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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Má Dona e o desrespeito ao público

Coisa triste é ver um artista maltratar seus admiradores. Atrasar um espetáculo quatro horas com a grosseira desculpa de um resfriado não merece perdão. (Má) Dona Louise Veronica Ciccone,  aos 54 anos, poderia ter aproveitado todo tapete vermelho que seu talento abriu, para acumular humildade e profissionalismo. Aqui em Porto Alegre, minha colega Nadir Jardim, por exemplo, pagou pelo ingresso e só conseguiu ouvir quatro músicas. Chegara bem cedo ao estádio Olímpico e assim,  entre o cansaço e a preocupação com os compromissos no dia seguinte, típicos de toda Material Girl, decidiu-se por voltar mais cedo para casa, Assim como outros o fizeram.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Salve São Marcos!

Por Gilberto Jasper, jornalista

No país onde “jeitinho” é sinônimo de astúcia e respeito à lei é “babaquice” foi reconfortante saber que Marcos, goleiro recém-aposentado do Palmeiras, saiu em defesa da moralidade. Pelo facebook ele pôs em segundo plano o futuro nebuloso do clube ser rebaixado através da anulação do polêmico “gol de mão” do atacante Barcos no jogo de sábado contra o Internacional. A impugnação decretou a derrota do time paulista que segue na zona do rebaixamento.

Se for para acontecer o pior (rebaixamento) que seja com dignidade. Não precisamos que anule o jogo, afinal, o gol foi de mão. Numa época de tanta luta para que a justiça seja feita no Brasil, nós (todos) do futebol brasileiro temos que dar o exemplo”, redigiu o exemplar Marcos.

Ele condena a incoerência que adquiriu contornos de epidemia nacional. Todos nós adoramos condenar os políticos, sinônimo de corrupção; Vibramos com as penas proferidas pelo impiedoso ministro Joaquim Barbosa, mas adoramos furar a fila e usar da influência de amigos para obter vantagens em qualquer lugar. 

“Corrupção é um ato em que alguém leva alguma vantagem ilegal, mas não nos convidou” diz o adágio de humor duvidoso para retratar a tolerância com irregularidades que nos beneficiem. A cultura de “levar vantagem em tudo” está impregnada em nossa rotina. É só observar cenas comuns como a ocupação indevidamente uma vaga de deficiente, o desrespeito ao limite de velocidade quando não há pardais ou o descaso no caixa exclusivo para idosos no supermercado.

Ironicamente ecoou do futebol, ambiente envolto em eternas brumas de suspeitas – doping, bicho extra, facilitações em vários planos, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, combinação de resultados de campo – o único grito em favor de uma nova postura. Uma mudança se impõe onde cumprir a lei seja rotina num país onde as normas proliferam, mas não existe estrutura para fazer valer a legislação.

Tomara que São Marcos, como ficou conhecido o goleiro pelos feitos extraordinários dentro de campo, tenha operado mais um milagre. Este, no entanto, digno da comemoração de todas as torcidas e dos atletas que gostam de jogar limpo.                                                                     

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Procura-se Virgens


Apesar de ser notícia atual, o leilão pela virgindade da brasileira Catarina Migliorini, encerrado nesta quarta-feira (24), com um lance vencedor de US$ 780 mil (mais de R$ 1,5 milhão), de um japonês (sempre eles!), me parece coisa antiga. Achei que somente nos tempos idos a experiência de uma primeira vez era soberbamente valorizada. Mas vai ver por ser jóia rara nos dias de hoje, seis malucos disputavam a virgindade da garota no site 'Virgins Wanted', da Austrália, com uma feroz disputa de lances entre três norte-americanos, um australiano, um indiano e o japonês vencedor. Agora, de acordo com o regulamento, o vencedor precisará esperar dez dias para consumar o ato, que pelo vocês lerão abaixo, deve ser muito sem graça.

Os produtores dizem que não serão feitas gravações – o que deixaria tudo muito mais pornográfico do que já parece – mas a garota tem um compromisso com a empresa organizadora do leilão e participa de um projeto que acompanha a preparação para o custoso momento que culminará, vejam só, durante um voo entre os céus da Indonésia e os Estados Unidos, onde chegará ex-virgem e milionária.

Nos sites pela internet, eu soube que os pais da jovem, que é de Itapema, não concordaram com a decisão, mas a estarão apoiando. Em entrevista ao G1, a catarinense confessa que foi “tudo no impulso” Era jovem, tinha 18 anos e por ser virgem decidiu candidatar-se. “Era uma oportunidade de viajar, conhecer novas culturas, mas não esperava uma resposta. Quando o diretor (o produtor australiano Justin Sisely) me escolheu, fiquei super feliz e decidi ir até o fim".

E você, amiga leitora, se tivesse a oportunidade de ganhar um bom dinheiro, aceitaria tal proposta? Aceitar o compromisso de ter uma equipe de cinegrafistas durante meses gravando teu cotidiano? Tenho lá minhas dúvidas sobre a questão ética nestes casos. É um direito dela fazer o que bem entender com o próprio corpo. Mas por mais distante que se pareça dos projetos da indústria pornográfica, "Eles filmam meu dia a dia, meu novos amigos, eu falando com a minha mãe, minhas reações", explica Catarina, ainda me parece uma produção erótica. Sexo é isso, independente do processo para se chegar lá.
 
Ela acrescenta: “Ele não poderá me beijar, realizar nenhuma fantasia nem fetiche, nem usar nenhum brinquedo". Chatice! Catarina quer “esfriar” o processo e aí também me vem a lembrança das antigas profissionais do sexo a alertar os fregueses, “Faço tudo, menos beijo na boca”. Tudo muito igual - ou pior - ao oferecido por aquelas damas da noite. Só uma coisa, a meu ver, a diferencia: o preço, que é infinitamente mais alto. Alguém aí pagaria?

terça-feira, 23 de outubro de 2012

EU CARPINEJO


Por Nadir da Costa Jardim , 42 anos completados hoje

Sim, carpinejo. Comecei a ler Fabrício Carpinejar quando meu casamento ruía, tinha uma tristeza na minh’alma por perceber que o meu desejo de amor era diferente daquele do meu par. Fui apresentada por uma amiga ao escritor pelo livro “O amor esquece de começar”. Era isso, o título me acabava, me consumia instantaneamente. Constatei que a falta de cuidado fazia o amor esquecer de começar para nós há muito tempo...

Afinal de contas, acredito que relacionamentos sadios são cultivados, porque tenho, diariamente, a liberdade de escolher a pessoa destinatária dos meus cuidados mais caros: amor, respeito, gentileza, tolerância, paciência e prazeres.  Como diz o poeta, .... “Liberdade na vida é ter um amor para se prender”.

Já o cuidado é – para mim, entre outros significados - a responsabilidade revestida de atenção. E com um olhar amoroso, desejoso, ... então? É plenitude.

Não sofri, presenteei-o com o livro, na esperança que se ele lesse apenas o título, apenas o título,... talvez pudesse trazê-lo a reflexão, ... O livro era o meu cutucão, fiz dedicatória amorosa, na busca de um momento de lucidez sobre o que estava acontecendo...

Nunca leu.

Fiquei a matutar... Me atrevi a um diagnóstico: TDAH no relacionamento, nos afetos.

Na separação, o livro ficou. Beleza, arranquei a página da dedicatória e segui no baile da vida.

Já separada, conversava com a mesma amiga – que passei a presentear, em agradecimento, com livros de Carpinejar – sobre como “reconhecer” algumas espécies masculinas e técnicas de aplicação de questionários subliminares para identificar o “corpo” que procura aproximação - afinal de contas passei a descobrir tantas coisas que me dão felicidade e que estão me esperando para acontecer... Não desperdiço o tempo, matéria preciosa da vida.

Bem, a primeira pergunta sugerida, depois de alguns encontros leves com alguém que “parece” interessante é... – Gostas do Ney Matogrosso? Se o cara responder Adóóóóóro, com certeza será um excelente amigo; se vier algum comentário sobre a sua interpretação ou sobre os Secos e Molhados, geralmente se desenvolve bem; mas se vem aquele papo de que “é aquele que usa calça justinha, que era o namorado do Cazuza”, bem, aí nem faço a segunda pergunta, derrota por nocaute.

O tempo foi passando, chega o Twitter. Minha irmã veio com um papo de que lia o Twitter do Carpinejar, que era legal, e eu? Eu tinha o livro do Twitter do Carpinejar, o livro... Claro, desatualizado! Solução: criei um twitter para poder segui-lo, depois descobri por uma rádio de POA que sou enquadrada como “fake” porque não posto nada, tenho uma única frase e agora ficou pior: esqueci a senha.

Desde então passei a ler o Twitter do Carpinejar. Quando percebi, tornou-se um hábito.  T-O-D-O-S   O-S   D-I-A-S eu carpinejo antes de dormir. Todos os dias, inexoravelmente. Às vezes fico pensativa, mas na maioria delas, fico sorrindo. Carpinejar faz bem a minha saúde, acalma a minh’alma feminina, fala a minha língua.

Agora, a minha mais recente felicidade, o texto publicado na ZH de 04-10-10: Você tem que me ler.

Colei no banheiro feminino do meu trabalho.

Fiz uma cópia e passei para alguns colegas da sala - pois no banheiro masculino ficaria complicada a leitura.

Digitalizei-a e encaminhei-a ao meu amigo mais precioso.

Percebi, então, que carpinejava no trabalho.

Carpinejo na faculdade também. Presenteio amigos e colegas com frases de Fabrício postadas no Twitter, no seu blog, ...

Entre uma e outra fala a respeito do escritor, poeta, jornalista, professor,... descobri que uma outra amiga que amo, mãe dos meus afilhados, foi colega dele na escola, no 1º grau... Nossa, me senti tão perto do meu mestre dos afetos. Minha amiga foi colega de aula dele... Imagina?!

Ok, me bastava, pensei que tinham acabado as coincidências, ... Curiosa, entrei no site do Fabrício Carpinejar e descobri: fazemos aniversário no mesmo dia. Sou dois anos mais velha, nasci em 1970..., mas no mesmo dia, no mesmíssimo dia.  Agora, no dia 23 de outubro, além de Pelé, meu filho Ricardo e eu, sei que Carpinejar também comemorará!

Depois disso, compreendi melhor a histeria de algumas jovens quando vêem seus ídolos.

Percebi que nunca fui tiete de nenhum cantor ou artista, tinha até um trauma secreto, nunca gritei por ninguém em shows, espetáculos de teatro ou aeroportos. Ora veja, meu destino era tietar um escritor. Nunca imaginei isso. Ser tiete de escritor é venerar no silêncio: cada livro é um show que acontece dentro de mim, que só eu assisto, cujo som se eleva de acordo com as minhas percepções. Quando estou carpinejando, abre-se uma centena de hiperlinks.

Ligo, imediatamente após a descoberta, para minhas duas amigas já referidas e para minha irmã... A data se aproxima e seremos muito felizes - no mesmo dia - ao lado das pessoas que escolhemos amar.

Grita o meu filho do quarto: - E daí, mãããããããeeeee? Eu também nasci no dia 23 de outubro! Tu te lembras?

Pouso forçado, aterrissei.

Bem, quanto ao questionário aplicado, esse se modernizou, a pergunta agora é:

- Curtes o Carpinejar?

Vida longa pra ti, Carpinejar! Bendito seja! Alegra meus dias, me fazes sorrir e amar com mais leveza a vida que escolho viver a cada manhã.

Obs.: Esse texto foi escrito em OUT/2010, encaminhado ao Fabrício Carpinejar por e-mail, em agradecimento a sua produção literária e que se transformou em um presente de aniversário compartilhado.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

“Con-sensual” é mais gostoso

Sem cartório, sem Igreja
Desculpem-me o trocadilho, mas não resisti. Acontece que o IBGE divulgou nesta quarta-feira (17) que um terço de uniões no país é consensual, ou seja, sem casamento civil ou religioso. Este tipo de relacionamento aumentou de 28,6%, em 2000, para 36,4% do total, no último levantamento em 2010. No mesmo período, o percentual de unidos por casamento civil e religioso caiu de 49,4% para 42,9%.

O estudo mostra que a união sem formalização é mais freqüente em classes sociais de renda menor, representando 48,9% das ligações na população com rendimento de até meio salário mínimo, e entre brasileiros de até 39 anos. Os casamentos atuais são verdadeiros espetáculos, com danças, ensaios fotográficos e jantares chiques. Poucos podem bancar estes eventos e,  mesmo entre os mais abastados, nem todos tem a absoluta certeza de que manterão o bom nível do espetáculo até que a morte os separe.

A pesquisa revela outro dado interessante: os solteiros continuam sendo mais da metade da população brasileira: eram 54,8% do total, em 2000, e passaram a representar 55,3% da população, de acordo com o último levantamento. O número de casados caiu, passando de 37% para 34,8% entre 2000 e 2010. O percentual de divorciados quase dobrou. Em uma década: representavam 1,7%, em 2000, e chegaram a 3,1%, em 2010. Ou seja, os “encalhados” precisam reformular suas táticas porque tem gente no mercado.

Muitos estão ariscos. A vida anda difícil, juntar os trapinhos, como se dizia antigamente não é mais tão fácil assim. Por exemplo: antes o mais comum era o casamento com o marido saindo para o trabalho enquanto a "patroa" administrava o lar. Hoje ambos trabalham e a coisa fica mais ou menos assim:  o lar doce lar entregue às domésticas, os filhos às babas, as creches ou aos pobres avós que nunca tem folga. Viver junto, nos dias de hoje, é um investimento muito caro, sem garantias de satisfação ou devolução dos bens investidos.

A pesquisa avaliou ainda a relação entre casamento e idade e mostra que os homens casam, em média, com 25,9 anos e as mulheres, aos 23 anos. No caso dos que passam dos  60 anos, o percentual de mulheres que nunca formalizou uma união foi mais elevada (7,4%) do que a dos homens na mesma faixa etária (4,6%). As diferenças também são marcantes para a população entre 20 a 29 anos: 53,6% dos homens e 38,5% das mulheres nesta faixa etária não viviam e nunca viveram em união, radicaliza o IBGE.

Uma vida em comum, quando bem resolvida, faz bem para a alma, alimenta o prazer por viver. Mas tem custos altos, investimentos a longo prazo que sempre provocam estresse na hora de fechar as contas. Os casais do século 21, muitas vezes, optam por oficializar a vida compartilhada, em cartórios ou igrejas, muitos anos depois, quando todas as instabilidades – materiais e afetivas – foram equacionadas. E aí sim, a cerimônia passa a ser uma celebração aos que atingiram o pódio do verdadeiro amor. Com o senso e a sensualidade deliciosamente abraçados.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Alimentar-se de luz?


Trocar gases por flashes?
Um amigo músico almoçava com um grupo de colegas quando um deles, ao ver que todos fartavam-se de carne bradou: “Assassinos!” E passou a xingar os frigoríficos que, segundo ele, torturam bovinos, aves e outros bichos, “só para alimentar vocês, carnívoros!”

A discussão apimentou-se. Um não vegetariano justificou que o brócolis que deitara em seu prato, banhado em azeite de oliva e vinagre, um dia estivera vivo e feliz em uma horta. Igual a todos os demais legumes e hortaliças servidos naquele buffet.

O defensor dos animais não desanimou. "Eu vi no Fantástico que já tem quem alimente-se de luz!" Meu amigo, com muito bom humor, aproveitou a deixa e disse que esta era uma boa notícia: "as pessoas deixarão de liberar aqueles desagradáveis e malcheirosos gases para simplesmente, estourarem flashes!

É claro que será estranho assistir aos clarões de luz em locais inusitados". A risada que se sucedeu desarmou espíritos carregados o suficiente para, ao menos, alguns raios e trovões.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A porta abriu



O que acontece depois?
Por Nadir da Costa Jardim

Era segunda-feira, um dia como todos os outros, para todos os outros, exceto para Estela. Mulher madura, independente, divorciada, 2 filhos. Havia decidido naquele final de semana que não iria mais guardar a sua beleza, a sua preciosidade espiritual e o seu sexo para si mesma, queria compartilhar. Aliás, necessitava disso para a própria sobrevivência.

No início do ano, já havia prometido que 2012 seria um "ano novo" para ela, decidiu que iria sair da zona de conforto e enfrentar o mundo - seja ele do tamanho que fosse - porque na verdade ela nem sabia o que lhe esperava, apenas sentia que necessitava renovação.

Surpresa, recebeu uma ligação naquela segunda-feira, de um amigo de longa data, que sabia de um dentista no seu prédio que queria dividir o consultório e lembrou imediatamente dela e de seu sorriso... ela estremeceu.

Desejava tanto alguém que ela pudesse amar demais, além da medida, porque, no fundo, depois de tanto sofrimento, nada melhor que amar muito, muito mais e melhor. Ela, agora, não queria mais família, nem filhos, nada que está escrito em livros e revistas, ela queria sexo, cumplicidade, mas mais do que isso, ela desejava se entregar de novo.

Tomou um banho, massageou-se com óleo de rosas, um perfume discreto que só se percebe quando o nariz desliza sobre a pele... Toda a vez que Estela tomava banho, pensava no homem que um dia iria descobrir ou despertar alguns de seus mais reservados segredos...

Lá estava ela, vestindo uma lingerie sofisticada e delicada, por debaixo de um vestido acinturado e salto alto. Suas unhas: vermelhas. Deliciosamente linda, uma mulher de 48 anos, manequim 40, seios firmes e uma cintura que invejaria muitas mulheres.

Apenas o movimento dos seus quadris denunciava a sua maturidade, pois movimentava-os em um balanço seguro e sedutor. Dirigiu-se ao endereço indicado pelo amigo, Av. Luís de Camões, 727 – 31º andar...

Chegando lá, frente ao elevador, abre-se a porta... Nele estava seu amigo Daniel, aquele que havia lhe telefonado. Ele estava mais lindo do que nunca, se olharam e sorriram, saudosos de que havia algo pendente na história de ambos, mas ela sabia que Daniel era casado... Seu instinto, com o tempo, estava mais apurado... Havia perigo e ao mesmo tempo uma fantasia latente.

Seu sorriso foi subsituido por um olhar, quase piedoso. Agradeceu ali mesmo, na porta do elevador, mas não podia aceitar. Daniel insistiu carinhosamente, seu olhar abraçava-a, buscando reciprocidade. Ela sabia que entrar naquele elevador poderia levá-la a lugares antes inalcançáveis, mas sempre imaginados. Estela olhou para dentro de si, para sua 'especialidade' e sua intuição. Sabia que aquele elevador não a levaria a lugar nenhum.

Haveria um limite.Ela não queria mais limites. Ela não queria mais ser definida como "Mulher madura, independente, divorciada, 2 filhos." Ela queria tudo! Seu lugar não era ali. Estela, mais uma vez, sentiu-se dona de si, agradeceu e partiu.

sábado, 8 de setembro de 2012

A mulher que ouvia demais

Melhor do que ouvir é...

Duas batidas secas na porta. Por que não haviam usado a campainha? Espiou pela janela, e viu Fred Astaire, o cachorro magrelo, sem raça definida, que adorava correr para, em seguida, deslizar no piso vitrificado da cozinha. Parecia um dançarino, diziam os filhos. Daí o apelido. Irritava-se com essa sensibilidade auditiva. Ouvido de "tuberculoso” brincava o marido que, no passar dos anos, consultava a esposa para localizar a origem de sons estranhos no carro. Sim, ela escutava tudo o que a grande maioria não percebia. As crianças cochichavam alguma brincadeira secreta e ela já sabia se era coisa perigosa ou se podia liberar, sem riscos. Não gostava disso, porque, muitas vezes, a fofoca das falsas amigas, algumas combinações suspeitas entre senhoras e senhores casados, lhe deixavam literalmente perturbada. E sofria com isso.

No mês passado foi ao médico para exames de rotina. Lá encontrou duas conhecidas que, no silêncio absoluto do consultório, passaram a sussurrar alguma coisa muito séria, pois mantinham a testa franzida naquele jeito de quem se refere a temas graves. Sem fazer nenhuma força, ouviu o que diziam: “Será que ela já sabe? Pobrezinha, tão querida, tão leal e ele saindo com outra. Foram vistos juntos no mesmo carro, sumiram em direção ao interior. E mais de uma vez!” É claro que precisava saber quem era. Fofoca pela metade não tem a menor graça. E foi assim que ouviu o nome de seu marido. Era ele o sujeito que carregara, segundo elas, mais de uma vez, uma estranha no carro da família, para lugar incerto na zona rural.

Arrasada, pesquisou e não descobriu nenhum motel no tal caminho citado pelas mulheres. Os encontros eram então na casa da amante. Sofreu como nunca, desejou ser surda para não ouvir coisas tão horríveis. O marido chegou e ela não o ouviu abrir a porta. Estava surda de mágoa. Pensou no que dizer. E se fosse outro, com o mesmo nome, o mesmo carro? Não resistiu e procurou uma daquelas senhoras. E foi o que bastou para seu mundo desabar. Elas haviam realmente visto seu marido entrando e saindo do banco onde tinham conta conjunta, com a mesma mulher, mas em outro carro. Ele que sempre fora parceiro, fiel e apaixonado. Com outra?

As finanças eram administradas pelo marido, mas o momento era de urgência e foi conferir o saldo. Notou que uma quantia superior a pouco mais de R$ 1 mil havia sido sacada. Era o preço da orgia! Chegou em casa mais triste do que furiosa. Não podia acreditar naquilo. Pior, abriu a porta e ouviu o marido a segredar: “Ela está chegando, preciso desligar!”. Quase desmaiou. Mas manteve-se firme. Quando a avistou, em tom sério, pediu: “Vamos conversar”. Ela tremeu. “Vai dizer que está com outra”, pensou enquanto percebeu nas mãos dele um chaveiro bem antigo. “Ele já está na casa da vadia”, concluiu.

“Quer propor divórcio. É advogado, vai tentar me enrolar. Isso nunca!” No mesmo tom calmo e em voz baixa, porque sabia da audição perfeita da esposa, juntou as chaves com os papéis e disse: “Te devolvo algo que sempre te pertenceu”. E aí ela não entendeu mais nada até recuperar a concentração e perceber que ele lhe entregava um contrato de compra de imóvel. Em resumo, adquirira a casa onde ela passara a infância e que havia sido vendida para saldar dívidas do pai. Era um presente! E a moça, a provável amante, corretora de imóveis. O dinheiro, sacado no banco pagamento de taxas. Sentiu muita vergonha, chorou duplamente emocionada, abraçada ao marido.

Guardou a lição de que melhor do que ouvir bem tudo que se diz ao redor, é saber discernir entre o que realmente agrega e a fala destilada por aqueles que ouvem muito bem, enxergam melhor ainda, mas pintam a realidade com a cor opaca de sua própria mediocridade. Por via das dúvidas, para evitar novos sustos, ela usa o fone do celular para ouvir música e filtrar a poluição verbal, em lugares públicos. Aprendeu que a voz da intuição, como cantava John Lennon, sempre nos leva lá, onde fica o caminho da verdade.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O fim do mundo e o vento a levantar saias

Li no jornal Estado de São Paulo, que um grupo de astrônomos encontrou evidências de que um distante planeta teria sido “devorado” por sua estrela, dando fôlego a hipóteses sobre qual poderia ser o destino da Terra dentro de bilhões de anos. Eles também imaginam que um outro planeta que ainda gira em torno dessa estrela poderia ter sido lançado a uma órbita incomum em função da destruição do planeta vizinho. Não estarei aqui daqui a bilhões de anos, mas igualmente a pesquisa impressiona. Afinal, se nosso destino é tão cruel, qual o sentido de tudo isso?

Quem se interessar pelos detalhes científicos, basta conferir a edição de quarta-feira (22) do Estadão, sobre os detalhes do estudo, publicado originalmente pela revista científica “Astrophysical Journal Letters”. Em outras palavras, daqui a cinco bilhões de anos, poderemos ser engolidos por uma imensa bola de fogo, o Sol transformado em estrela vermelha, a levar bons e maus, anjos e demônios e tudo aquilo que construímos.

No mesmo instante em que lia esta assustadora previsão, imediatamente abaixo, em minha página do Facebook, a postagem de um site de futilidades nada científicas (que a maioria lê), destacava a foto de Vanessa Hudgens, jovem atriz da série “High School Musical”, a exibir lascas de seu bumbum, após o vento ter levantado o vestido. Estaria ela sem calcinhas? Ou trajava diminuto fio dental, especulava o texto.

Quantos séculos levaremos para desvendar esse mistério? Ou amanhã, tal revelação não valerá mais nada, transformada em diminuta fagulha na constelação de astros não hollywoodianos? Bumbuns, seios fartos e gente disposta a se expor, não nos faltaram até sermos devorados pelo fogo que preveem os cientistas (já não bastavam os pregadores apocalípticos?). Uns observam o sol, a natureza, as ciências, outros ermpunham uma máquina fotográfica para a vil missão destes flagrantes pueris.

Ou seja, somos realmente importantes no Cosmos. Quem perceberá nossa ausência, após sermos engolidos pelo Sol? Entre a astrofísica e as revistas de variedades, penso que o melhor ainda é aproveitar os bilhões de anos que nos restam, com foco nas coisas que realmente importam. Mas o que é verdadeiramente importante? A cultura ultra-leve, da vida mundana? A filosofia, a poesia dos gênios incomprendidos? "Os talentos atingem metas que ninguém mais pode atingir; os gênios atingem metas que ninguém jamais consegue ver," dizia Artur Schopenhauer. E daí?

À noite ao retornar para casa, abandonei essas reflexões ao perceber que, ao longo do meu caminho, resplandecia a lua em sua fase crescente - amarela - quase a encostar no asfalto da BR 290. Em seu formato de embarcação, parecia navegar entre estrelas. E percebi que aquele momento era muito maior do que a imagem do bumbum carnudo da jovem atriz e mais verdadeiro do que as teorias sobre as probabilidades de termos o planeta engolido por nossa ainda amistosa estrela solar, daqui a bilhões de anos.

Estar ali, aproveitando aquele momento exuberante, que dispensa a ciência e os pudores mundanos, dava sentido a tudo. Guardei aquela luz como fonte para os momentos de breu. Se um dia seremos engolidos, que tenhamos então produzido o melhor, o mais digno em pensamentos e ações para justificarmos, minimamente, a instabilidade e brevidade da condição humana como conhecemos. “São demais os perigos desta vida” cantou Vinicius de Moraes. E aí é que está a graça.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Punta Cana, o paraíso que Deus criou na Terra!


Lagostas grelhadas na brasa: com a avaliação de nosso editor de viagens

Especial | Gilberto Jasper
gilbertojasper@gmail.com

De 20 a 27 de junho eu e minha mulher Cármen gozamos uma semana de merecida folga em Punta Cana, na República Dominicana, numa nova lua-de-mel para comemorar nossos 25 anos de casamento. A ilha do Caribe recebe milhões de turistas de todo o mundo com predominância de norte-americanos, alemães, espanhóis e russos.

Belas fotos em https://www.google.com.br/search?q=punta+cana&hl=pt-BR&prmd=imvns&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=yxghUMvkK4OI8QSRpoCoBg&ved=0CIoBELAE&biw=1280&bih=813&sei=0RghUJ3iD-200QH6Ag.

Optamos pelo sistema all inclusive, ou seja, todo consumo de bebidas e comida dentro do hotel é pago no pacote e dispensa o pagamento na hora do check-out. A maioria dos hotéis, aliás, adotam esta sistemática. Nosso único objetivo era ficar de papo para o ar para curtir o sol, a praia de areias claras e as calientes águas de tom azul turquesa.

· Viagem: Saímos de Guarulhos (SP), num vôo da TAM onde o conforto não está incluído. Um detalhe importante: como o vôo partia às 11h de uma terça-feira, a agente da CVC sugeriu que fôssemos na segunda-feira para evitar os contratempos comuns nesta época do ano, principalmente em relação à neblina. Poltronas estreitas, pouco espaço para as pernas e desleixo na manutenção da aeronave foram os destaques negativos, apesar da boa vontade da tripulação.

Foram aproximadamente cinco horas e meia de viagem até Caracas, capital da Venezuela, onde houve uma escala de 50 minutos Uma hora e meia depois descemos no Aeroporto Internacional de Punta Cana que mais parece um enorme CTG porque é o telhado é coberto por capim do tipo santa fé. O interior do terminal é bem cuidado e refrigerado por enorme ventiladores de teto com pás descomunais. O terminal também possui um free shop com poucas lojas. Na chegada é preciso, além de apresentar a guia de praxe e o passaporte, pagar uma “taxa de turismo” no valor de 10 dólares

· Susto: Depois de cumprir as exigências legais fomos para a esteira que, não raro, reserva surpresas desagradáveis. A demora foi normal, mas foi recheada de suspensa quando sisudos policiais chegaram trazendo na coleira enormes cães farejadores que se postaram sobre as malas. O medo era justificado pela presença de um quilo de erva mate em minha única mala. Lembre-se que todo produto de origem animal ou vegetal deve ser formalmente informado num formulário específico para análise e posterior liberação. Mas toda esta burocracia atrasaria o chimarrão do final de tarde!

Quatro bem humorados casais de Alegrete (RS) também tremeram. Mas relaxei, afinal, tinha passaporte, cartão de crédito e dólares no bolso da camisa e pensei: “Se os cachorros acabarem com meu chima largo as bagagens e compro óculos de sol, protetor solar e uma bermuda no camelô”. Felizmente passamos (todos) incólumes pela cachorrada que fuçou bastante entre as bagagens.

· Chegada: O forte calor foi o anfitrião perfeito, juntamente com uma legião de prestativos nativos (a maioria jovens) dispostos a carregar nossas tralhas até o ônibus que nos aguardava. Dei 5 dólares de gorjeta e notei que o guri não acreditava. Depois descobri que com apenas 2 dólares era possível conseguir pétalas de rosa e a colcha da cama dobrada em forma de ondas do mar pela camareira do nosso bangalô.

· Hotel: Ficamos hospedados no Bávaro Princess Hotel, Resort, SPA e Cassino (http://www.booking.com/hotel/do/bavaro-princess-all-suites-resort-spa-casino.pt.html) cuja estrutura é fantástica com mais de 2 mil funcionários! O enorme bufê se transforma todos os dias numa barulhenta Torre de Babel no café da manhã - quando pássaros de vários cores sobrevoam as ilhas gastronômicas - e à noite quando sempre um país é homenageado com pratos típicos.

Servir água em todas as refeições é uma tradição. Basta sentar-se à mesa para descobrir isso. O hotel dispõe também de três restaurantes especializados em carnes, frutos do mar e gastronomia francesa, mas que exigem reservas até às 10h e onde é proibido o uso de bermuda, chinelo e camisa regata.

Ao longo do percurso, do hall de entrada até os bangalôs, é possível vislumbrar vistosos pavões, barulhentas araras, sabiás cantores, cardeais e seus topetes colorados e uma infinidade de pássaros silvestres, além de um passeio ecológico dentro do próprio hotel.

· Shows e bebida: À noite os bares do entorno do hall lotam com a oferta de chope, água mineral e drinques de todo tipo, basta pedir. Um dos atendentes ficou curioso com a cuia de chimarrão que eu levava e acabou provando (e gostando) do nosso mate, embora no início tenha confundido com a bebida típica dos argentinos. Às 20h30min se iniciam os shows variados com música caribenha, americana, discoteca além de espetáculos de humor e mágica. Ao final são concedidos 5 minutos para fotos (pagas) com os artistas. Na noite da discoteca (sexta-feira) a balada entra madrugada a dentro com DJs que não deixam ninguém sentado.

· Acomodações: O hotel localiza-se dentro de uma floresta tropical com vários espaços intocados. São mais de 500 bangalôs em conjuntos de quatro unidade (duas em cima, duas na parte inferior) com cama king size, frigobar, jacuzzi, tevê LCD, cofre e ar condicionado central (que pifou em duas noites com 28°C!). Por causa do tamanho e das distâncias, o hotel disponibiliza transporte interno, igual aos dindinhos que das nossas praias do litoral gaúcho, que funciona das 7h à meia-noite. Fora deste horário basta ligar para a recepção que o “frete” é feito gratuitamente. Existe uma área denominada Premium com acomodações diferenciadas, colchões king size à beira mar, esportes náuticos incluídos e várias mordomias. Para isso é preciso pagar uma diferença que gira em torno de 45 dólares diários.

· Praia: A praia é igualzinha às fotos e folders das agências de viagens. Tem areias brancas, águas mornas azuladas de doer os olhos e praticamente sem ondas. Dois bares funcionam lado a lado à beira d’água. Um serve bebidas (chope, água mineral e 4 tipos de drinques diferentes a cada dia) e outro oferece lanches do tipo MacDonalds). Também existe um restaurante estilo bufê que, à noite, é batizado de Gaucho (sem acento), especializado em grelhados. Outra atração à beira mar é o topless, predileção de muitas mulheres européias, mas a maioria deveria ser proibida de praticá-lo...

Na beira da praia é possível comprar charutos (uma dos produtos típicos da ilha, mas os experts aconselham lojas especializadas), óculos de sol e semijóias. Diariamente dois homens percorrem as areias num incansável vai-e-vem curioso para nossos padrões. Um porta uma máquina fotográfica, outro leva no ombro saguis, cobras enormes (aquelas pítons, de tons branco-amarelados) e iguanas,um bicho a cada dia. A foto custa 10 dólares. Há também grupos de crianças que tocam violão, triângulo e pandeiro fazendo coreografias dominicanas típicas. Depois, claro, passam o chapéu – aliás, um boné – para arrecadar alguns dólares ou pesos.

· Passeios: Há uma grande variedades principalmente de locais para mergulhos e nado com golfinhos e inofensivos tubarões. Há ainda safáris e trilhas para motos e jipes. Eu e Cármen fizemos um único roteiro, denominado Caribe Adventure, ao custo de 180 dólares por pessoa. Não é barato, admito, mas valeu cada dólar!

Fomos buscados por um ônibus Comil (fabricado em Erechim!) às 7h30min com retorno às 20h30min. Pela manhã, depois de duas horas e meia de viagem através de rodovias estreitas que cortam diversas pequenas cidades, chegamos a uma praia onde um catamarã nos esperava com bebida, comida e frutas.

Durante todo o dia mergulhamos em translúcidas piscinas naturais e pudemos vislumbrar o local exato onde o Caribe e Atlântico se encontram. Ao meio-dia fomos degustamos lagostas assadas numa espécie de churrasqueira pendente para fora do barco. Para gaúchos saudosos de casa (como eu) havia carne de panela e frango, uma das especialidades de Punta Cana, servidos com arroz, saladas e sobremesa.

À tarde, de jangada para não comprometer a fauna marinha, conhecemos um manguezal localizado em pleno mar! Berço de várias espécies de aves, o conjunto de vegetação é venerado pelos nativos por ter salvo as praias no último furacão que dizimou várias cidades costeiras. Trocamos novamente de embarcação e passamos a navegar num barco tipo Mississipi com enorme pás em forma de roda na parte traseira. Singramos um lindo vale emoldurado por vegetação fechada e vislumbramos luxuosos condomínios com inúmeros campos de golfe. De longe vimos as mansões de Shakira, Julio Iglesias, Vin Diesel e da família de Michael Jackson enquanto brindávamos à vida com espumante francesa.

Compras: Outro pequeno roteiro, ao custo de 40 dólares por pessoa, foi feito numa tarde a três shopping centers. Mas cá entre nós, devo admitir que apenas um conjunto destas lojas valeu a pena porque possui lojas das principais marcas mundiais, como Chanel, Dior, Gucci, Prada, Lacoste, Diesel, Adidas, Louis Vitton, Nina Ricci e Kenzo entre outras. Confira em http://www.viajenaviagem.com/2011/01/compras-em-punta-cana/;

Internet: O sistema do hotel é intencionalmente concebido para que se possa usufruir da ampla e variada estrutura existente. Minha mulher levou o netbook (contra a minha vontade) alegando que gostaria de, pelo menos, avisar a gurizada lá de casa que tínhamos chegado bem. Descobrimos que o custo para usar a internet é de 15 dólares por dia, com pedido mínimo é de dois dias, além da caução de 100 dólares na retirada do modem. Mesmo assim o acesso não é facilitado e constante.

· A (boa) fama do Brasil e dos brasileiros: O povo da República Dominicana tem uma certeza: nós, brasileiros, somos ricos! O guia que nos levou ao passeio de barco pelo Caribe justificou:

- Há dois ou três anos havia no máximo quatro brasileiros num ônibus de 40 lugares. Hoje temos passeios exclusivos para vocês que lotam os nossos hotéis. É por isso que todos têm inveja de vocês! – esclareceu.

Tentei convencer um vendedor ambulante de que tínhamos pago a nossa viagem em 12 vezes, mas ele não se deu por vencido:

- Pelo menos vocês têm emprego para pagar as 12 prestações. E nós. que nem isso temos? – devolveu.

A jornada de trabalhos lá é de 11 horas. A cada 12 dias trabalhados eles têm três de folga. A maioria reside em cidades distantes 80, 90 quilômetros da zona hoteleira. Por isso, muitos moram nos alojamentos dos hotéis, fazendo “bicos” para turistas para engordar o orçamento. O salário, em média, é de 120 dólares mensais.

O momento de crescimento econômico do nosso país não é absorvido apenas pelos dominicanos. Falei com 3 haitianos que fugiram do país por causa da miséria e dos conflitos. Ele foram unânimes:

- Queremos aproveitar o intercâmbio entre os dois países para trabalhar na construção civil, nas obras da Copa do Mundo e do PAC – contaram todos eles.

· Solidariedade, marca registrada: Impressiona a nós, famosos pelo calor humano, mas nem sempre tão solidários, o espírito humanitários que move aquele povo humilde e sempre sorridente. O guia turístico informou que 23% do Produto Interno Bruto (PIB) da República Dominicana é oriundo do turismo, o que não surpreendeu. A segundo maior fonte da entrada de divisas (17%), no entanto, é oriunda de recursos enviados ao país por dominicanos que residem no Exterior. Este dinheiro é destinado para familiares, amigos, vizinhos e ex-colegas de trabalho que estão desempregados. Alguém imagina gesto semelhante no Brasil?

· Os norte-americanos: A maioria dos dominicanos detestam os filhos do Tio Sam. - Eles só querem o nosso dinheiro, não dão gorjeta, nem conversam com a gente como vocês brasileiros fazem. É um povo arrogante! – desabafou um guia sem esconder a ojeriza ao povo que mais dinheiro despeja em seu país.

Já os brasileiros são adorados. Dizem que nos conhecem porque puxamos conversa e, como eles, sorrimos muito. Os garçons dançam e cantam músicas caribenhas, nem se importam em trabalhar de calça e mangas compridas num calor de 32°C!

domingo, 12 de agosto de 2012

Deixem-nos sermos simplesmente pais!

Querem um bom presente para o papai? Que tal permitir-lhe o direito de exercer a paternidade da forma mais verdadeira possível? A antropóloga e escritora Mirian Goldenberg escreveu sobre o tema no jornal Folha de São Paulo, no início da semana, “como uma homenagem aos pais” e alertou: “no centro do palco da maternidade, a mulher não quer dividir o poder e trata o homem como mero figurante”. A autora, por exemplo, se diz perplexa diante da lei em vigor sobre a licença-paternidade que reserva ao pai apenas cinco dias para dar atenção ao recém-nascido, enquanto a licença-maternidade é aplicada por quatro meses. “Cuidar de um bebê é muito mais do que garantir a ele o aleitamento materno”, alerta, ao lembrar que os meses iniciais de contato necessários para que tanto o pai quanto a mãe estabeleçam com a criança o vínculo afetivo que será fundamental ao seu desenvolvimento emocional e social.


Cabe ao pai apenas “ajudar” a mãe, considerada pela sociedade como a detentora exclusiva da arte de criar um filho. E lembro do quarto de meu terceiro filho, onde acima do berço, jazia uma imensa foto da sua mamãe, ainda o levando na barriga, entre tecidos leves com ar angelical. O pai estava aonde? Dirigindo o carro à maternidade, inspecionando a temperatura da sala, da mamadeira mais tarde. Um típico ajudante. Segundo a antropóloga, muitas mulheres vivem a maternidade "como um poder que não se compartilha", portanto, nós homens, acabamos como meros "coadjuvantes “ou "figurantes em um palco em que a principal estrela é a mãe e, depois, as avós, as tias, as babás e as empregadas domésticas.”

Assim, limitados a um involuntário secundarismo, os papais acabam com a fama de imaturos, ausentes, irresponsáveis e incompetentes quando não se encaixam ao formato serviçal. As meninas treinadas a serem mamães de suas bonecas reforçariam a natureza feminina destinada à maternidade que acaba por empurrar, futuros pais ao quinto escalão da relação afetiva com o filho. Segundo Gondenberg, não existe nada no jeito de ser masculino que o impeça de ir além e assim cuidar, alimentar, acariciar, acalentar e proteger seu filho.

E conclui a antropóloga: “se as crianças aprenderem que o pai e a mãe podem ser igualmente disponíveis, atenciosos, responsáveis, protetores, presentes e amorosos, é possível que, em um futuro próximo, exista uma maior igualdade entre homens e mulheres e a crença de que em nenhum domínio (público ou privado) um dos gêneros é superior ou mais necessário do que o outro.”

Ou seja, se elas dizem que somos “atrapalhados” com crianças, provemos que não dependemos do porte de um super-homem ou mero faz-tudo. Basta aceitarmos a paternidade com amor e devoção e exercê-la além do protótipo “natural” que nós mesmos, coartífices da família no formato que ainda impera hoje, ajudamos a estabelecer. Obrigado Mirian, me senti presenteado com tua opinião.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Tombo as pés do pódio


Em Londres, depois de ter sido eliminada dos Jogos Olímpicos, a judoca brasileira Rafaela Silva admitiu ter errado. Horas depois, na internet, a atleta não lidou nada bem com a frustração. Criticada no Twitter, respondeu com palavrões cifrados e bateu boca com seguidores. Já a judoca gaúcha Maria Portela também eliminada logo na estreia dos jogos de Londres, da categoria médio (até 70kg), derrotada por ippon pela colombiana Yuri Alvear assumiu os erros e com extrema humildade fez uma autocrítica pungente e comovedora sobre sua atuação. “Joguei fora a chance de minha vida”, lamentou entre lágrimas. E aí entramos nessa linha fina que nos divide entre a insensatez e o equilíbrio. Muito mais do que saber perder é fundamental estar preparado para a vitória.

Rafaela Silva é o talento que emergiu das comunidades carentes do Rio de Janeiro e merece todo o reconhecimento pela superação que a colocou em um patamar diferenciado. É exemplo! Errou, reconheceu a derrota e depois saiu a chutar o balde com grosserias, como se estivesse de volta aos grotões do vale tudo social de onde foi resgatada. Não sei das origens de Portela. Sei que perdeu o controle emocional do jogo e, aos prantos, nos comoveu com uma análise pesada e dolorida sobre sua derrota. Ambas tinham seus corpos preparados, a técnica apurada e talvez estivessem em choque com o espírito que lá no fundo não se preparara à altura, e titubeava diante da possibilidade da conquista.

E fico pensando das vezes em que eu mesmo, próximo a atingir uma meta e diante do desafio, por pouco não desisti porque, mesmo com todo conhecimento e preparo, acordava nas madrugadas suando, apavorado, inseguro duvidando de minha própria capacidade. Sem treinadores, sem acompanhamento psicológico, apenas com o instinto ou apegados a um débil sentimento de amor próprio, acabamos forçados a reconhecer, entre lágrimas, que não podemos seguir adiante, ou pior, culpamos terceiros, xingamos o mundo cruel.

Para não sofrermos um ippon do cotidiano, precisamos estar sempre bem preparados em tudo, o que inclui, além da capacitação técnica, uma preparação íntima, lá dos interiores da alma. Uma faxina nos traumas, nas convicções tortas do passado, nas inseguranças adquiridas. Ninguém é fruto de uma bolha de pureza existencial. É assim que aprendendo a respeitar adversários reconhecemos nossas próprias limitações e confiamos, sem reservas, na capacidade individual de superação. Com certeza, as chances de voltarmos para casa com alguma medalha se tornam muito mais nítidas. As derrotas não serão mais tratadas com fúria ou culpa, mas como lições de vida. E no fundo, tudo que se aprende com os tombos é sempre um prêmio.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Quando o tamanho importa...

Assim, nem com toda fé do mundo
No Amapa uma jovem esposa decidiu processar o ex-marido por “insignificância peniana”. É uma ação rara no Brasil, mas segundo a matéria da revista Nova, comum nos Estados Unidos, para a moléstia que caracteriza  todo o pingolim que, mesmo em estado de alerta máximo não passa dos 8 centímetros. Este casal brasileiro namorou durante dois anos, sem nenhum tipo de contato íntimo, em função da “convicção religiosa” do ex. Ela diz que ele usou isso para enganá-la e quer a anulação do casamento, além de uma indenização de R$ 200 mil, que considera pequena visto o tamanho do “problema” que enfrentava. O ex,  reage e também vai a Justiça. Não aguenta mais as piadas e, principalmente, o novo e irônico apelido: “Toninho Anaconda”. Eta povinho sem piedade!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

É amor ou amizade? Santa Contradita!

Esta história é baseada em um despacho do juiz Rodrigo Trindade da 22ª Vara do Trabalho de Porto Alegre. Aliás, o texto é basicamente o relatório do magistrado, bem ao estilo de crônica cotiana. O tema é uma decisão de contradita de testemunha, ou seja, uma das partes entendeu que a outra é incapacitada de depor – por exemplo – em função de envolvimento, seja amizade ou inimizade. No caso, uma relação bem mais íntima. “Foi só o Richard sentar na cadeira das testemunhas que o advogado do réu disse que ia contraditar. Explicou que o moço tinha amizade íntima com a autora e, por isso, não podia depor. O juiz perguntou, e Richard respondeu: nada, nada, Excelência, só um chopinho com os colegas depois do expediente. Só os dois? – fincou o magistrado. Happy Hour da firma – esclareceu o moço – junto com o pessoal do setor. Tem até foto, e ela está na folha 124. Faceiros e etílicos, como os happy hours devem ser.”

Desconfiado, o magistrado insistiu, quem sabe alguma outra “atividade social” com a autora? “E o Richard firme na cadeira de testemunha e na versão. Não passou de um único happy hour. Bom, nada demais, afinal quem não gosta de happy hour com companheiros de trabalho? Tem empresa que até estimula, melhora o clima, aumenta os lucros. Mas o reclamado não teve a mesma certeza. Veio outra testemunha – essa agora para dizer se o Richard e a autora tinham ou não amizade íntima. Se tivessem, o Richard não seria ouvido. Era a Joseane, que chegou apresentada como “amiga íntima da autora”. Está na lei, amigo íntimo da parte não pode prestar depoimento compromissado. Afinal, se presume que vai ficar influenciado a ajudar a quem tem afeição. E deve ser mais ou menos para isso que servem as amizades.” A primeira estranheza é que foi justo o réu quem trouxe a Joseane. “E exatamente para provar idéia prejudicial à sua amiga.

Para essa situação o velho Código não traz nem artigo, nem parágrafo nem inciso. Ah, se todas as respostas estivessem nos códigos... Pobre do juiz, que teve de pensar rápido e ponderou que só pessoas que mantém relacionamento próximo com os envolvidos é que podem ter condições de prestar informações sobre possíveis intimidades. E, principalmente, não vai ser a amiga íntima da autora quem irá lhe prejudicar.” Pouco convicto, passou o magistrado a perguntar e Joseane, bem mais determinada, a responder. Ali sentada – perigosos poucos centímetros da autora – disse que eram amigas há 8 anos, congregando juntas na igreja, além de colegas de serviço. Inclusive, lembrou, foi a própria quem indicou a reclamante para trabalhar na firma, e até costumava lhe dar carona. Desconfiado, o juiz perguntou se o pessoal da empresa costumava sair juntos. Não saíam, foi a resposta.

E a autora e o Richard? “Ah, esses sem outros colegas e não só em happy hours”. E a reclamante já tinha dito ser moça casada e direita. Mas, afinal, qual era o relacionamento deles, quis saber o juiz.” E a curiosidade já não era mas estritamente jurídica. Nesse momento é bom pensar bem na escolha das expressões, afinal a matéria até pode ser de novela, mas ali ainda era uma sala de audiências. A pergunta saiu séria e formal: “Tratar-se-ia de um relacionamento afetivo?” “Eram casal, sim, doutor”. O magistrado temeu sinceramente pela integridade física da “melhor amiga”.

É que a autora é mulher grande e, ali do lado da pequena Joseane, “lançou aquele olhar que costuma anteceder os conhecidos e contundentes argumentos filosóficos garantidores de boas teses jurídicas. Não se sabe se foi o olhar brabo do juiz ou a experiência e serenidade da advogada da reclamante que demoveram as vias de fato. Mas que foi por pouco, foi. A vizinha de tantos anos, companheira de trabalho e de igreja, a grande amiga não titubeou. O casal de colegas mantinha relacionamento afetivo e era de bom conhecimento dos colegas. Em específico, Joseane contou com todas as palavras que a demandante tinha caso amoroso com Richard.”

“O juiz que não vive só de ler manual de Direito, percebeu que nesses tempos de relacionamentos líquidos, em que arrebanhamos centenas de amigos na rede social que está na moda da semana, o conceito de amizade resta bastante fluído.” Conclui que Richard prestou informação falsa. E que a amizade entre a autora e Joseana acabou, “bem implodida na sala de audiências”. O processo segue, mas Richard, definitivamente não será mais testemunha.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Café com sonhos ou feijão com arroz?

“Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair”
(Chico Buarque)

Atendeu ao telefone e a voz que ouviu – inacreditável – era a dele! Aquele flerte que no passado não convencera e nem permitira nenhuma conclusão do tipo, bom ou ruim, com a mesma voz sedutora, convidava-a para um café. O chão tremeu a seus pés, os olhos enxergaram mil possibilidades, mas como todo na vida, a razão fulminou-lhe a fantasia. Homens! No momento mais carente de sua vida, ele sequer dera retorno às suas ligações. Agora estava casada, ou quase isso: vivia um gostoso "feijão com arroz", dizia. E ele a sugerir “café com sonhos”. Pé no chão, guria! Com esforço, voltou ao trabalho.

Nestas horas gostaria de ser dona do pragmatismo masculino, que separa sexo e amor e não enfrenta tantas culpas. Conhecia o perfil meio cafajeste deste que lhe voltava a assediar. “Ele sabe que estou em uma relação legal. Ou seja, sem carências. Mas também está consciente de que me atraía muito. Aquela coisa química. Daí... Mas não cederei!”. E foi assim, boa menina, que voltou para casa. À noite, ajeitou-se carinhosamente nos braços de seu amado. A tentação do ocorrido horas antes, misturou-se ao afeto seguro que lhe envolvia e dormiu serena.

Pela manhã, a dúvida. Mais do que isso, a curiosidade voltou a lhe tirar a paz. “Só bater um papo não arranca pedaços”, justificava-se. Qual é o mal de ser, ou melhor sentir-se desejada? Iria simplesmente “conferir” como fazem seus colegas casados, quando as mulheres os assediam. Almoçou com uma amiga divorciada que, ao contrário do esperado lhe deu o conselho definitivo: “A angústia da culpa, é muito maior do que o prazer da relação às escondidas”. E lhe sugeriu usar “a razão e o afeto” contra a euforia, o arrepio do furtivo e proibido. E exagerou: trai hoje, repete amanhã, como um vício.

Impressionada, reconheceu que poderia se classificar como uma mulher feliz, bem sucedida na relação que vive. Pouca coisa lhe alteraria o curso. “Chega da confusão”, sentenciou. Não é isso que todos, homens ou mulheres buscam? Uma história de cumplicidade e respeito? Sentir-se desejada é um bálsamo para o ego. Faz bem para qualquer um. Mas levar um flerte a sério é permitir o risco de tudo ir água abaixo. Não vale a pena, concordou, meio a contragosto, consigo mesma. 

Uma boa relação se fortalece exatamente com essas pequenas renúncias. Café com sonhos, só aqueles feitos carinhosamente em Santo Antônio da Patrulha, os outros, tornam-se imediatamente indigestos.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O "Pré-Devaneio", de Tárik Matthes na Livraria Cultura


Caderno Kazuka (Zero Hora)
A editora AGE lança nesta sexta-feira (15), “Pré-Devaneio”, livro de estreia de Tárik Matthes, de apenas 16 anos,em sessão de autógrafos, na Livraria Cultura, a partir das 19h. Estudante do segundo ano, na escola Pastor Dohms e dono de uma vigorosa prosa poética, apesar da pouca idade Tarik diz que até o momento seu grande prêmio, era ler seus poemas aos “confrades”, os colegas de aula e amigos.

Agora, em 107 páginas, quer levar a um público maior suas primeiras constatações existenciais: “O amor pode não ser a vitória em marcha. Mas é o que dá nome à batalha”, onde sintetiza o pensamento de muitos outros jovens que fazem da rebeldia e contestação, típica da idade, o mais apropriado instrumento na busca do novo.

O jornalista e escritor José Francisco Botelho, afirma, no prefácio, que este livro de entrada no mercado editorial, “traz à tona um nome que certamente estará entre os mais instigantes e surpreendentes da cena literária. Prestem atenção, prestem muita atenção nesse rapaz”, aconselha. O trabalho de Tárik, igualmente recebeu o apoio do secretário da Cultura do RS, Assis Brasil, que elogiou a proposta que divide o trabalho entre a prosa e a poesia.

O que: lançamento do livro Pré-Devaneio, de Tárik Matthes.
Quando: 15 de junho.
Horário: a partir das 19h
Local: Mezanino da Livraria Cultura, Bourbon Shopping Country

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Um dedo atrevido no bolo de noiva

Tudo no seu devido lugar. A casa linda, os filhos criados, um carro sempre novo na garagem e um casamento muito próximo à perfeição. Férias no exterior, datas especiais sempre acompanhadas de mimos gentis e, na maioria das vezes, adornadas pelo brilho intenso de pedras preciosas. Bilhetes recomendando cuidados contra os excessos: os pães calóricos, os refrigerantes e as sobremesas. Ai! A volúpia do açúcar! Toda manhã, por volta das seis da manhã estão prontos para a caminhada. Em dias de chuva, ela quer mais alguns minutos na cama, mas ele, voluntarioso, a incentiva ao exercício na esteira defronte a imensa janela da sala, onde a chuva e o frio convidam à preguiça. É uma relação tão estreita, tão zelosa que chega a incomodar. E este sentimento – a chateação – é um voraz cupim em casamentos exemplares.

Na verdade, ela nunca questionara seu cotidiano. Nos últimos dias é que percebeu algo a roer-lhe por dentro. Mas não se atreveu a questionar a relação que vive. Um casamento de véu e grinalda no melhor estilo bolo de noiva, não merece, por exemplo, que algum aventureiro passe o dedo intruso só para lamber o glacê. Mas algo a leva a enjoar os confeitos de seu bolo amoroso. A casa cheia de zelosos lembretes do marido, dos filhos com suas agendas e dietas e mesmo assim, lhe falta algo. É bom, mas existe espaço para mais. “Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho (Eclesiastes 4:9-12). A citação bíblica, encontrada no blog de uma amiga, de certa maneira a ajudou a entender o que se passava.

Percebeu que vivia uma das fases mais complexas da vida conjugal: a mulher a desejar um parceiro eternamente romântico, e este voltado ao aconchego da família, que não a exclui, mas também não atende a outras tantas carências. Eram dois? Ou apenas um? Talvez por tudo isso, nos últimos dias, aquele antigo cliente tenha lhe chamado a atenção: primeiro pela semelhança com o marido no jeito família de ser, segundo por um detalhe que, a seu ver, faz toda a diferença: ele ainda escreve bilhetes românticos à esposa! Coisas simples – “estás linda hoje” – ou envia flores, sem motivos aparentes. Era pai, avô e principalmente, namorado da esposa, “a felizarda!”

Aos poucos, deixou-se levar por sonhos de muita luz, em noites onde se envolvia com um misterioso parceiro sem rosto, mas irresistível em afagos e palavras que nunca imaginara ouvir. Acordava tensa e abraçava o marido. Buscava o conforto de uma relação antiga. Mas essa já não passava de frios avisos em imãs na geladeira, caminhadas saudáveis e carinhos fugazes, ralos, não raros. Transferia o calor de seus desejos a outros mundos, onde não importava mais ser invasora ou coadjuvante. E a partir daí, conquistou dias de súbita euforia e excitação. E deu início a uma aventura de onde nunca se retorna igual, seja para o bem, ou mal. O parceiro amoroso do sonho ganhava contornos...

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Camuflagem

Um louva-a-deus encostou na manta e camuflou-se na tentativa de pegar insetos. Impressiona a alta capacidade de camuflagem - mesmo em um tecido multicolorido.

Conheço gente que tem medo do bichinho. Mas ele é inofensivo. Mais do que isso, é um parceiro muito útil de jardineiros, pois devora moscas e outras pragas que destroem canteiros de flores e hortas.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A região carbonífera e uma história a ser preservada

Alexsandro, diretor do Museu e Tárik 
No início do ano estivemos, eu e meu filho Tárik, no Museu Estadual do Carvão, em Arroio dos Ratos. Fomos muito bem recebidos pelo diretor daquele espaço, Alexsandro Witkowski, que nos apresentou o acervo ali preservado e lamentavelmente,  muito pouco valorizado até mesmo pela comunidade local.

Alexsandro sabe que é um espaço nobre e de grande valor para a história do município. Pode e deve ser melhor aproveitado. Quem sabe, no futuro, não se torna mais uma alternativa turística? Uma fonte de recursos para um município que enfrenta sérios problemas na geração de empregos. Para isso, o trabalho de Alexsandro precisa de apoiares, gente que garanta recursos aos projetos que, são muitos, e motivam o diretor a seguir em frente.

Na semana passada, ele enviou e-mail  para anunciar o espaço virtual do Museu, no Facebook http://facebook.com/museuestadualdocarvao .Vale a pena conferir. E repasso a meus amigos. Eu pessoalmente, vejo no Museu um lugar especial para eventos culturais de toda natureza. Concertos de música erudita e popular, encontros de literatura, exposições de obras de arte, fotografias. 

Quando de passagem pela região Carbonífera, não vamos esquecer de que, por lá, existe este simpático (e bonito) espaço esperando por visitantes. O sempre disposto Alexsandro - um verdadeiro apaixonado pela história do Museu -  vai recebe-los com a atenção típica dos que valorizam o passado como exemplo para um futuro melhor. 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Luz misteriosa no céu da madrugada

Tinha uma luz vermelha no céu - estava lá, fixa entre a névoa e imaginação de quem, assim como eu, levanta na madrugada para trabalhar. Acabou destaque na rádio Gaúcha, em Porto Alegre. Seriam ETs? Estrelas nervosas? Efeito estufa? O fim dos tempos?

Por precaução me tranquei em casa, sorvendo um chimarrão sem roncar a cuia - todo cuidado é pouco -  enquanto aprontava minhas análises de mídia. No creo, pero...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Fábula de outono para moças casadoiras

Metafísica ou...
Uma taça de vinho, um pote com frutas picadas e chocolate em lascas. Era um dos primeiros dias da estação e imaginou que assim enfrentaria melhor o frio. Abriu as janelas, o sol nosso de cada dia poderia rarear a partir de agora. Precisava aproveitar todas as horas de luz. Outono é sempre meio esquisito. Um amargo-doce, feitos os petiscos na mesa a dividir espaço com um vaso sem flores. Volta e meia caía em uma discreta melancolia. Ligava para as amigas. Queria assunto. E lá vinha algum tipo de programa que incluía passeio em van, para alguma cidadezinha na Serra ou shopping em Porto Alegre.

Nestes períodos pensava em inscrever-se em curso com abordagem metafísica, queria ir além da matéria, dar mais sentido ao relógio que travava o tempo em algumas estações. Era nesta época do ano, cheia de roupas, pães e caldos que relembrava o marido. Ele partira vítima de acidente de trânsito fazia já algum tempo. Não tiveram filhos, e as memórias eram suas parceiras. Lembra aquela tarde fatal. Descia do carro – não era a sua hora – para assistir a uma camionete desgovernada, dirigida por um motorista embriagado, encurtar sua melhor experiência de vida a dois.

Haviam se passado cinco anos. E somente no mês passado sentiu-se atraída por alguém. Foi algo assim, sem intenção. Ela pedira um café expresso e lhe serviram um cremoso capuccino. Na mesa ao lado, um senhor recebia o seu expresso. Desfeita a confusão, foi elogiada por estar lendo poesia em pleno século 21. “Liberdade na vida é ter um amor pra se prender”, citou ele, confessando ter “roubado” a frase do poeta Fabrício Carpinejar, em um caderno da filha mais nova.

A conversa durou alguns minutos ali, outros minutos, por e-mail, e, nos dias seguintes, algumas horas de prosa. Em tímidos e fracionados encontros, souberam o suficiente para afastar riscos. Solitários, ele com filhos, ela com lembranças. Equilibrados, bem resolvidos e quem sabe prontos para algo novo. Mesmo assim, fazia já uma semana que não atendia as ligações dele. E os perigos dessa vida? Estava satisfeita assim. No frio, um bom edredom lhe aquecia o corpo. Ao levar a taça aos lábios – para o primeiro gole do vinho citado na abertura deste texto – ouviu o toque discreto na campainha.

Não esperava ninguém muito menos ele que, educadamente, pediu para entrar. A sala do pequeno apartamento, em tons pastéis, reduziu-se a uma concha apertadinha depois daquele primeiro beijo macio, mas com muita “pegada”, como gostava de dizer. Às suas costas ouviu o ruído de papel celofane amassando-se. Enquanto a abraçava, ele coloca um botão de rosa vermelha no vaso. Naquele final de semana, não teve passeio de van com as amigas, nem qualquer proposição metafísica. Mas no sábado seguinte, houve o anúncio oficial do namoro. Que festejou o amargo-doce outonal, muito parecido com a vida real. Aliás, aquilo era a vida real.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Síndrome da Pequena Sereia

Imagem da Pequena Sereia na Dinamarca
No verão ela saracoteou no litoral – de Torres a Punta Del Este – com a mesma desenvoltura da Pequena Sereia do conto de Hans Christian Andersen. Bronzeou-se, exibiu o corpo bem cuidado, permaneceu imune aos candidatos a príncipe e ao final do veraneio torceu para transformar-se em espuma do mar, como reza a história das sereias. Mas o que aconteceu? Pouco a pouco, embora o calor deste março passado, foi perdendo o tom dourado, enquanto os dias mais curtos apressavam as noites e, com elas, algumas madrugadas de terrível insônia. O problema não era nem o dormir. Mas os pensamentos nestas horas. Culpas e carências batendo à porta, acelerando o ritmo cardíaco.

Definitivamente, a Pequena Sereia não se transformara em bolhas que retornariam apenas na próxima temporada. Estava lá, viva a estranhar uma solidão que não parecia incomodar em outonos passados. “Estou envelhecendo da pior maneira”, disse, sem muita convicção, porque afinal o espelho revelava um ar juvenil e saudável. Mas as folhas secas, caindo no pátio do condomínio lhe enviavam uma mensagem que ainda não conseguia decifrar. O inverno estava próximo, havia se preparado para isso. Reservas em bons hotéis na Serra, uma viagem ao Nordeste, onde é sempre quente e a sereia quem sabe, ressurgiria por alguns dias. Mesmo assim lhe parecia que não era tudo.

Conversou com uma amiga e arrependeu-se de ter uma confidente sem miolos. “Está te faltando homem!” Como assim? Era uma divorciada feliz! Aprendera a conviver de forma independente, sem vínculos. Ela, e os filhos que, neste ano, estavam no exterior em cursos de pós-graduação. Seria isso? Com certeza não. Com eles conversava quase que diariamente. Estava realizada ao vê-los independentes. Amores? Lembrou que saíra com um amigo que no início de fevereiro quase virou namorado. Mas o enjoo pelo recomeço a fez recuar. Enfrentara anos de adversidade criando filhos, trabalhando duro, sem apoio nas horas de crise e sem calor nos dias de frio.

Não reclamava de nada, nem guardava mágoas do ex-marido, um "simpático cafajeste", como definia. Essa atitude até facilitava sua relação com o universo masculino. Era um escudo contra mancadas. E foi numa dessas madrugadas, na disputa entre a sereia e a mulher, que percebeu ser vítima da força instintiva que a empurrava a disposição por algum tipo de parceria. Mas igual à sereia do conto, ao virar espuma, ainda no verão, conquistara o direito a uma espécie de purificação por bom comportamento e atitude madura diante da vida.

E esta conquistas ainda sob o sol do verão, lhe iluminara a força da razão e lhe permitia pensar com equilíbrio. Domava, nas noites insones, a fera carente. E pensar levava a reflexão que, de uma forma bem racional, aliviava a dor e permitia discernimento para escapar das soluções fáceis, como a sugerida pela amiga, prisioneira do falso canto das sereias. Uma mulher verdadeira – de corpo e alma – nunca está só. E se, por ventura, surge alguém, uma paixão, essa nunca ocupa um espaço vago, cria outro, “novo e muito bem administrado”, garante.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O marceneiro e a executiva

Os olhos estavam cansados daquela paisagem. Lá no fundo, bem ao fundo, alguém acenava. Uma mão solta no ar, quase sem corpo, desfocada contra a luz do sol. A semana começara difícil. Pensou em ligar para o marido. Três dias distante. Três dias sem trocar uma idéia, sem carinho. Quem a observasse naquele momento pensaria que rezava, em voz baixa. Olhar sério, compenetrado. Mas era a luz do sol que interferia no horizonte e reduzia a definição da vista já cansada. Sinal da idade e da teimosia em não consultar um oftalmologista. Virou-se de costas para a luz para retomar a caminhada. Era seu melhor momento nas constantes viagens à trabalho que lhe cansavam enjôo.

Pior, passaria o final de semana sozinha. Alguns contratos precisavam ser revisados e os clientes insistiram para uma reunião no sábado ao meio-dia. “Esses caras não tem família?” Mas ela ainda era a renda mais alta da família. Em casa, os filhos já adultos estavam independentes, mas o esposo remava contra a maré imposta por rendimentos baixos. Pequeno empresário no Brasil é escravo de muitos patrões e vitima da sede por impostos dos governos e das instabilidades de mercado. Sozinha, às vezes desconfiava que ele – talvez cansado dessa diferença – buscasse casos extraconjugais para “sentir-se mais macho, já que no salário perdia”, sem dar-se conta do preconceito que alimentava.

Seria fácil. Ele sempre em viagens de negócios ele, em função da atividade que exercia, atendia uma mulherada imensa. Era marceneiro, e dos bons! Produzia peças para artesanato. Mas não, não cometeria tal desatino. Lembrou a italiana sem graça que encomendara 30 coelhinhos para uma feira de Páscoa, em Canoas. “Coisa simples”, dissera o marido, não fosse a grande quantidade de outras encomendas, para tantas outras clientes. E a italiana, um coroa bonitona nos seus quase 50, era a favorita dele. Vá lá, ela consumia muito. Mas detestava quando chegava com sotaque forte e gestos largos para elogiar, repetidas vezes, as virtudes do esposo. “Ai tem...” pensava, embora garantisse ser apenas uma boa cliente. Nada mais.

Longe de casa, em Florianópolis, em um bom hotel, cercada de executivos de grandes empresas, bem resolvidos financeiramente e cheios de disposição para uma aventura instantânea, e ainda preocupava-se como marido, que vivia situação muito diferente. O pobre deveria estar, naquele exato momento no atelier, trabalhando, bem escondido em uma rua simples, sem charme, sem paisagem bonita, na distante zona norte de Porto Alegre. “Nem barba ele faz, quando não estou. Mas fica muito charmoso,” pensou, ao lembrar os pelos eriçados a lhe arrepia a pele sensível.

Quem sabe não estava na hora dela mesma acrescentar emoção a rotina de sua vida? Aquele diretor da empresa concorrente lhe sugerira um vinho. Sem compromisso. Quebrar o gelo, trocar idéias de trabalho. “Sei...” Em casa, o maridão entalhando coelhinhos e ela, solitária, carente, insatisfeita. Arrependeu-se na hora. O sol era só uma mancha no céu bem limpo e aquela visão distante – a da mão que acenava – ganhava forma, embora ainda imprecisa.

“Pára de pensar bobagens, guria”, disse para si mesma. Ligou para o marido. Conferir é prevenir, sentenciou. Chamou, chamou. E nada! Muitos minutos depois, um funcionário atendeu. O marido fora entregar encomendas. Uma delas para a tal artesã italiana.

O sangue ferveu de tal maneira que a paisagem paradisíaca da beira-mar ganhou os tons vermelha do ódio que a cegou ainda mais. Então era isso: uma entrega especial. E para ela, nem um telefonema de boa noite? Homens! “E eu boba, insisti para ele fazer aquela dieta. Agora perdeu uns quilinhos e já se sente um galã!” Ao mesmo tempo, a imagem desfocada que antes parecia lhe acenar, ganhava forma. Vinha em sua direção. Era um homem. E se fosse bonito, adeus, boa moça!

Quando a imagem ganhou definição, a poucos metros de seus incrédulos olhos, um novo choque: com um sorriso imenso e familiar, camiseta, jeans muito surrado e a barba – aquela barba por fazer – ali estava ele. Não o provável amante, mas o marido, seu marceneiro a lhe fazer uma surpresa. A primeira em tantos anos e com certeza, vinda na hora certa. 

Depois do abraço, do beijo cheio de culpa e saudade, soube que ele decidira por uma folga “Vim dar uma incerta”, brincou.  Só não contou que a passagem fora adquirida graças ao empréstimo de uma cliente. Isso mesmo, a italiana. Ela não entenderia.    

sábado, 24 de março de 2012

Contrição e festa

Coelhinhos, cestas de vime, ovos coloridos. É tempo de Páscoa, outra vez. As datas festivas se repetem quase instantaneamente. O Natal passou, ficaram as dívidas parceladas no cartão. A criatividade é saber evitar o conflito entre prestações natalinas com outros tantos feriados e datas especiais. “É tudo despesa”, argumentou a jovem mãe a reclamar dos altos preços, enquanto passava por um daqueles “túneis” de confeitos que os supermercados organizam. E aí vem aquele discurso contra o mundo material, que não valoriza a verdadeira mensagem de cada uma dessas datas.

Por experiência própria, ouvia atentamente o que dizia minha mãe sobre o significado da Páscoa para judeus e cristãos. Achava tudo muito bonito, mas esperava ansioso pelo ninho, no domingo, que meu pai escondia sempre em algum lugar diferente. A alegria das crianças está nas cores, no aroma e sabor de tanta guloseima. E associar ovos coloridos e coelhos, com a fé, passa a ser missão para familiares e professores. Cristãos celebram a ressureição, judeus, a libertação e comerciantes, as vendas. Ainda terão pela frente as datas das mães, dos pais e dos namorados.

Uma amiga, que participa destas feiras de artesanato, afirma que a Páscoa é especialmente boa porque facilita o comércio de produtos manufaturados. Cestos, envelopes, bonecos, doces e chocolates (embora o calor a derreter ovos e coelhos). A Semana Santa, que antecede a comilança, em tese seria de contrição e jejum. Mas tudo acaba em banquetes caseiros. E aí? Vamos condenar esse povo?

É chance das feiras municipais literalmente “venderem seu peixe”, muitos integrando cooperativas de piscicultores que oferecerão carpas, tilápias e outros peixes de água doce que não têm o mesmo espaço e preferência, se comparados aos que vêm do mar. Amigos e familiares estarão reunidos. E isso, em tempos de tanta desagregação, já é uma grande vantagem, neste mundo velho de tantos ódios, tanto isolamento, apesar dos magníficos novos espaços virtuais.

Confesso que eu sofria quando era obrigado a ficar só ouvindo música erudita, réquiens cheios de dor infinita naqueles tempos. Hoje, podemos dedicar algumas horas, minutos, para a meditação, mas não vamos deixar de celebrar a capacidade humana de renascer para o bem viver. Apesar de tudo. É uma forma de entender a Quaresma.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Chico Anysio e a derradeira piada


É sempre assim, nas derradeiras horas acabamos sós. Mesmo cercados de amigos, familiares, carpideiras, admiradores. A coisa é entre nós e o chefe maior deste escritório existencial. Ou entre nossa própria contabilidade e os impostos que ainda precisam ser debitados. E quites, improvisamos o derradeiro ato, com um último suspiro.

Eu sinto o passamento de Chico Anísio assim – pendências zeradas – criou um último e definitivo personagem. E por mais melancólico que seja tal momento, reserva sempre uma lembrança feliz, como a gargalha gentil daqueles que se formaram em uma escolinha cujo professor era Raimundo. E o salário ó...

quinta-feira, 15 de março de 2012

Na chuva real, amigos digitais

Choveu como poucas vezes havia visto em Porto Alegre. Água a transformar ruas em rios sujos, carregando o relaxamento dos cidadãos que sempre reclamam dos serviços públicos e pouco fazem por sua cidade. Bueiros e bocas-de-lobo vomitavam pedaços de cadeiras, ratos vivos, e dezenas de quinquilharias jogadas fora. Pior, motoristas ansiosos, mal-educados, ensopavam dezenas de pessoas com essas águas. Cenas lamentáveis! Ilhado a duas quadras de meu escritório, na manhã de quarta-feira, desisti da experiência náutica e, de dentro do meu carro, esperei por cerca de uma hora o movimento angustiado das pessoas.

Em uma esquina, acompanhei a cena do rapaz que correu para a marquise. A água apertava o cerco, com a calçada transformada em piscina. Ali, havia outra pessoa. Uma jovem também. Encharcada dos pés a cabeça. Nem se olharam. Ambos estavam atentos a seus telefones móveis. Conectados, certamente, nas redes sociais. Ele fotografou meu carro, inclusive e vi que distribuía a imagem para seu grupo de amigos. No mundo virtual passamos a ter muitos amigos e seguidores. Coisa fina!

O tempo foi passando, a chuva cedeu, mas as poças permaneciam irredutíveis. Pouco antes de eu retomar meu caminho, vi que o jovem olhou para a moça com mais atenção. A analisou de cima abaixo e fixou-se no rosto, realmente bonito. Ela percebeu, ficou meu sem jeito. Mas não se animava a sair dali. O jovem voltou ao celular e tanto botão apertou que achou o que buscava. Abri o vidro, abaixei o volume do rádio, para ouvir o que ele diria a ela. Mas voltou ao celular e digitou alguma coisa. Ela riu. Ele também. Eram “amigos” no rede social, mas não se conheciam. Um sabia da existência do outro através de uma ou outra frase curta. E precisou o céu desabar para se conhecerem no mundo real.

Eu "curto" Facebook, ou um blog, onde as idéias podem ser trabalhadas e assim, conquistar “seguidores” como em uma seita cibernética maluca. Mas nada substitui o contato natural. Oho no olho. Ele estendeu a mão, saíram aos pulos entre as poças e ainda me acenaram. Éramos parceiros no infortúnio. E quem sabe daquele encontro, não role um namoro. Ou pelo menos uma lição sobre o significado de uma amizade, a disposição de "seguir" alguém. Estaremos sendo guiados, por gente tipo faz-de-conta, semelhantes aos amigos imaginários da primeira infância. Conexões via satélite podemos deixar para ajudar a localizr eventos, ou o trabalho, com mapas online e GPS, serviços úteis que nos ajudam toda a vez que decidimos “sair para ver gente!”

quinta-feira, 8 de março de 2012

Todas as mulheres do mundo

Flores, bombons, homenagens oficiais, discursos e artigos em jornais. Tanto se fala a cada 8 de março, Dia Internacional da Mulher, que me sinto repetitivo – especialmente eu, que muito escrevi sobre esta data, para gente que assessorei como jornalista. Tenho medo de que acabe feito o Natal, onde tudo é um blá-blá-blá a respeito da paz entre os povos e o que se vê é a correria desorganizada ao consumismo exacerbado. Não podemos esquecer a origem deste dia 8: enfrentar a brutalidade do preconceito contra a condição feminina.
Como homens podem se voltar contra o útero que os abrigou? Não existe inferioridade na delicadeza.

Cresci em uma família de trato respeitoso entre homens e mulheres. Lembro de meu avô materno, que não sabia fritar um ovo, jamais servira o próprio café ,e como isso irritava minha mãe, que o chamava de machista. Talvez estivesse certa, mas acredito que o problema não estava ali. Ele, provedor, ela, do lar. Caso minha avó resolvesse trabalhar fora de casa, quem cuidaria dos filhos? Creche naqueles tempos era coisa rara. Talvez economicamente não fosse bom. A libertação de um gênero não está apenas na fuga do estereótipo, mas na construção de uma convivência de respeito e equilíbrio.

A vida sofrida, a rotina entre as panelas de minha avó, ou em meio ao pó de chumbo, como fazia meu avô na antiga gráfica, era compensada pela relação absolutamente equilibrada entre eles. Cada um atento a seu espaço. Eu os via resolvendo atritos com diálogo e uma sábia aplicação da tolerância. Jamais assisti um a constranger o outro. Quando ele aposentou-se, continuou a trabalhar, a grana era curta. A situação de minha avó era pior, sem aposentadoria remunerada - aí sim, a discriminação - não poderia parar. Eu a ouvia resmungar que as mulheres que não saíam de casa eram tratadas como um bicho de estimação. Ou pior. “Escravas!” bradava. “Mas tenho culpa de gostar do que faço?”

E usava como exemplo minha tia, sua irmã mais nova, que sempre trabalhara em escritórios e teria direito à aposentadoria. Mal sabia minha avó que esta sofria a ver homens trabalhando menos e ganhando mais. Cargos de chefia? Nem pensar. Ou seja, se é para lembrar este dia, que seja para exigir melhores salários e jornada de trabalho compatível. Seja em casa, administrando o lar; ou como profissional, assumindo com inegável responsabilidade e competência tudo o que faz. Acho que é isso.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Ressaca, abstinência de coisas boas

O que é ressaca afinal? É uma espécie de síndrome de abstinência dos excessos que sacrificaram o pobre fígado em seu exaustivo trabalho de filtragem. É o pedido por mais um gole para reiniciar o que fora tão intenso anteriormente. Na vida afetiva é mais ou menos assim também. Os amores, por exemplo, quando acabam, deixam aquele vazio horrível. Você pode ser um pote até aqui de mágoas que, mesmo assim, bate a depressão, a vontade de repetir, querer mais e por isso mesmo muitos trocam apenas as embalagens e caem de novo na volúpia das paixões. Se vai acabar em amor, relação estável é outra coisa, precisam alimentar o vício.

Ao conversar com uma colega de trabalho, ouvi que ela não conseguia dormir direito desde que voltou de Salvador, na Bahia, onde passara o Carnaval. A folia cansa, mas vicia. A rotina de festa, mar e muitos aperitivos cria uma espécie de dependência. E a realidade é bem diferente. O chope de qualquer hora, viva a “hora alegre” do final da tarde. E peixinhos fritos, pescados ali, na sua frente, se tornam impossíveis por essas bandas gaudérias. Férias viciam. Assim como o trabalho, quando feito em ambiente acolhedor, na função que se gosta de verdade, também vira uma cachaça. Quantos aposentados acabam morrendo por abstinência de cartão-ponto? Estavam lá, entre o banco da praça e as mil pílulas da sobrevivência e pimba! Juntaram os pezinhos sem dar um único adeus no escritório.

Uma amiga, ao divorciar-se de um grande mala, mesmo assim, por um lado aliviada, por outro, enfrentou brutal depressão. “Como acabou?” Ela não conseguia conformar-se com a nova condição. Queria o sujeito irresponsável, inconsequente e totalmente desinteressado porque simplesmente ele ainda habitava sua rede afetiva. Vivia a ressaca de um grande porre dividido a dois. Hoje está por aí, recuperada, de namorado novo e espero, desta vez, menos dependente. Apaixonada, sim. Mas com firmeza, amor próprio em primeiro lugar para não cair nos exageros escravagistas que tornam um verdadeiro porre qualquer relação.

Este será o primeiro final de semana pós-temporada oficial de veraneio para a grande maioria dos brasileiros. Eu sei que meus leitores não têm nada a ver com a minha vida privada. Mas divido essa pequena alegria: esta será, depois de quase quatro anos juntos, nossa primeira ida – não a trabalho – à praia para um final de semana. E não somos infelizes, nem nos desgastamos com picuinhas e culpas. O trabalho, a obrigação que dá sustento financeiro à vida a dois está em primeiro lugar. Depois, o prazer da folga. O lado positivo é que fizemos de nossa casa um lar. Nos finais de semana, sempre curtimos amigos, familiares ou, principalmente, ficamos a sós, como se estivéssemos isolados em uma pousada caseira, lá nos confins.

Uma relação franca e bem resolvida é a melhor vacina contra a mesmice cotidiana. Dias desses ouvi uma música sertaneja, da dupla Lucas e Luan (que nem sei se são famosos), que com simplicidade cantava um refrão feito na medida para o tema desta crônica “Eu acordo com ressaca de amor. Eu acordo com seu gosto em mim. Cada dia um recomeço, Um amor que não tem fim…” Simplório?

Chegar ao ponto de uma ressaca abençoada faz de qualquer dia, qualquer lugar, ser perfeito para enfrentar a vida e suas adversidades, que não nos deixam ressaca, apenas dor, quando não são combatidas de frente. Bom final de semana para todos e, se na segunda-feira bater uma ressaca deste tipo, cure-a com mais energia e amor. Vale a pena!