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quarta-feira, 12 de julho de 2017

Democratas sonãmbulos

Sintonizar o rádio, ajustar a antena no melhor sinal digital é como abrir espaço para a pior em áudio e imagem. Não temos mais noticiários, temos séries diárias, com velhos e novos personagens em roteiros que viram rotina, mal escritos, explicados em rostos despidos de verdade. Quem de nós pensou que seria assim? Tanta renúncia, tanta voz perdida em discursos onde apenas permaneceram os murros aos céus. Hoje cada uma daquelas mãos fechadas desce para nos atingir na esperança. Não tenho mais bandeiras. Não me animo a dizer que um dia votei nesse ou naquele, porque me envergonha o voto que dei. Eu tenho uma vergonha alheia dos que defendem bandidos. O que é isso, companheiros?

Um certo romantismo revolucionário, como bem observa Fernando Gabeira no excelente “Democracia Tropical – Caderno de um aprendiz”, torna belo, mascara os desvios criminosos de quem se admirava. Eu que não tenho amigos para me emprestar um sítio, ou milhares de dólares para o custeio de advogados, paguei por meus enganos com juros e uma correção monetária e moral abusiva. Mas durmo em paz com minha consciência.

Em minha inocência olhava para as regiões carentes convencido de que lhes poderíamos levar cultura, educação, trabalho e amor próprio. Mas ajudamos aqueles a quem elegemos a fechar o círculo e, no inverso do esperado a repetir, de terno e gravata, o sistema brutal, individualista dos guetos.

O sistema corrompido ainda permitiu a formação de grupos bem arregimentados que se infiltravam em meio aos que nada tinham para perder e os educavam na arte do ódio, em ocupações em nome de movimentos sociais. E os parlamentos mudos, trocando votos por ouro, joias e contas no exterior.

Hoje sou vizinho de gente sem fé, sem disposição para nada que não venha de mão beijada, ou a força a qualquer hora, afinal “não dá nada”. E se me tirarem a vida por um celular velho, amanhã terá um mais novo na mão de um guri assustado. Se for preciso, morrerá também. Não ocupamos quem estava desocupado e eles se ocupam de nossa energia.

Cada partido, cada movimento, cada ação individual ou coletiva me parece estar contaminada com um vazio de propostas, de sinceridade. A imoralidade do Planalto contaminou a nação e hoje nos dividimos em siglas, em cotas, em codinomes. Somos filhos do insólito. A política virou uma armadilha.

A nossa missão, o nosso dever é desarmar essa armadilha, reunir as centelhas de indignação que ainda sobrevivem ali em seu espírito de cidadão e juntos formar novas lideranças. Eu falo aos que perderam familiares na guerra do crime, aos que perderam o direito a uma aposentadoria digna ou aqueles que jogaram fora a bandeira de seu partido. A culpa não está na ideologia, mas em quem a corrompe.

A novela em capítulos da Operação Lava Jato, só terá um final feliz, aquele que esperamos, se nos livrarmos daqueles que só pensam em lucrar, com a nossa infame alienação, a nossa incentivada ignorância e essa estúpida convicção de que se der tudo certo para mim, os outros que se lixem. Os outros, com certeza, é que nos lixam. Acordemos pois, ó brasileiros! Eu cansei desse sonambulismo.

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