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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Que a crise não seja calipígia


As duas reclamavam de tudo. Do som ensurdecer dos servidores estaduais da segurança, que realmente faziam uma grande muvuca no centro de Porto Alegre, do vento frio que acompanhava a chuva fina e dos pecados da estação. Olhavam-se no reflexo de um imensa janela de vidro,  só para repetir em coro que o inverno estava a destruir lhes a silhueta. “É muita massa”, constatou uma delas.  “Realmente, a massa está furiosa. Essa gente da área da segurança, quando não está acompanhando o protesto dos outros, também sabe fazer o maior bafo”, afirmou, após encolher o estômago e empinar o bumbum, que pelo volume, fora construído em invernos passados.

“Ao bafo? Fazer o que ao bafo? Estou precisando de comida sem gordura". O barulho não permitia que as moças se entendessem. Segundos depois, o sinal abriu e eu as perdi de vista em meio a multidão. O vidro da agência bancária que servira de espelho àquelas mulheres, agora refletia a correria da cidade e eu mesmo - ar cansado de final de tarde -, a refletir sobre o cotidiano agitado, tão farto de gente, e tão vazio de conteúdo.

Mas pensar na crise econômica brasileira, ou na situação da Grécia, sem filósofos ou deuses para resolver seu desiquilíbrio administrativo, não mudaria nada naquele momento. Aliás, os mitológicos deuses gregos sofriam das mesmas falhas de caráter dos mortais humanos. Hoje seriam perseguidos eternamente pelo FMI. Preocupar-se com o bumbum, senhores e senhoras, tem fundamento estético e filosófico, ora.

Até mesmo o grande pensador francês, Jean-Paul Sartre, disse certa vez que "a pátria, a honra, a liberdade, não existem. O universo gira em torno de um par de nádegas". Então, gurias, se a inflação devora, se o dinheiro está escasso, o Estado falido e o mundo nos olha atravessado, deixemos às mulheres, o prazer exibicionista deste olhar crítico a seus próprios dotes calipígios.

Com ou sem alimentos calóricos, dietas rigorosas ou longos exercícios. Nós, admiradores do belo, seja fofo, grande ou mignon, desde que macio, apoiamos este distraído auto-exame. Mesmo às pressas, aquele olhar fortuito à derriére, em meio ao caos urbano, nos reaviva a alma marota. Nos leva a crer que toda causa é tão justa, quanto toda calça feminina deveria ser.

Um comentário:

flávio Dutra disse...

Voto com o relator. Um calipígio bem torneado tem o seu valor.