terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Outra fábula de Natal



Tudo vai mudar.
Faça uma luz se acender.
Basta você pensar
e fazer por merecer.
Inspire profundamente,
embriague-se de cor,
imagine intensamente
que o mundo é paz, luz e amor.
Se é o que deseja,
o que o coração almeja,
siga feliz, pois,
que assim seja!
(Léa Aragón)






Olhou em volta e percebeu que não poderia ir mais à frente. Todas as propostas de trabalho haviam sumido repentinamente. A aposentadoria típica de um brasileira comum, sem supersalários, sem poupanças no exterior, lhe permitia apenas  pagar o aluguel, luz, água e a cesta básica, sem muitas excentricidades. Excelente profissional, estava habituada com o trabalho de free-lancer. Mas as oportunidades, andavam.escassas. Todas as atividades remuneradas - de uma hora para outra -, passaram a ser transferidas para o próximo ano ou definitivamente canceladas.  E o cheque especial estourado no banco. As dívidas apertando, estrangulando... 


Saía da agência bancária, onde pagara o aluguel. Sim, olhava em volta e tudo o que via era a nuvem úmida de lágrimas sem perspectivas. E foi no no ápice do desespero que percebeu, vindo na direção contrária, uma ex-colega. Abraçaram-se e quando a outra perguntou como andava a vida, desabou! Que vida? Não suportava mais a pressão do cotidiano. Sempre fora uma guerreira declarada. Exemplo de sobrevivência, agora queria sua cota de sossego. Será que seria assim até o fim? Fizera tudo errado? Não tinha mais energia para tanto revés, afirmava desabando nos ombros da amiga. 


As duas nunca se cruzavam embora vivessem próximas. Mas aquele momento fora decisivo para acionar uma corrente imediata de solidariedade. Sensibilizada, a amiga chegou ao trabalho e comentou a situação. Todos também, em suas maioria, eram ex-colegas daquela que passava por seu momento difícil. Em questão de minutos mobilizaram uma corrente de ajuda. Arrecadaram uma quantia razoável, produziram um imenso cartão de Natal carregado em mensagens de apoio e na segunda-feira passada, o entregaram. 


Ela que se achava isolada, sem ter a quem recorrer, de uma hora para outra, tinha a certeza de  não estar sozinha. De que a vida não é fácil, é injusta em muitos momentos, mas também é feita de afeto e reconhecimento. Todos ali, de uma forma ou outra haviam se colocado no lugar da sofrida colega. Alguns nem a conheciam, mas sabiam que acendiam, em um momento muito especial, a luz bonita do espírito natalino.


Essa luz é simbolizada por uma  manjedoura para cristãos e para o resto da humanidade, seja qual for a orientação religiosa, de centelhas de amor ao próximo. Presente bom é esse que ofertamos sem pensar em nada em troca a não ser a renovação da fé. 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A arte de devorar um lobo bobo


(Alguém conhece o autor da bela ilustração?)
O personagem deste artigo é notório mulherengo. Veterano, não toma jeito. Noite sim, noite não, fareja vítimas em bares de solteiros ou botecos comuns. Às tardes, costuma circular em shoppings. Lobo urbano, seduz senhoras carentes, balzaquianas enjoadas da imaturidade dos homens jovens. A maioria acaba engolida pelo tiozão igualmente imaturo. Ele as devolve  amarrotadas, saciadas ao estilo fast food emocional. Recentemente perdeu a terceira e, pelo jeito, última esposa. “Ou tu muda, ou vou-me embora”, exigiu a mulher. Para manter a fama de mau, não pensou duas vezes: “Pode ir. Leva o que quiser contigo”. E saiu rumo a ilusão da madrugada.



Voltou no dia seguinte certo de que a encontraria aos prantos, a espera de romântica reconciliação e levou o maior susto ao deparar-se com a casa vazia. Peça por peça, só tinha o eco de seus passos como trilha sonora do inesperado adeus. Ela o aguardava no quarto vazio. Abalado, tentou manter a fama de mau e ao olhar para o teto, ironizou. “Não tiraste o ventilador de teto. Esqueceu?” No mesmo dia, lá se ia o ventilador.



“Só as prestações ficaram comigo”, comentou abatido aos mais chegados. A ex era uma mulher de posses. “Mas o prazer da vingança foi maior do que a razão” calculou o lobo acuado.  Sem outra opção, alugou apartamento de um quarto no centro de Porto Alegre. A lareira de ferro que a ex não conseguira retirar ele presenteou ao irmão e esposa, que poderiam utilizá-la na casa da campo. Ora, a ex era super amiga da esposa de seu mano e assim, um belo dia, após um churrasco, percebeu a lareira jogada a um canto da garagem. Acabou levando o  único objeto que não conseguira tirar. E aliviou a amiga de uma tralha inútil.


Mas um lobo bobo, como diz a canção, não aprende. Volta e meia, a ex propõe um jantar a luz de velas e ele aceita! A pele é fraca eu sei, mas cá entre nós: o lobo que se acha esperto, era  o único “utensílio” do antigo lar que não poderia levar consigo. Mas quem disse que não poderia ser utilizado? De preferência sem pudor. A diferença é que nestes encontros, no lugar do lobo agressivo, ela encontra um cordeirinho dócil e obediente, com medo de perder o que não tem.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Doce melancolia de uma noite feliz


Natal é assim: quanto mais próximo do dia 25, mais reminiscências provoca e com elas, um sentimento melancólico que deve ser assumido, nunca maquiado. O verdadeiro “espírito natalino” não significa esconder a tristeza mas sim enfrentá-la com dignidade. Se existe algo que me contagia positivamente é a agitação da cidade, a expectativa das crianças e também dos adultos em função na troca de presentes, por mais singelos que estes possam  ser. A sabedoria reside exatamente  no viver esta contraditória e perfeitamente possível “alegria melancólica”. 

Não conheço nada mais morno do que a canção “Noite Feliz” em seu compasso compungido e lento. Mas emociona, não é mesmo? Assim, ao assumirmos nossa melancolia natalina nos livramos da culpa de não ser sermos “felizes” como exigem todos. Se bater a saudade dos que partiram, ora,  isso é perfeitamente normal. Errado é disfarçar com sorrisos artificiais. Vai precisar aturar a nora ingrata e a sogra rabugenta? É Natal, confraternize e acredite, as horas passam mais rapidamente quando estamos nos divertindo. A tortura do rancor, da cara amarrada só faz mal.

Lágrima benta

E se na hora dos abraços, a meia-noite, escapar uma lágrima, por favor, vamos deixar que ela lave a tristeza como uma água benta que nos unge a alma de perdão. E aceitemos nossa melancolia como a prova mais definitiva do amor que nutrimos pelos que nos cercam ou um dia estiveram materialmente próximos a nós. Eu com certeza lembrarei o sorriso dos meus avós enquanto escondiam o presente dos netos até o último minuto e conseguiam fazer com que surgissem quase que magicamente debaixo da árvore de Natal sem que a criançada percebesse.

Como esquecer meu pai suando debaixo da barba de lã e de uma pesada fantasia vermelha que o transformavam em asfixiado Noel tropical. Nem ele, nem meus avós estão mais entre nós, assim como tantos outros familiares queridos. São uma melancólica lembrança que brindarei feliz por um dia ter dividido sorrisos e abraços em tantos natais.

Agradecerei a Deus pela graça de ainda estar aqui, ao lado dos que continuam sua missão terrena. Na verdade, aqueles que amamos, nunca nos abandonam, permanecem juntos, brindando conosco, vivos nas memórias que enfeitam a árvore da vida. O Natal é melancólico? Sim senhores, é melancólico, lindamentamente melancólico para quem não foge de sua missão, de sua própria história e a escreve com as linhas da fé, do amor e da capacidade de construir momentos felizes a partir destes sentimentos.

Triste mesmo é enfrentar as filas nas lojas, o olho vivo dos ladrões oportunistas nas ruas atulhadas de gente. Mas tudo bem, o maior presente é ter quem leia esse post e se identifique um pouco com ele.  

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O bom velhinho

(artigo publicado em dezembro de 2005, na coluna do Zambiasi no jornal Diário Gaúcho de Porto Alegre. O texto conta uma história verídica, exemplo do verdadeiro espírito de Natal)

E lá vinha o “seu” Áureo pela rua, alisando a vasta barba, enquanto pensava em como equilibrar a aposentadoria curta com as compras de final de ano. De repente percebe que um menino de aproximadamente cinco anos, o seguia de olhos fixos, ao lado do irmão um pouco mais velho. “Papai Noel?” Pergunta o menorzinho. O maior imediatamente retruca: “Pára com isso. Papai Noel não existe!”  Mas Áureo sorri e provoca: “Estou aqui disfarçado. Não contem prá ninguém”. Os guris, incrédulos, riem. Mas ele insiste:

Bob Esponja

“Quem te disse que eu não existo? E por acaso não estou bem aqui na tua frente?” Puxa do bolso uma lista com sugestões de presentes que, casualmente, sua mulher havia preparado pensando nos netos. “Estou recolhendo pedidos. O que vocês gostariam de ganhar? E o pequenino mais do que depressa responde: “O Bob Esponja”. O segundo, sempre mais arredio, murmura: “Queria que meu pai voltasse para casa. Mas mataram ele”, diz, comovendo o amigo Áureo. A mãe dos meninos trabalhava como doméstica e já havia alertado que não ganhariam presentes.

Peixe e solidariedade

“É claro, vocês não me pediram nada”, argumentou Áureo, já incorporado na figura do bom velhinho. Horas depois, acompanhado da esposa e amigos, visitou a casa desta viúva, que afinal de contas, era vizinha de bairro. Juntos, combinaram uma parceria na preparação de uma ceia igual a que o falecido pai deles gostava: com peixe assado, com farofa de passas, pão e frutas. Os guris que nem parentes tem em Porto Alegre, vibraram de alegria. “Acho sou Papai Noel mesmo. Aliás, qualquer um pode ser. Não precisa barba ou barrigão. A solidariedade é que faz a diferença”, aprendeu Áureo, um exemplo vivo do que é o espírito natalino.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Há 29 anos, um louco tirava a vida de John Lennon


13h – John e Yoko são entrevistados por Davin Sholin para a Rádio RKO de Nova York.
14h – Sessão de fotos com John e Yoko para a revista Rolling Stone.
16h – John e Yoko deixam o Dakota e vão para o estúdio Record Plant. John é interceptado por MDC que lhe pede um autógrafo na capa de “Double Fantasy”. O momento em que John assina o disco é fotografado por um fã.
22h50 – John e Yoko retornam ao edifício Dakota.
22h52 – Na entrada no pátio do Dakota, MDC aborda John e dispara cinco tiros em suas costas. John é amparado pelo porteiro e por policiais que chegam em poucos minutos. MDC é preso e confessa o crime (seria condenado à prisão perpétua). John é levado ao hospital no carro da polícia. Yoko, histérica, segue em outra viatura.
23h07 – John Lennon é declarado morto.

(fonte: The Beatles Diary)


Estávamos na redação da Folha da Tarde quando chegou a notícia: John Lennon não sobrevivera aos cinco traiçoeiros disparos de um maluco. Lembro a expressão de espanto e profunda tristeza de todos. As lágrimas. Eu e o Paulo Acosta, abraçados chorando. Não tinha como evitar. Doía muito. Éramos da família beatle que nos embalara nas horas difíceis de um Brasil em fase de abertura política. No dia anterior havíamos escutado o disco novo de Lennon, que abria com  (Just Like) Starting Over. Era o recomeço do ex-beatle, após cinco anos de isolamento.

Agora estava lá, morto às vésperas das festas de final de ano. Nova Iorque decorada, em cada esquina um Papai Noel, vitrines decoradas com muita luz enquanto ironicamente, o hino pacifista, Happy Xmas (War Is Over), composto por Lennon em 1969 e lançada em 1971 tocava direto nas rádios de lá, e de todo o mundo. Ainda hoje é fenômeno de vendas e considerada a canção símbolo do Natal no Ocidente.

Gente assim como Lennon, criativos e contraditórios fazem falta sim. Mas o sonho não acabou, como ele próprio sentenciara, deprimido, ao final da carreira com os parceiros Paul, George e Ringo. Canções magníficas de Lennon continuam vivas. Imagine, Woman, In My Life, Help! e tantas outras.

Seria bacana ele hoje, aos 67 anos. Quem sabe agitando ao lado dos demais sobreviventes da banda que transformou o rock and roll em algo mais do que um sacudir de quadris ao som de três acordes básicos. Um louco o impediu em um 8 de dezembro.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Pra não depender de azuis ou vermelhos, basta não amarelar


Os vermelhos dependiam dos azuis. Trágica situação, criada principalmente, por falhas vermelhas que, em momentos decisivos de rodadas anteriores, amarelou. Ok, os azuis também não podiam sair de casa, porque igualmente, amarelavam. Não conseguiam uma única vitória fora de casa. Não seria agora, que chegariam a recuperação.

Mesmo assim, a gurizada que foi ao Maracanã não fez feio. Fez muito pior! Quase venceu aquele time ferida do Flamengo. Meu colega, o Henrique Candor, gremista mais fanático do que eu, desenvolveu a tese de que o time reserva tem jogadores “amigos de baladas e churrascos”  no tradicional adversário vermelho. Queriam dar o título de presente... Mas pro inimigo?

Assim, entraram com tudo. Vencer e mostrar serviço! Mantido fosse o 1 a 0 ou empate, torcedores como o Henrique baniriam bandeiras, títulos de sócio e qualquer lembrança de azul em suas vidas. Perder tudo bem, ajudar o inimigo, nunca!

Eu fiquei em cima do muro. Amarelei? Não queria sofrer a flauta vermelha nos próximos meses. Especialmente de amigos como a dupla Gilberto e Henrique Jasper, que a foto do Itamar Aguiar mostra acima. Estavam ali felizes com o esforço tricolor. Com certeza, o Grêmio não entregou o jogo. Mais uma vez, amarelou. É isso!

Assim, a partir de agora, quero ver mais azul, preto e branco. Deixa o amarelo pro Inter (veja o carinho do torcedor vermelho por sua camisa amarela, na mesma foto). A Libertadores vem aí! E sinto um vento secador chegando lá das bandas da Azenha. Secar pode, né?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O que é moda, incomoda?


Ela entrou risonha, feliz. Dona de si. Buscava a sala de um fulano de tal. Vestia um legging tão justo que temíamos o pior quando curvou-se para buscar, em uma imensa bolsa, o celular que disparava uma música da  Madonna. Tudo a ver! Por sorte, aconteceu o melhor. Nada se rompeu e naquela sala, a moça permaneceu íntegra, os rapazes eriçados e as mulheres, lívidas! Falta de senso estético, de respeito era o que mais se cochichava. “Isso é roupa de happy-hour,  shopping. Passear com um namorado”, sentenciavam aflitas, sob a concordância cínica dos machos da sala.

“O que é moda não incomoda”, diziam os antigos. Mas a moda clássica dos anos 40 ou 50 - tecidos finos, folgados, super bem cortados - realmente não abalaria homem ou mulher alguma.  Aliás, as mulheres sempre se incomodam com a visão de outra mais chique. A frase: “Querida você está uma arraso!” tem a seguinte leitura: “Mocréia, você me deixou arrasada!” Depois revolução dos anos 60, a minissaia! Tudo se tornou mais liberado e doido. Hoje as tribos decidem o que vestir e ponto final.

Mas no ambiente de trabalho, é preciso uma certa moderação. Um amigo advogado precisou convencer o estagiário do escritório a usar algo menos agressivo que os bonés, as calças de fundilhos caídos, típicos do mais radical rapper. Um ótimo guri, mas o preconceito alheio estava afastando alguns clientes mais conservadores. Assim como a menina e sua roupa sexy, maravilhosa mas totalmente deslocada (ao ambiente, porque no corpo parecia perfeita), chamava muito a atenção.

Aliás, na semana passada recebi um DVD com um show-desfile da grife de urbanwear – roupa urbana -  da norte-americana G-Unit. O criador é um rapper, James Jackson III, o 50 Cent. Repasssei a um colega que é fã do estilo. Ele não estava muito afim, mas quando disse que as gurias desfilavam com trajes sumários e colados ao corpo, me arrancou o DVD das mãos. Moda, para nós homens, é sempre gostoso de se ver, especialmente na mulher dos outros. Com as nossas, sei lá, não cai muito bem.