fundo, com total entrega, mesmo nas manhãs frias que antecipam à luta, a canção do Charlie Brown que concluía sabiamente: “Hoje estou feliz, acordei com o pé direito. E vou fazer de novo, vou fazer muito bem feito!” Isso vale para até para os jovens como eu, que já acumulam mais de meio século. Dias de boa luta para todos!

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O véu que cobria a noiva

E lá estava o velho eucalipto no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Imponente, majestoso, até desabar sobre três pessoas que faziam sua caminhada habitual, ou simplesmente curtiam o verde que resiste ao concreto da cidade grande. Não vou aqui iniciar um tratado sobre a podridão que o devorava por dentro, não sou botânico. Mas a metáfora das aparências é irresistível. As cenas que assistimos no cotidiano onde as estampas – macias, bonitas e fofas – muitas vezes se consomem em uma feiura e aspereza interior que pode levar a grandes e surpreendentes tombos.

Apaixonado por fotografia, muitas vezes registrei eventos, casamentos, batizados e festas de amigos. Na maioria das vezes era contratado para trabalhos diferenciados, utilizando filmes e filtros, em cenas inusitadas. Hoje é comum, esse tipo de coisa, mas nos anos 70 eu conseguia um dinheiro extra e ainda me divertia. Ou tomava sustos. Foi mais ou menos assim, na vez em que fotografei uma noiva linda, morena de olhos verdes. Guria muito séria, frequentadora de Igreja. Ela e o noivo.

Tão envolvida estava com a idéia de fotografar o cotidiano, das aulas na faculdade até o curso de noivos que, numa dessas sessões fotográficas esqueceu que eu estava ali para registrar tudo. Minutos depois da foto em uma antiga loja de discos da Capital - um beijo tipo “selinho” no noivo, este sempre com pressa para voltar ao escritório, beijou apaixonadamente um cara que eu não conhecia, em plena Rua da Praia. Quando ela se deu conta que eu estava ali e havia registrado tudo, implorou: “Ele é só um antigo amigo. Foi uma brincadeira”, jurou.

É claro que joguei fora os negativos que a incriminariam. E ainda por cima, no dia do casamento, caprichei em outras fotos alternativas não comprometedoras onde o véu branco, símbolo de virginal pureza, contrastava com um sorriso enigmático. Soube que a relação durou exatamente um ano. O marido não precisou de minhas fotos para descobrir o óbvio. A árvore que haviam plantado crescia bonita, mas por dentro, a hipocrisia envenenava as boas intenções e não permitia dar corpo e força às raízes. Tornava-se casca e folhas... Nem precisou de vento para cair.

Certa vez, ao ler Adam Phillips, um psicanalista inglês, lembro que ele dizia que exigir monogamia aos casais era mais do que uma mentira, uma pressão para um a ser tudo para o outro. “É uma demanda moral irrealista”, ponderava. Mas igualmente alertava que as pessoas não estão preparadas para a infidelidade. Que sinuca, hein? Em síntese, todos querem ser felizes. E para isso escolhem casamentos e profissões, muitas vezes só pela projeção social a ser desfrutada. As aparências! E o próprio psicanalista aconselhava: “Há coisas muito mais importantes do que a felicidade: justiça, generosidade, gentileza.” Virtudes que, somadas, ajudam a manter a árvore da vida frondosa por muitos anos, com certeza.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A criança e o monstro

Como transformar rancor em tolerância?
Quem afinal nós somos? Seremos extraterrestres, ou ao contrário, seres dependentes em demasia das coisas terrenas? As pessoas seguidamente me classificam como um sujeito calmo e pacificador. Diante do espelho quase acredito nesta imagem. Na verdade, não contem para ninguém, existe dentro de mim um sujeito inconformado, com uma agressividade latente, doido para mandar muita gente para bem longe. Colocar todos em uma nave e deixá-los em outra galáxia, onde terão tempo para pensar nas bobagens cotidianas, cometidas às pressas, por puro egoísmo ou desleixo ou, até mesmo contágio. Quem disse que maus humores, teses preconceituosas ou intolerantes não podem ser contraídas inadvertidamente?

Psicopatas que dizimam dúzias e depois saem para jantar, terroristas que matando supostamente atendendo mandamentos divinos, acabam servindo como justificativa àqueles de personalidade instável que, insuflados pelo comportamento doentio alheio, justificam seus atos, não tão violentos assim, mais igualmente carregados em delitos. Quem começa batendo carteira pode acabar explodindo bancos! Por isso, toda a calma, toda a tolerância é bem-vinda. E não pensem que o ser raivoso que habita em mim, de repente explodirá em fúria, massacrando gente com gritos de meias verdades, que corresponderiam a mentiras inteiras. Errar me leva à autocrítica. Evito acumular frustrações de coisas que deixei de fazer por puro medo. Reconheço minhas limitações.

Por exemplo, quando não ousei em questões profissionais, ou domésticas, assustado com os inevitáveis riscos. Eu deveria ter feito isso, assim e assado. Não o fiz e agora me puno sendo um autêntico “mala sem alça” que desnorteia quem me cerca. Ao contrário, assumir a própria fragilidade dá forças para se olhar bem lá no fundo e arrumar as gavetas. Atitudes desta natureza seguram o mostro insano que habita em meu íntimo. Ele apieda-se de minha própria insanidade e libera como camuflagem, o personagem sensível, conciliador criado para escapar de atritos inúteis e ainda, de quebra, conquistar a admiração alheia. É bom ser reconhecido como um cara legal, do bem e saber que a fera está domesticada.

Para atingir esse nível, é preciso muito esforço. Ouvir as gentes, quem sabe fazer psicanálise. Todo problemático odeia terapia. E aí, vive maquiado às avessas, carregando o peso de uma carranca, que pode ser odiosa, ou falsamente bela e sedutora, mas que no fundo, apenas destrói e detona pontes que o ligariam à consciência, ao prazer de viver. É uma espécie de narcisismo doentio e infantil, porque, na verdade, o ser bacana, está lá embaixo, sem forças para reagir, sufocado por sentimentos como o egoísmo, a inveja e a ganância.

Pode soar ingênuo tudo isso. Mas é essencial. A fera que habita em mim, o ser extraterrestre, na verdade, é um menino que nunca amadurecerá. Mas que pede que o ensinemos a viver melhor. E quem, realmente, busca por isso, educa essa eterna criança. É possível, sem gritos e sem rancor.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Dias de Pais Harmonizados

Pai também curte presentes caseiros
O tempo das meias, cuecas e gravatas de gosto duvido como presente para homens, já passou. A libertação das mulheres, que as colocou no mercado de trabalho e na vida pública em geral, também permitiu aos homens uma outra e definitiva libertação no caminho do lar.

O macho provedor, totalitário e muitas vezes irascível, tornou-se um sujeito preocupado com a harmonização – aproveitando uma palavra da moda – entre o trabalho e o lazer, passando por detalhes nunca antes imaginados para quem se considera um verdadeiro exemplar de seu gênero.

Hoje somos muitos a administrar as compras do supermercado, em listas que nós mesmos construimos, se possível em parceria com a esposa, ou mesmo, com com os empregados domésticos. Estes, que antes negociavam diretamente com a patroa, hoje ouvem respeitosamente os patrões, igualmente zelosos e detalhistas. Se gerenciam atividades no escritório, porque não o fazer em casa?

Toda essa conversa é para se chegar a conclusão de que, no Dias dos Pais, o foco é outro também. Pai, pelo menos o modelo que defendo, não fica achando que ninguém o ama se for esquecido ou receber um telefonema de última hora do filho para dar o “parabéns pelo teu dia”. Mas se existe a disposição para se comprar um bom presente, as opções agora são muito maiores.

Homens, antes restritos a grandes chefs em restaurantes, agora experimentam a estressante culinária doméstica. Com diferenças, ao contrário das mulheres, que aprendiam de mãe para filha e assim, na maioria das vezes refratárias às novidades, os novos donos de casa passam a curtir essas coisas inventadas para facilitar a vida na cozinha. Aparelhos para cortar, ralar e ajudar na tarefa cotidiana, são presentes muito bem vindos. Livros de culinária, são homens os grandes consumidores.

Enfim, tudo aquilo que ofendia uma dona de casa. Porque  a prendia na cozinha, é libertador para o macho da espécie, que pode usar os músculos antes úteis para abater javalis, agora perfeitos para sovar o pão com ervas, acompanhamento perfeito em um assado de porco salvagem, devidamente encomendado em algum bom matadouro. Legalizado, é claro, Pai é exemplo.

E por favor, não vamos confundir homens de verdade com esses monstros que vitimizam familiares, em notícias trágicas de jornais. Nós, os caras que amamos do fundo de nossos corações os filhos gerados, somos responsáveis por lhes deixar a lição  de que a força e a determinação de todo homem deve ser voltada à proteção de seu lar.

Se antes, éramos ensinados a sermos rudes e distantes, hoje recebemos nossos rebentos de peito aberto nas cozinhas de nossos lares. Um espaço magnífico onde as mulheres dominaram por tanto tempo e que nos cederam, pelo que vejo, com muito gosto. Então pessoal, as boas casas de utilidades no lar, reservam presentes bacanas para os novos papais donos-de-casa.

Às compras então, estão esperando o que?

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Mick Jagger e os roqueiros setentões

Velho? Sim, mas sem desafinar
Eu sei que o tempo não perdoa.  Os excessos que a juventude antes me permita, hoje são duramente castigados com dores no corpo e ameaças terríveis que podem  deixar a vida bem mais difícil, ou encerrá-la definitivamente. Até mesmo os papas – vejam Bento XVI – pedem aposentadoria. A diferença é que cuidar do corpo e da mente, nestes novos tempos, não significa uma aposentadoria caquética, mas um tempo para outras atividades que mantenham a mente ocupada, a alma feliz e o corpo protegido. O Papa Emérito agora medita recolhido para estudos sobre a Igreja. Um trabalho intelectual importante.  O argentino Francisco, seu substituto, que também é veterano, tem vigor de menino e cumpre seu papel com eficiência, e energia. Provou isso essa semana, no Brasil.

O que nos diferencia no tratamento com os velhos, nos dias de hoje?  Com certeza não são as expressões do tipo “melhor idade”.  A palavra “idoso”, embora sua origem em idade, tem uma conotação que segrega. Não considero meus 60 anos a “melhor idade”, no sentido do vigor que se vai, mas uma vantagem, com certeza, no quesito amadurecimento. Mas como tem muito velho com mentalidade infantil por aí, eu definitivamente não acredito nestes eufemismos. Coisa bem cínica. Dói tudo, os joelhos exaustos do sobrepeso, os músculos exigem menos sedentarismo – corpo de velho precisa de movimento – e ainda estou a pagar, literalmente, pelos erros cometidos na juventude afobada que tive. Minha alma sim está mais leve, mais bonita. Vê o mundo com a tranquilidade que nunca tive.  

Tenho certeza que é essa leveza espiritual que move velhos ídolos dos anos 60. Mick Jagger, nesta sexta-feira completa 70 anos! Ringo Starr, baterista dos Beatles já vai pros 72! E está firme, dizendo que os tambores são a sua “loucura”.  Assisti Paul McCartney em Porto Alegre, um guri aos 68 anos, tocando por três horas seguidas e levando o público às lágrimas de pura emoção. No Brasil, Caetano Veloso reclama das dores da idade, mas tornou-se um poeta menos preocupado com a fama e mais concentrado na musicalidade de seus versos do que as caras e bocas do passado. Gilberto Gil, Chico Buarque de Holanda, Paulinho da Viola, são mestres e ainda lotam teatros.  A arte, quando autêntica é elixir da juventude.

Retomo a pergunta: o que nos faz diferente dos velhos de antigamente? Fundamentalmente, fomos retirados da redoma de falsa proteção e adoração que nos mantinha enclausurados nos mais terríveis covis do tempo. Minha bisavó Rita, era cercada de cuidados. Não deixavam a pobre velha fazer nada por ser...  Velha. Como se a idade avançada a tornasse um bibelô trincado pelo tempo. É claro que ela morreu encurvada, paralisada pelo excesso de ajuda. Todo esse cuidado com os anciãos de outrora,  também cansava os mais jovens que lá fundo, às vezes nem tão fundo assim, consideravam  seus velhos um estorvo.

O século 20 passou rápido demais. Novas tecnologias, a vida urgente, compromissos, a indústria, o comércio a exigir mais e mais do corpo. Tudo virou negócio e, quem cansava mesmo aos 40, tornava-se dispensável. Hoje, no século 21, aos poucos, percebemos a diferença gritante. Velhos são os que não têm luz própria, que se focam em um único objetivo. Esses consomem toda sua energia no estalar de dedo que representa uma existência.  

Nós, veteranos modernos exigimos respeito. Mas nunca a reverência cínica dos que nos queriam mandar para um asilo. Hoje nós decidimos ir ao asilo como forma queremos seguir produzindo,  aposentados do trabalho, mas nunca da vida.  Não precisamos ser úteis, mas nunca inúteis trastes. Os velhos passam a ser fonte de consulta, de lições de vida. Mick Jagger, quando sobe o palco, mostra que a vitalidade está no espírito, que lhes ensinou a domar a rebeldia, mas nunca sufocá-la.  Cada show destes veteranos é uma aula de resistência, de amor a vida! E quem ama, eterniza-se. Por isso, iremos ao infinito e além!

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Meu lugar no Dia do Homem

Tem lugar no tal Dia do Homem para aqueles que brigam com a balança? Aqueles que já levaram tantos tombos que já carregam mais cicatrizes do que medalhas?

Tem lugar para aqueles sujeitos que engolem sapos, mas não desistem da nobreza mesmo em trajes de liquidação?

Tem lugar para aqueles que economizaram pra comprar um anel para a amada e a grana virou feijão com arroz quando a crise apertou?

Tem lugar para os que viraram uma foto desbotada no álbum de casamento, mas não abandonaram a família? Se existir essa brecha, a homenagem é justa. Mas homem que é homem de verdade, não liga para essas coisas.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Modo Shuffle

Por Roberto Quintana | Especial 

Así amó, sin pasión, ausente de su propio cuerpo. Como si fuese máquina, bien dijo Chico Buarque. Se volvió de lado y estiró la mano, pero detuvo el gesto apenas recordó que Lidia no le permitía fumar en la cama, para qué comenzar una pelea el último día.

Siguió tirado boca arriba. Pegado a Construção irrumpieron los Beatles, con Yer Blues. Antes Barrio De Tango por Goyeneche y antes de eso Sting y Ella Fitzgerald, o al revés. Caprichos del iPod conectado en modo “shuffle” al equipo de sonido. Roberto nunca estuvo de acuerdo con esa forma anárquica de escuchar música, seguía prefiriendo el CD, lo tranquilizaba que las canciones se sucedieran en el orden correcto. Pero sabía que si lo dijera, Lidia lo acusaría de pensar como un viejo. Ambos habían conocido el disco analógico, sin embargo para ella, aún el digital ya era antiguo.

Lidia, la flaca Lidia, con la que habían bailado apretadísimos en una fiesta del colegio y de la que no había tenido noticias desde la graduación. Hasta que veinte años después, se reencontraron por casualidad en una conferencia y sin mediar palabra terminaron lo apenas insinuado en otra época. Roberto saliendo, muy a su pesar, de un matrimonio de más de quince años. Y Lidia, que ostentaba una larga lista de romances efímeros, pero estaba convencida de que esta vez, quería una relación sólida y duradera.

Mientras la miraba vestirse, las frases de Chico Buarque seguían sonando en su cabeza. Allí estaba, convertido en un paquete flácido después de tropezar en el cielo, igual que el obrero de la canción. Como en su adolescencia, cuando el lunes siguiente a la fiesta, vio a Lidia salir del colegio abrazada a Carlos, el de Sexto B, ese arrogante al que dos días atrás, entre risas, ambos habían apodado “El Príncipe Carlos”.

Por lo menos esta vez Lidia tuvo la decencia de comunicarle que se había enamorado de otro y que lo dejaba, pero que sería hermoso pasar esa última noche juntos. Roberto aceptó, al fin y al cabo eran gente civilizada. Ahora se daba cuenta de la torpeza cometida. Hubiera sido preferible una escena a los gritos, con reproches, portazos y lágrimas antes que ese último polvo melancólico.

Se asomó a la ventana y la vio cruzar la calle “con su paso tímido”, otra vez Chico Buarque, no había caso. Buscó el CD, lo colocó en la bandeja, apretó Play y encendió, ahora si, un cigarrillo. Terminó de escuchar el disco tirado en la cama. Todo sonaba en el orden correcto, sin sorpresas, en esa rutina que, antes de la llegada de Lidia, sentía como un bálsamo y que ahora podía disfrutar nuevamente. Pero ya no era lo mismo.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Velhice

Por Gilberto Jasper

“China cria lei que obriga filhos adultos a visitar os pais”. A manchete do rádio parecia irreal. Eram 6h da manhã, eu recém acordara, tudo parecia absurdo. Passei o dia com a manchete na cabeça até recorrer ao Google e ver que a notícia era verídica. A Lei do Direito dos Idosos entrou em vigor esta semana para tentar minimizar o crescente problema de isolamento dos velhos. Em 2010 aquele gigantesco país possuía mais de 178 milhões de pessoas com mais de 60 anos; A previsão é dobrar até 2030.

Trata-se de um alerta para o Brasil considerado um país jovem. Dados recentes, porém, revelam que o país possui 23 milhões de pessoas com mais de 65 anos, ou seja, aproximadamente 10% da população. Em 2020 o total de idosos brasileiros deve alcançar 30 milhões de pessoas.

Além dos notórios problemas de assistência à saúde de um país continental, nossos idosos deparam com o abandono de filhos e familiares. Todos conhecem casos de famílias onde pais e avós sobrevivem graças a amigos ou vizinhos. Os episódios se agravam quando envolvem doenças crônicas.

Autoridades chinesas reconhecem os obstáculos para a aplicação da Lei do Direito dos Idosos, mas dizem que um dos objetivos é mandar uma mensagem educacional. Ao contrário do Japão, onde os mais velhos são figuras proeminentes na hierarquia familiar, é difícil encontrar países onde a atenção ao idoso é prioridade. Mais do que a preocupação física com os idosos, o abandono afetivo machuca profundamente aqueles que legaram valores, tradições e a nossa própria vida.

Parece longínquo imaginar-se com 60, 70 anos quando somos jovens ou “adultos novos”. Os avanços da Medicina, somados à massificação de hábitos de saúde prolongam sistematicamente a expectativa de vida. A expectativa de vida no Brasil é de 68,6 anos, ou seja, 2,5 anos a mais que no começo da década de 90. É um avanço significativo, cujas consequências – lamentavelmente – significam o aumento do contingente de idosos desprovidos de atenção, carinho, cuidados e respeito humano.

Na media em que envelhecemos desperta a curiosidade sobre os antepassados e no resgate da árvore genealógica que nos trouxe até aqui. O crescimento dos filhos, o flerte com a aposentadoria, o cerco das doenças e as dificuldades em acompanhar a velocidade do mundo desorienta.

Sentir-se vítima do “descarte humano” certamente é um sentimento insuportável se somado ao abandono de nossos filhos e netos.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Medievais nós somos

Um dos relatos mais dolorosamente tristes que ouvi nesta semana, foi o do casal de bolivianos que assistiu o assassinato do próprio filho porque, assustado, o menino irritara com seu choro, os ladrões que saqueavam o pouco que tinham. Os bandidos queriam mais! A criança algum segundo antes, ingenuamente, lhes oferece as moedas que guardava no bolso. Mesmo assim, não foi poupada de um tiro fatal na cabeça. Decididamente, queriam mais.

Não precisamos filmes de horror. O cotidiano é criminoso, uma verdadeira aula em 3D do pior que a mente humana pode gerar. Estes estrangeiros tentavam escapar da miséria em um sonho brasileiro. Mesmo trabalhando de forma irregular para a indústria de confecções (roupas que compramos muitas vezes em elegantes shoppings), tinham encaminhados a legalização. Enquanto isso não chegava se mantinham expostos à violência. E esta os devorou.

Mais do que reclamar contra a FIFA, contra a falta de passe livre no transporte coletivo, temos de clamar, com toda a força de nosso peito cidadão, por educação para nosso povo. Educar gente é dar instrução suficiente para um mínimo de vida digna. Nas escolas, nos lares, as pessoas que recebem um mínimo de cultura, aprenderam a conversar, a discernir o mínimo sobre o que é certo ou errado.

Vivemos tempos medievais em plena era da nanotecnologia. Temos redes sociais ágeis, mas que atingem um número pequeno de pessoas. Esses poucos botam a boca no trombone contra os desmandos, os descasos de uma sociedade inculta, doente e viciada no desvio das normais que são boas, mas que poucos conhecem ou a sabem interpretar.

Ainda hoje, em Porto Alegre, dezenas de pequenos comerciantes protegem as vitrines de seus estabelecimentos com madeira compensada que, desculpem o trocadilho, os preteje contra manifestantes descompensados. Essas diferenças, esses medos, acabam sempre na questão da educação. O ensino sucateado, a família desestruturada, formada no susto, por gente que não estava preparada para gerir seu próprio destino, imagine o que farão com os filhos que colocarão no mundo.

Vamos bradar por escolas como aquelas onde se aprende a amar a vida. Além do A-B-C se encaminhe valores básicos, sem cismas, sem preconceitos, mas centrada no respeito humano. Dessa maneira todos nós seremos realmente semelhantes e os que se assemelham, saberão conter àqueles que por má índole, insistem na egoísta e autoritária prática do mal. Desculpem se escrevi uma bobagem delirante, mas nunca estive tão pé-no-chão, como agora.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Depois do Dia dos Namorados


Ele e ela são amigos. Vale um namoro?
Nós nunca trocamos versos, nem mesmo olhares furtivos. Tudo muito simples, tudo na base da parceria amiga. Não passeamos de mãos dadas feito bobos, nem rimos sem que ninguém entendesse a graça. Porque a graça é secreta. Transparente feito bola de sabão, mas somente os amantes a interpretam. Como não somos amantes, não há fantasia. Nunca saímos a comer pipoca no cinema. Nem roubei beijos - cobrindo a visão de quem senta bem atrás - bem na hora em que o crime se elucidaria na tela colorida. Não fomos esse tipo de gente chata, de paixão exibicionista.

E os restaurantes? Comida italiana, bacalhau à portuguesa, pratos refinados franceses ou a exótica e sensual comida tailandesa? Passaram batidos, por nós. Muito menos o cachorro-quente do Bigode, na galeria do Rosário, ou qualquer cheesburger mata-fome de quando bate a larica por coisas gordurosas e fritas, acompanhadas, é lógico, de um refri litro normal (que não é caloria zero).

Eu lembro que chegamos a comentar essa coisa de Dia dos Namorados junho aqui, fevereiro no resto do mundo. Invenção de publicitários. Oportunismo cínico. Afinal, qual santo seria o mais casamenteiro? São Valentim ou Santo Antônio? Não entramos nessa disputa. Os santos não nos oferecem dicas ou inspiração, tipo “vai lá é essa aí!” Seria falata de fé e oração?

Eu não te comprei presentes, nem uma flor sequer! Nem me destes aquela gravata bacana que, juntos, vimos em uma vitrine de shopping. Não éramos namorados. Bons amigos apenas sugerem coisas que te deixariam bem vestido. Despir então? Jamais! Sai pra lá, que tu é minha amiga, eu teu conselheiro. Assim, nunca provamos abraços daquele jeito que tonteia e deixa os sentidos em níveis de intolerável excitação e que nos tiram – em segundos – a razão.

Sempre dois animais racionais! Tu me relatavas se o namorado da vez era ousado, ou careta demais. Ou se esquecia datas importantes e ainda deixava as cuecas emboladas no banheiro. Até teu pai reparara, certa vez. Que mico! Eu falava das mania de mulheres solteiras ou descasadas com quem saía. Detalhes tão pequenos que, ao contrário da canção do Roberto Carlos, logo eram esquecidos.

Nunca fomos a Bahia, pagando tudo em 12 vezes no cartão. Não fizemos planos de subir a Torre Eiffel e lá, jurarmos amor eterno. Éramos parceiros de seminários, congressos. Dezenas de reuniões intermináveis, que formavam comissões, definiam grupos e perdiam o propósito meses depois.

Parceria mesmo era na hora da dor de corno. Tantas traições sofridas e confidenciadas? Muito menos do que as bolachas de chope que o garçom contabilizava a cada crise, é claro. Mas aliviávamos o sofrimento, montávamos planos fantásticos de vingança que, invariavelmente, evaporavam junto a ressaca no dia seguinte.

Quem ama não é rancoroso. Sofre calado. E amávamos demais! Tanto que selecionávamos muito. Selecionávamos ao extremo. Nem eram questões físicas, mas o caráter, a capacidade de doação. E essa coisa de seleção, no amor, é prima-irmã da solidão quando se exagera nas medidas definidas de nossos manequins amorosos.

A maioria de nossas paixões evaporava em pouco tempo em meio a névoa das mesmas desculpas vazias de quem nos abandonava. Aquela coisa tipo prêmio de consolação. Eu sou uma pessoa incrível, mas ainda não estavam prontos, blá, blá, blá!. Como alguém pode não estar pronto para alguém ou algo que jura ser muito bom. Então é ruim ser bom? Ah! Contradições. Deveria existir um Manual Criativo do Pé na Bunda!

É claro, voltávamos às confissões regadas a chope. Sem choro, porque o tempo nos levara ao habito do adeus. Era tanto pedido, de “vamos dar um tempo”, que os romances mais pareciam uma queda no vácuo. O certo é que estamos aqui outra vez. Eu e tu, minha amiga. Sabemos tanto um do outro, que até parece lógica a proposta que me apresentas hoje, de ficarmos juntos como namorados, só para avaliar se é possível uma tentativa de algo além desta bela amizade.

Até porque já estamos engordando – somo quase alcoolistas - de tanto chope com fritas. Eu topo a experiência. Se der certo, se somos tão bacanas quanto dizem nossos ex-amantas, vamos adiante. Ao surgir qualquer problema, retomamos a antiga condição de confidentes e voltamos ao boteco - não para discutir a relação - mas para reafirmarmos a condição de amigos acima de tudo.   Conhecemos cada detalhe, cada arapuca que montamos contra nós mesmos.

Até parece tese de  auto-ajuda: uma boa relação precisa de amor e amizade. Era o que diziam maridos e esposas naqueles casamentos à moda antiga e a gente achava conformismo. Seremos salvos pelo óbvio?  De qualquer maneira gostei de uma frase dela: “Vamos servir de cobaia às nossas próprias carências. Se saciarmos a fome de estima, já está bom”. Nada científico, mas muito sexy. O que já é um bom começo.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sem medo do bicho papão




A banalização do crime afeta a juventude 
O assassinato de um funcionário da Escola Sion, na zona central de São Paulo, mesmo após ele ajoelhar-se, a pedir misericórdia, dentistas queimados vivos, por que não tinham muito a oferecer aos ladrões, ou simplesmente, por reagirem defensivamente. Crimes passionais, onde maridos doentes assassinam esposas diante dos próprios filhos. Tudo isso passará assim impunemente, ou nos habituaremos ao medo? Trabalhar, estudar, brincar, qualquer atividade é sinônimo de risco. E não nos abalamos mais?

Entre bandidos, surge uma nova geração de meninos e meninos maus. Entre os que não entraram no mundo marginal, percebemos meninos e meninas indiferentes, ou no mínimo, conformados. A Folha de São Paulo, publicou segunda-feira (3/6), a redação de uma adolescente de 12 anos, reveladora da banalização do crime que faz surgir uma geração sem o frio na barriga provocado pelo medo. “Quando estava na escola, o vigia mandou a gente se apressar (..), Eu não tinha entendido muito bem, então voltei para casa a pé,” escreve a menina que mora defronte a Escola Sion.

No meio do caminho, Bianca diz que ouviu falarem sobre um homem que morreu com tiro na cabeça. Outro “senhor foi seguido por um motoqueiro e morreu. (...) Mesmo com essa idade, já passei por três tiroteios. Um quando era pequena, no Rio de Janeiro. Outro no centro de São Paulo e o terceiro quando estava voltando do show do Roger Waters, no estádio do Morumbi,” anota em seu diário.

Ela diz não ter “muito medo de assaltos ou essas coisas, porque minha mãe só foi assaltada duas vezes e agora está bem.” Afinal foram “só” duas vezes! “E eu também acho que não vai ter dois assaltos no mesmo dia no meu bairro. Portanto, hoje andei com meu iPhone na mão, desobedecendo minha mãe.Algumas amigas minhas morrem de medo de assaltos e até já foram assaltadas, outras só têm medo de mendigos. Eu não tenho, pois a maioria é boazinha”.

Quando as crianças não tem mais medo do bicho papão, é porque a violência abraçou a fantasia e congelou  a consciência. Não podemos permitir um futuro assim, do cada um por si. Onde assistir um assassinato covarde, passa a ser lugar comum.

Enquanto não nos atingir, tudo bem. Tudo bem? Enquanto as pessoas escaparem, por um triz, a banalização pode ser norma cotidiana. É uma questão de sorte, até o dia em que a rotina aleatória nos  encontra e aí, na condição de vítima, será possível manter a frieza? De repente estamos tão próximos ao desapego à vida, que nem mesmo instintivamente reagiremos? Medo! Eu tenho muito medo deste momento!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O adeus e os versos de um bardo português


O que é melhor, o original, ou um remake?


Pilhas de livros na mesa. Um antigo player de CD e um poema inacabado, palavras perdidas em rimas toscas: “eu te amei até a última folha de outono, depois tudo virou inverno e sono...”. A taça de vinho, manchada, a taboa de queijos ressequidos, insistiam em pedir limpeza. Ela observava tudo com uma atenção que nunca precisara, ou pelo menos que achasse necessária. Apertou a tecla de áudio e, das pequenas caixas acústicas saiu a canção com o sotaque dos Açores. “É destino de quem ama, ser ator num melodrama, num romance de cordel. Eu passo horas a fio, a ensaiar um assobio e tu nunca me sorris,” canta Zeca Medeiros, transpirando uma melancolia feliz (é possível tal sentir?), que, pela primeira vez a comovia.

Tanto tempo juntos e não se preocupara em investigar o universo dele. Tão culto em música e obras de ficção e, talvez por isso, homem de perfil apaixonado, embora o jeito bem-humorado de conduzir a relação à dois. Ela sentia uma ponta de desconforto, ao sentir-se fora daquele universo de canções estranhas às rádios e de filmes produzidos e interpretados por atores desconhecidos. Decididamente não a seduziam. O que havia de errado com as celebridades de verdade? Mas ele sempre tão reticente. Por exemplo,  guardava reservas imensas em relação a refilmagens, ou regravações de antigos sucessos. Ela adorava roteiros antigos, transformados em novos filmes.

Reclamava sentir-se igual a um objeto de antiquário. Ele sorria e, a imitar um afetado colecionar de obras de arte; exclamava: "És minha escultura única e exclusiva". O player inicia uma nova canção. Esta sempre a fizera rir: “O amor é um labirinto cativeiro de um desejo, hei-de cantar o que sinto de cada vez que te vejo, desaforo, atropelo, que o amor é uma ilusão, será sonho ou pesadelo traiçoeiro alçapão. Quando eu te vejo sei que sou palhaço pobre mas nunca palhaço rico. Quando eu te vejo sei que sou um proletário que de tudo eu abdico,” canta Zeca Medeiros, a puxar o divertido refrão: “É que eu gosto tanto de ti que até me prejudico”. Olhou em volta e desta vez, chorou.

Abraçou-se ao chapéu velho que só saía da cabeça de poucos cabelos para a velha poltrona de veludo. O aspirou lentamente, de olhos fechados, como a tentar materializar aqueles odores familiares no homem que não estava ali. Tinha poucos minutos, ainda. Ele lhe dera a manhã para recolher seus poucos pertences. Roupas, uma toalha e alguns livros. Uma cena que não pensara viver tão cedo. Cometera o desatino de confessar, que havia saído com um colega de trabalho. Ele tão jovial, tão oposto ao mundo mais reservado do namorado, conseguira seduzi-la justamente com os cheiros do novo: Iphone, comida japonesa e uma sessão de cinema 3D, encerrada em uma noite tridimensional, em um apartamento, igualmente, moderno. Mas passado o arrepio da sensualidade, arrependera-se.

Ele ouviu surpreso, a inesperada confissão. Até tentou um diálogo, mas a voz, embargada, apenas lhe autorizou a recitar, mais um verso do poeta e cantor açoriano, “o amor talvez seja escada rolante a subir ao paraíso, ou mergulho delirante nas marés do prejuízo”. Em seguida disse que dormiria em um hotel para ela juntar as coisas. Não, não queria discutir arrependimentos, ou fraquezas “que estas eu as entendo, quero apenas o direito a voltar a ser só”.

Ela permaneceu estática, como a rosa só de espinhos, que canta a canção, sem coragem de interrompê-lo. Mas não fez a mudança. Nos dias seguintes tentou argumentar, exigiu o perdão. Agiria impulsivamente, percebera que o amava igual ao personagem daquelas canções lusitanas. Mas ele repetia à exaustão que reconhecia ser um sujeito assim, monótono e antiquado. Talvez por isso, a preferisse como aquele poema sem fim. Ele que detestava refilmagens, não poderia concordar com um recomeço - mesmo sem a troca de personagens - pois o roteiro, embora corrigido, sempre estaria mais para drama do que para comédia romântica.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Cadê o leiteiro?


Se foram os leiteiros, ficou a adultureção
“Um leiteiro ganancioso enganava a freguesia
Misturava água no leite e para o povo vendia
Enriquecendo depressa dizia fazendo graça
Não há nada nesse mundo que o homem queira e não faça
E quando eu puxar do balde
Água do poço à vontade
Não falta leite na praça”

Sou do tempo em que o leite era vendido em garrafas de vidro, lacradas com fina tampa de alumínio. O risco de adulterações era imenso, mas na falta de alternativa mais segura, a saída era confiar no leiteiro (mas não deixá-lo puxar assunto com as mulheres da casa, afirmavam os inseguros). A indústria evoluiu, vieram as embalagens em saquinhos, depois os sistemas mais seguros à vácuo. Os leiteiros, acabaram perdidos no passado. Lembrados talvez em canções sertanejas de raiz, como Água do Leite (O leiteiro e o Macaco), da dupla Zé Fortuna e Pitangueira, cujo trecho citei acima. Hoje, pelo menos em tese, é tudo perfeitamente higienizado.

O Ministério Público Estadual acredita que talvez não seja bem assim. As empresas de transporte estavam comprando uréia em grande quantidade. Desconfiado, o MP partiu para a investigação e na quarta-feira passada, expediu cerca de 10 mandados de prisão e oito de busca e apreensão nas cidades de Ibirubá, Guaporé e Horizontina, contra cinco transportadoras de leite por suposta adulteração a base de uma “sopa”, conforme era chamada a mistura de água de poço não tratada e uréia, do leite que os produtores lhes confiavam.

Tudo isso para lucrar 10% além dos 7% já pagos sobre o leite cru. Que as autoridades agora castiguem com rigor esses empresários sem ética. Assim, só podemos esperar que os vigaristas que transformavam água em dinheiro, vejam o lucro criminoso voltar a forma líquida de sopa. E que esta lhes sirva de alimento no xilindró. Mais ou menos como cantava a dupla caipira que sabiamente constatava: “O homem é bicho tratante E vê no seu semelhante, o seu maior inimigo”.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Fábricas de sonhos bons

O que alimenta o sonho? E o que faz real?
Certa vez sonhei que eu e meus filhos brincávamos em uma cesta enorme, cheia de números de plástico. Ganhava quem mais identificasse os numerais. No trabalho, relatei a meus colegas e um deles, apaixonado por loterias me perguntou se eu lembrava alguns destes números. É claro que esquecera tudo. Mas inventei um milhar qualquer para alegrar esse colega. Lá foi ele fazer "uma fé" e insistiu para eu jogasse, o que não fiz. Havia escolhido números soltos, sem relação com o sonho. No dia seguinte, fiquei sabendo que os meus números lhe haviam garantido uma boa grana. Eu não entendi a mensagem do meu próprio sonho?


Então, aprendi que não bastam os sonhos, é saber interpretá-los. Óbvio não é mesmo? Existe dezenas de livros sobre o tema. E é claro, não comprei nenhum e segui assim, desperdiçando sonhos. Mas uma vizinha de minha mãe, me juro que, ela procurava ser a diretora de seus próprios sonhos. Se precisa de alguma luz na área de finanças doméstica, lê revistas, livros, fala com amigos sobre o tema.

Quando sonha com o que vem assimilando acordada, parte para a execução dos projetos. Ela garante que funciona. Os sonhos lhe dão o rumo que, mesmo a mesma fina orientação técnica, não assegura. Diz que na maioria das vezes, sonha com algum novo projeto – ela é arquiteta – ou cliente, propondo algo rentável e nada delirante. Tem sonhos práticos, ora vejam. Ela diz ser uma espécie de lei da atração de travesseiro.

Mas adverte que a coisa só não funcionava para conseguir namorado. Muitas vezes idealizava o cara, sonhava com ele em cenas românticas, às vezes, até mesmo bem quentes, mas tudo o que lhe aparecia nunca era bem aquilo que o mundo dos sonhos lhe apresentara. Lia publicações esportivas, tipo futebol e automobilismo. Fora assistir jogos em bares, onde a testosterona impregna o ambiente, mas inevitavelmente, errava o foco.

Ou o cara gostava tanto de futebol que esquecia que namorar é melhor longe dos estádios, ou era tão insosso que ele preferiria dormir. Sem sonhos! Não existe o homem dos sonhos, concluiu.

Por mais que procurasse aquele cara que, no mundo onírico lhe apresentava, poeta ou amante intenso, Na vida real, só apareciam sujeitos inseguros, às vezes carentes e sempre com uma história triste de uma ex.

A partir daí,para encerrar essa crônica, concluo que é bom ficar atento aos sonhos. Eles articulam os sentidos e estimulam a criatividade. É como o músico que sonha com uma canção e precisa gravá-la imediatamente para que não ser esquecida. Yesterday, uma das canções mais famosas dos Beatles, foi sonhada por Paul MacCartney. Imagina se ele deixasse para depois?
A diferença é que uma canção você estrutura como bem entender, sonhada ou não. Um número de loteria é pura intuição. Mas dividir o sonho com outro, exige sintonia fina. Essa é construída de pés no chão, onde os sonhos que alimentaram fantasias, precisam alimentar-se de realidade. 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma Porto Alegre bacana


Floricultura Winge: café e prosa
Alguns lugares de Porto Alegre, melhoraram bastante com o tempo, A Floricultura Winge, agora ganhou um espaço de cultura e lazer muito bacana, o Café e Prosa, tornando ainda mais agradável percorrer a imensa área localizada na rua Mário Tota, na zona Sul. Ali, bem próximo, o Machri, que é uma mistura de padaria, bazar, confeitaria e loja de decoração. Muito simpático e quase às margens do Guaíba, é um cartão postal eterno e acolhedor.

A cidade que celebra 241 anos neste ano, tem lá seus altos e baixos. Mas ainda é um lugar bom de se viver. Eu, nascido e criado no bairro Menino Deus, conheci os últimos anos da avenida Getúlio Vargas elegante. Casarões de arquitetura clássica, alguns utilizados até como cenários de filmes. A sede da Livraria do Globo, imenso prédio já demolido, onde meu avô trabalhava nas oficinas gráficas. Lembro dele  sempre na estica. Volta e meia, "herdava" trajes do patrão, o  “seu” Bertaso. Cortes dos melhores alfaites, camisas e gravatas importadas. Empregado e patrão sempre na linha.

As paineiras imperiais, ainda não estavam na altura de hoje, mas sem grandes edifícios, pareciam mais vistosas do que hoje. Nos domingos, a missa das 10h, onde o padre fazia a liturgia em latim, é claro, e  a gente fingia rezar para olhar as gurias. Meninas de um lado, meninos noutro. Ao final, antes de voltar para casa, sempre dava uma volta no armarinho do seu Dedé, na José de Alencar. Brinquedos, bolas de gude, botões para futebol de mesa e todo tipo de quinquilharia que uma criança pode desejar. Assisti triste a demolição da linda igrejinha, construída em 1908, para abrigar um conjunto residencial modernoso.

Era o início de uma nova era e o irreversível final das tarde de matiné, ou de espetáculos, no Cine Marrocos. Foi lá que assisti o Moacyr Franco Show, ao lado de minha tia Jorgina. “Mas se um dia eu tiver que chorar, ninguém chora por mim”. Naqueles dias, ele era o cara. O Marrocos que teve a mais longa permanência de um filme de que tenho notícia: “A Noviça Rebelde” ficou mais de ano em cartaz! Nem as paredes agüentavam a Julie Andrews com seu “The Sound Of Music!

Sinto saudades da Churrascaria Itabira, onde muitas vezes, ao sair do Infante Dom Henrique, que ainda era um anexo da Escola Estadual Presidente Roosevelt, aquecia com uma canja fervente. E os bondes?  Depois o trólebus. Fantástico, ultra-silencioso. Sumiu rapidamente das ruas. Assim como o movimento das calçadas, dos boêmios que se mudaram para o Bonfim. A Getúlio Vargas virou uma rua cinza e poluída. Resistem lugares como o Carlitus, o Chipps. As prostitutas deram lugar aos travestis. Ou seja, a Getúlio de minha juventude quase virou um fake, um arremedo urbano, em nome de projetos de engenharia sem vida.

Gentalha, gentalha!

Kiko, o meu embaixador!
Mais uma vez perderemos para o pensamento plano? Aqueles que veem o novo como uma nuvem carregada de monstros? As mais obtusas criaturas se formam no interior de quem não estimula a imaginação, que se repete infinitamente em suas próprias limitações, que classificam como lógica. Os porto-alegrenses tiveram um bom exemplo desse pensamento linear a partir da polêmica criada pela proposição de se transformar o personagem Kiko, interpretado pelo mexicano Carlos Villagrán, da trupe do Chaves, em embaixador de Porto Alegre, para a divulgação da Copa 2014.


Aliás, a idéia do convite, partiu segundo li na imprensa local, de uma conversa informal entre a jornalista Márcia Costa Dienstmann, seu pai, o consultor da Secopa, Cláudio Dienstmann – aliás, ilustre cidadão do Vale do Taquari, nascido em Teutônia – e um dos produtores do show que Villagrán faria na Capital. A partir daí começou o berreiro digital nas redes sociais. Como assim, colocar um comediante, quase um palhaço como representante da Capital dos gaúchos? Ele não tem nada a ver com futebol, ora bolas! (desculpem o irresistível trocadilho cretino), bradavam. E uma sucessão desencontrada de versões, palpites, prós e contras tomaram conta da mídia.

Enquanto isso, talvez surpreso com a reação, o ator de 69 anos – que escolheu o Brasil para fazer o encerramento de sua carreira – advertia ao pessoal afobado da planície gaudéria, que dera aos filhos os nomes Edson e Paulo Cézar - em homenagem a Pelé e ao Caju, ex-Grêmio, campeões mundiais pela Seleção em 1970, no México. E que gosta muito de futebol, tanto que na terça-feira passada, foi a Santos visitar Neymar, fã assumido do Kiko. Tanto que se fantasiou do personagem em uma festa no começo do ano. “Não tenho palavras para descrever a felicidade que eu estou sentindo. Sou um fã como todo mundo, desde pequeno”, afirmou o jogador.

O seriado, embora antigo, produzido de forma rudimentar, é um clássico da televisão mundial. Lembro que o líder da banda Nirvana, Kurt Cobaim, dizia que assistir as aventuras de Chaves e sua turma, era uma das poucas alegrias que tivera na infância. As histórias singelas, com personagens simpáticos e muitas vezes, comoventes, ainda resistem ao tempo e repete-se, a cada novo, ano na programação das grandes emissoras internacionais. E Kiko não serve para o povo superior de minha terra. Eu queria saber o que os outros “embaixadores” da Copa já fizeram. São nomes ligados diretamente ao futebol. Mas aconselho a esperarem sentados pela resposta.

Talvez Villagrán decline do convite. Ele não está aí para, em final de carreira, ser parte de uma controversa rejeição. Voltará para seus fãs, que o tem como embaixador da boa vontade, do humor sem apelação, ingênuo, humano, feito em cenários toscos, mas enriquecidos pela fértil imaginação infantil. Kiko sempre me representará. Por enquanto, tenho coisas mais urgentes para rejeitar. Como obras de um metrô prometido para o mais breve possível, mas que anda em marcha lenta, ou contra a velha desculpa da inflação para, mais uma vez, inchar juros e segurar os preços lá em cima. Tomate neles!

Para encerrar e deixar bem claro, eu não estou a criticar os que são contra a escolha do personagem mexicano. Minha discordância é com o pensamento refratário imediatista, que não pensa nas possibilidades da iniciativa diferenciada, que foge ao lugar comum. Tratar o novo, aquilo que escapa do normal, como algo inadequado é uma forma comodista de se manter a criatividade no limbo do preconceito. O pensamento plano tem seu mundinho limitado ao óbvio. Aos habitantes deste espaço opaco, se encaixa perfeitamente o bordão do Kiko: Gentalha, gentalha!

terça-feira, 2 de abril de 2013

April Fool's



Catherine Deneuve e Jack Lemmon: April Fool's (1969)
  "...Prá quê, que você foi se entregar
Se na verdade eu só queria Uma aventura
Porque você não pára de sonhar
É um desejo e nada mais...” (Prêntice, Ed Wilson, Paulo Sérgio Valle) canta, José Augusto

É sempre assim, O começo é divertido, cheio de provocações. Depois percebem que a atração vai além dos gracejos bem humorados, desejam o toque macio. Epidérmico. De repente, tudo em volta que andava meio opaco, ganha luz, vida e aromas especiais. O sentimento bruto, que nasce de uma súbita disposição para a aventura, ocupa todos os espaços. Esquecem que são casados, noivos ou namorados há uma longa data.

A rotina passa a ganhar um sentido e o desejo, irrefreável, avança. Tanta fantasia, tanta lua cheia, tanta vontade de celebrar. Acordos se firmam secretamente, são uivos contidos entre ligações secretas, mensagens cifradas em redes sociais e encontros rápidos, tensos. Excitantes. Assinam documentos em branco, como se o prazer não cobrasse seu preço em entrelinhas nunca percebidas diante da nudez aos olhos..

Ambos têm sede e fome, vivem no deserto do tédio comum aos adultos bem sucedidos. Não pense que os ditos infelizes, casais maltratados pela vida sofrida, miserável em todos os sentidos são as maiores vítimas das tentações. Esses quando podem, libertam-se. Gente organizada, que mantém as contas em dia, toma remédio na hora certa, cuida da balança e faz dieta, frequenta academia é a que mais cansa desta coisa certinha. A satisfação vai além do previsível. Não é um contrato, um negócio. Na verdade, tem requisitos de fundamento inexato.

Quem nunca ficou compadecido da esposa dedicada que chega a casa extenuada e ainda prepara um assado especial? Quem sabe não estará ela cansada desta vida certinha? Do homem que nunca esquece uma data especial, que planeja viagens românticas a dois, festas legais entre amigos, mas ao mesmo tempo, é  absolutamente previsível. E ficam ambos iguais a copeiros que tem a obrigação de polir os cristais que nunca serão seus, mas que se quebrados, pagarão caro por cacos. Quem vai  querer em casa, os restos do que antes era um lindo enfeite?

Assim, ao surgir a possibilidade de uma fuga espontânea, que ventile a imaginação e os sentidos, abusam de tudo, lambuzam-se e nem percebem que o acordo firmado anteriormente - viver exclusivamente uma aventura - foi rasgado na refrega que os empurrava de encontro a cristaleira.

O prazer - para um dos amantes - sempre acaba antes e aquela sintonia inicial,  vira uma espécie de coceira alérgica, pois a outra parte já fantasiava a possibilidade de uma  comunhão de corpo e alma. Assim, embora a esposa  chegue na hora certa e nunca se permita queimar o assado, aumenta o risco de uma lágrima furtiva salgar a janta. O outro – ele ou ela – já estará na segurança do lar, planejando as férias de inverno, enquanto serve, ou é servido, de mais uma fatia daquele mesmo assado.

Quem sabe, voltem a buscar uma nova aventura, “desta vez sem envolvimento afetivo, mesmo!” O outuno e frio passarão, a primavera com seus perfumes e cores, apagará as lembranças tristes e o verão, sempre permissivo, incentivará a paixão. Afinal, tudo não se resumiria mesmo a um desejo e nada mais, como previa a canção? Ah!... Os bobos de abril.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Voem, crianças, voem!

Gosto dos filhos contestadores, que ousam transformar sonhos em realidade. Que escutam os pais, mas não aceitam tudo assim, como presos ao rebanho guiado por cães ovelheiros. Eu os vejo na minha e em outras tantas famílias onde pais e mães bonzinhos, ranzinzas, indiferentes ou extremamente dominadores se colocam como exemplo. Às vezes ajudam, às vezes atrapalham, mas são gente de carne e osso e tem todo o direito de tentar acertar.

Admiro os filhos que rompem preconceitos, que lutam por suas causas, sempre justas, mas não o fazem de olhos fechados, seguindo a tribo. Investigam criteriosamente os gurus momentâneos que as redes sociais disponibilizam a cada instante ou mesmo, os mesmo os pensadores que lhes apresentam nos bancos escolares. E tomam seus próprios rumos, assumem a sua vida e escolhas.

Domingo passado, meu filho mais velho partiu para realizar um sonho no estrangeiro. Participei desta opção como pude. Ele, muito reservado tomou conta do projeto a sua maneira e coube a nós, pais, avós, familiares e amigos, acompanhar e torcer pela trilha que decidiu tomar. Tenho uma filha nutricionista que também segue um caminho diferente ao título de bacharelando que conquistou com muito sacrifício.

Mas ela é quem deve saber o que é bom para seu futuro e felicidade. Meu outro filho, o caçula, é das letras, escreve poesias, tem alma de artista e uma vasta cultura. Não será, talvez, o advogado que sonhei, mas o caminho que o conduzir deverá ter a estrela do sucesso, porque o faz com amor, igual a seus irmãos mais velhos.

Escrevo tudo isso, não para fazer publicidade doméstica – detesto falar de minha família em crônicas – mas para colocar outra história, triste, infelizmente, que ouvi. Um velho conhecido meu, ao saber que seu filho iria casar-se e, junto da esposa, mudar-se para os Estados Unidos, brigou com o guri. Disse que os estavam abandonando, que o estrangeiro é longe demais! Foram grosseiros e irascíveis.

Vejam: o jovem casal não embarcou em uma aventura (e teriam todo o direito de viver uma experiência deste tipo). Ambos estavam contratados a convite de uma grande empresa! O pensamento mesquinho, o amor malvado destes pais e mães me irritou profundamente.

Lá se foram eles, convictos de que faziam o melhor para suas vidas – mas com um fio de culpa – porque seus velhos, que deveriam ser o suporte, o almoço domingueiro para uma volta nas férias ou aquela saudade gostosa, entregaram o pior de si.

Espero que o tempo os faça perceber o erro cometido. Que a luz, a essência de suas vidas não se resuma a uma vela derretida em um candeeiro, onde o pavio queimou-se no fogo da ignorância.

Eu olho para trás, e vejo que a maior herança deixada por meus pais, foi o livre arbítrio. E também seus acertos e erros, transformados em exemplo. Mas a trilha, esta fui quem determinou.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Sem aliança


Por Gilberto Jasper
Depois de 25 anos estou sem aliança na mão esquerda. É uma sensação estranha, nova, diferente. São mais de duas décadas de uso – em novembro tinha completado 25 anos de casamento – além de quase dois anos em que o anel de compromisso foi usado na mão direita, sinalizando nosso noivado. Sim, é coisa de quem é “da velha guarda”.

Como manda o figurino da época cumpri todas as etapas exigidas pelas “famílias de bem” até então. Inicialmente flertei no portão, aliás, no meu caso foi na praia para depois pedir licença aos pais da felizarda para namorar. Passado algum tempo pedi a mão da moça em noivado para finalmente oficializar o pedido de casamento com o enxoval praticamente completo. Incluindo o apartamento.

Confesso que sinto falta da joia de ouro 18 quilates que ostentei por tantos anos, apesar de uma inusitada sensação de liberdade. Costumava batucar ao bater o dedo anular em superfícies sólidas cujo ruído ecoava. Dava até para marcar a cadência de um samba. Isso já se transformou num cacoete, uma mania. No carro, no elevador, em casa, na mesa de trabalho, no teclado do computador. Tudo servia para “tirar um som”, o que deixou de acontecer há cerca de um mês.

Mesmo que eu quisesse seria impossível disfarçar o fato de ter usado aliança por muito tempo. Uma vistosa marca branca, exatamente no formato da aliança, contrasta com a pele mais escura das minhas mãos. Resultado de 10 dias de sol intenso das férias tiradas em janeiro numa praia catarinense.

Aliança, gravata e óculos emprestam um ar de seriedade impressionante

Pouca gente se deu conta da novidade. Apenas uma colega de trabalho segurou minha mão, passou o dedo para se certificar do que via, mas parecia não acreditar. Estupefata e de olhos arregalados me fulminou:
- Giba, o que aconteceu?  Disse que mais tarde falaríamos sobre o assunto, já que eu estava muito ocupado com o trabalho.É impressionante o fenômeno que uso de certos símbolos em nosso cotidiano provoca.

Anéis, gravata, óculos, paletó, por exemplo, são adereços que emprestam ar de seriedade, gravidade, notoriedade às pessoas. Jamais esquecerei de quando comecei a usar terno. Nas lojas ficava constrangido porque os vendedores abandonavam outros clientes para me atender.Agora já não ostento mais o símbolo de “homem sério”. Somente no dia 3 de março irei à joalheria para buscar minha aliança que será polida para voltar a brilhar em minha mão esquerd

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Minha laje, minha vida


Nas comunidades, toda laje pode virar um novo lar

Enquanto ouvia a homenagem às 239 vítimas da boate Kiss, li a postagem, no Facebook, do meu amigo, ex-editor, Amauri Mello, lá do Rio de Janeiro, a sugerir uma pauta preventiva à imprensa sobre as casas nas favelas-comunidades que, segundo ele, crescem cada vez mais graças aos preços módicos do material de construção e, segundo ele, “acabam virando um belo negócio”: O cidadão constrói sua casinha. Em seguida, vende seu “espaço aéreo”, ou seja, o ar sobre a laje. O novo dono conclui a obra e também autoriza outra casinha a um terceiro que, de repente, oferece a outro. “Tem na Rocinha, na Maré, no Vidigal”, garante Amauri, em postagem no Facebook.

Sem projeto arquitetônico, licença ou alvará, esse tipo de edificação acontece assim, na moita, irregular, embora a luz do dia, talvez com vista para o mar. E se um dia a casa, ou melhor, o poleiro habitacional cair? Alguns morrerão, liberando o espaço aéreo para imagens candentes de indignação em horário nobre. A paisagem recupera seu vazio assim como vazio é o debate que se divide entre o jogo de empurra entre políticos e órgãos fiscalizadores que se acomodam entre a incompetência e a omissão.

Lágrimas e aquela dor que só pune os incautos, promessas de “nunca mais”, em seguida dão lugar a constatação de que em outro lugar, ou quem sabe, próximo dali, outra aberração estrutural e arquitetônica ganha forma no céu aberto. É só acalmar a onda fiscalizatória que saciar a mídia, permitir que as agências criem novas e impactantes campanhas públicas que tudo volta ao princípio indissolúvel da impunidade. Fiscalizar, rotineiramente, com a lei debaixo do braço, dá muito trabalho. Rouba votos e tampouco gera boas imagens. Talvez por isso, nem pauta seja!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O melhor sabor da amizade

Os chefs Ari e Léa, no capricho
Salmão assado no forno, arroz com alho poró, uma salada ultra colorida e a maravilhosa companhia da homenageada Caren Mello (autora do registro), da Magali Beckmann, da Carol e da Léa Aragon, que nos emprestou a cozinha e ainda mostrou que não se aperta no fogão.

Como escreveu Caren,"A amizade pode aumentar em até 50% a taxa de sobrevivência de um indivíduo diante de adversidades à saúde física e mental, de acordo com uma pesquisa norte-americana." Bem temperada, a convivência é um ótimo alimento para o espírito.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Seja careta, em nome das vítimas da Boate Kiss


Quer prestar uma homenagem às vítimas da boate Kiss, de Santa Maria? Vá para o feriadão de Carnaval com um manual de bom-senso ao lado. Cumpra as mínimas regras de civilidade em todos os locais públicos possíveis. Nem vou comentar que, se você for proprietário de uma casa de espetáculo, a mídia está lá fora doida para fazer o maior carnaval – afinal é tempo de folia – contra tragédias evitáveis. Alguém aí vai criticar? Dizer que é exagero? Ou será que o certo é dar um jeitinho, acomodar de alguma maneira a irregularidade e torcer para que nada aconteça de pior?

Segurança não é despesa, é investimento. Em todos os níveis possíveis. Agir com prudência no trânsito, respeitar as pessoas, não furar nem aquela fila que circula aos gritos de “a-la-la-ô” pelo salão do Clube é fundamental. Tudo de alguma maneira se enlaça na hora da crise. Um amigo voltou do litoral catarinense impressionado com a quantidade de droga que se consome livremente em todos os lugares. É gente boa, guris com formação universitária, chefes de família que pensam apenas em “relaxar” e depois voltar para casa de cabeça feita. Não estou aqui para bancar o moralista. Cada um sabe de sua vida, mas eu pergunto: foi liberado o uso de drogas e eu não fui avisado?

Enquanto isso, os “empresários” do crime organizado, desafiam as autoridades, incendeiam dezenas de veículos de transporte coletivo, em Florianópolis, indiferentes à população acuada. São facções rivais, outras unidas querendo mais “conforto” nos presídios, de onde monitoram os seus muitos negócios, entre eles a venda de drogas, sempre muito lucrativa na alta temporada. Como dormir em paz sabendo a origem dos fornecedores de seu pequeno e fugas prazer? Sabe-se lá quantos morreram para se conseguir aquele produto? Exagero? Pura realidade. O conceito de ilícito não surge assim, de uma nuvem de ranço ou autoritarismo. E as leis, as centenas de milhares de regras, procuram tornar a vida mais organizada.

Mas somos educados para isso? Ou aprendemos no dia a dia, a lição do descaminho, a alternativa de “molhar a mão’ de quem fiscaliza para se driblar a regra? Se ela é eficiente, ou te prejudica, reclame na instância certa. Poucos minutos antes de iniciar esse texto, assisti a uma cena muito esclarecedora. Um motoqueiro passou em alta velocidade entre os carros engarrafados na Avenida Castelo Branco (Porto Alegre). Alguns metros adiante ele bate com o braço em um espelho retrovisor e quase dá um rasante no chão. “Tu não sabe dirigir”? grita ao atônito motorista, como se este tivesse alguma responsabilidade com o acidente.

Por isso, repito: a melhor homenagem aos jovens sacrificados pela irresponsabilidade de terceiros, não é deixar de pular o carnaval, mas ir à festa decidido a não colocar em risco a própria vida e, principalmente a de terceiros. Não é careta, não é chato: na verdade é assim que enchemos nossos olhos de imagens bonitas, felizes. Aquelas que levaremos para a velhice, como exemplo do verdadeiro bem viver.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Os mortos de nossa irresponsabilidade


A morte um dia nos levará, eu sei. Não é contra esta rota natural que me rebelo. Aprendo a administrar as dores da idade, a transformar as rugas em alertas sobre algo muito mais importante e que preciso aprender a cultivar debaixo da frágil pele, a aproveitar os gestos mais lentos que a natureza te impõe para meditar sobre a direção que nossas mãos deverão tomar. Antes do soco, o afago, sempre! Na hora de assinar qualquer termo, conferir se meu nome e sobrenome não irão validar uma carta aberta a delitos de qualquer natureza. Por favor, não sejamos mesquinhos!

Após toda desgraça saímos a correr contra os culpados, que naturalmente tentam escapulir. Ah! A tal responsabilidade passar a queimar a consciência de quem tem. E nós que votamos, temos documentação em dia, nós que recebemos algum tipo de educação, dificilmente lembramos-nos do instante obscuro em que talvez, tenhamos tentado driblar alguma norma. “Não vai dar em nada”, pensamos. E quando o caldo fervente se volta contra nós, repassamos a responsabilidade que é só nossa. No início do mês, um querido amigo, o Eudorico Morejano, faleceu enquanto se recuperava de uma cirurgia, vítima de uma dessas bactérias comuns a hospitais. Quem é o responsável pela frágil esterilização no milionário ambiente hospitalar que, por lidar com moléstias de toda a natureza, contamina-se com muita frequência?

Não podemos proibir nossos filhos de frequentarem festas. Não podemos evitar um tratamento médico. Adquirir um automóvel, por exemplo, é uma possibilidade de conforto e bem estar para toda a família. Mas aí, tem quem compre a habilitação, e saia cego de experiência e amor próprio, a dirigir pelas estradas, sem respeitar as leis de trânsito que ignora. Quantas vezes não fomos a eventos festivos e constatamos “se isto aqui pegar fogo, morremos todos”. A insegurança é tão visível que assusta a nós, leigos, como então, passou por uma fiscalização? Triste cegueira ética.

Por enquanto, rezemos pelas vítimas de tantas fatalidades. Não voltarão a vida. Mas nós podemos evitar novos acidentes fiscalizando, cobrando das autoridades públicas e observando nosso próprio comportamento nos pequenos detalhes do cotidiano. Tão minúsculos às vezes, quase imperceptíveis no cotidiano, mas fundamentais ao definir o caráter de um povo. Esquecemos em nossa pequenez que não somos apenas uma peça, somos A Peça!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Cuidado com a obra do cão

Talvez cansado das muitas obras caninas que borravam em cores pesadas e odores fétidas a sua calçada, o Sr. Cidadão, com uma boa dose de humor, resolveu fixar pregos em uma frondosa árvore para incentivar os proprietários e recolherem e, quem sabe, penduram os saquinhos plásticos com a produção de seus bichos de estimação. Ficou esquisito, mesmo assim, ver é melhor do que pisotear.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sustos do cotidiano e uma triste rotina


A página virada que representa o ano que passou ainda oscila com forte tendência para as notícias ruins. É tempo de férias, com sol e festa, tudo em um ritmo mais lento. Mas a violência permanece viva. A vocação criminosa, não cansa, é muito bem recompensada em um país de frouxos (conforme as moças do BBB 13). Mesmo assim, a maioria cultiva  planos, desenha um futuro. Esquiva-se das tentações criminosas e tenta manter sua rotina entre as obrigações e o lazer e quem sabe, se surgir a oportunidade, viver uma história de amor. É assim que a vida deve funcionar. Foi assim como Dona Ana. Mulher madura, divorciada e com dois filhos adultos, avaliava que já estava mais do que na hora de namorar. Nada de casamento! Algo mais leve, para rebater a solidão e a carência afetiva que volta e meia aparecia. Quantos não pensam nisso?

Em outubro passado, em uma visita a Feira do Livro de Porto Alegre, conheceu Alceu, um pelotense simpático e fã de Machado de Assis. Tinham histórias semelhantes, ambos descasados e ocupados demais com a família. Acabaram esquecendo-se de seus próprios projetos. Filhos com vida própria e eles a enfrentar uma desagradável sensação de vazio. Não haviam se preparado para a maturidade, ou melhor, não haviam pensado que além de cuidados médicos, é saudável cultivar um bom grupo de amigos e, se possível, alguém para dividir afeto. Assim,  se tornaram parceiros, primeiro longas conversas em cafeterias, idas a livrarias, cinemas. Estavam felizes, em sintonia.

Pouco antes do Natal, combinaram um jantar para troca de presentes. Depois disso, cada um iria dedicar-se aos filhos e netos nas festas de final de ano. Julgaram ser muito cedo para uma aproximação entre as famílias, embora todos já percebessem que a amizade fazia muito bem para os dois. Às 21h15 ela estava no restaurante. Quinze minutos depois tentou contato. Alceu não atendeu o celular. Uma hora depois, angustiada, voltou para casa. Deu-se conta de que não sabia onde ele morava. Falavam-se apenas por telefone e não participavam das redes sociais na internet. Como ele era muito pontual, temeu pelo pior.

Passou a noite em claro e, na primeira hora da manhã, recebeu uma ligação. Era um dos filhos do Alceu, a pedir desculpas por apresentar-se daquela maneira, mas o pai havia sofrido um assalto. A violência extrema dos bandidos o havia deixado desacordado por muito tempo, explicou. Ela comoveu-se ao saber que as primeiras palavras dele foram “Perdi o jantar! Alguém avise a Ana, por favor!” Aquilo lhe parecia um destes tantos filmes românticos que assistira que decidiu-se por um roteiro com final feliz. Visitou Alceu no hospital e o ajudou na recuperação. Quando o Natal chegou, estavam tão íntimos que a reunião entre as famílias aconteceu naturalmente. A violência externa os unira de tal forma que pareciam conhecer-se há muito tempo.

O cotidiano tem centenas de histórias semelhantes. Muitas, lamentavelmente, com um desfecho mais sofrido.  O certo é que as pessoas não devem entregar os pontos. Se em 2013, muitas páginas do cotidiano repetem o ano que se passou. com manchas de sangue e dor, muitas outras se abrem com a apaixonada força daqueles que não se entregam jamais. Esta é a melhor munição para enfrentar todas as adversidades que ainda virão. A cada dia, estas pequenas conquistas, motivarão políticas públicas mais rigorosas onde a lei será aplicada sem panos quentes. Está mais do que na hora de se deixar a brandura apenas aos amantes. Estes merecem.