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domingo, 24 de outubro de 2010

O fiador, o jornalista, o cozinheiro e um final feliz

Agora, neste exato momento, eu poderia estar sentado à beira do caminho. Triste. Virando uma página em branco, urso acordando da hibernação, abraçado no travesseiro da culpa. Poderia caprichar em um post desolado, perdido em auto-piedade. Eu, fiador de tantos sonhos, tantas fantasias, sempre com a estranha mania de pagar pela incapacidade de dizer não. Eu, a rugir uma fome que nunca sacia. Não sou assim, prefiro buscar novos ingredientes e acertar a mão na comilança da felicidade.

Bem que poderia chorar a incerteza do amanhã. Consolar-me com as mãos que se oferecem a uma carícia nunca totalmente gratuita. Em tempos de disputar votos, vejo amigos arrastando ideologias, como quem acende velas ao vento. Incorporam discursos – direita e esquerda – tão distantes e tão próximos em suas bandeiras desfraldadas a ocultar a  miséria das ruas, a ignorância. Sinceramente, este período está me deixando sem graça, tiririca da vida. 

Eu poderia abrir o voto. Cantar um hino de campanha. Quem sabe arrepender-me das propostas que recusei, das virtudes que neguei. E àqueles que me insultaram quando ousaram me medir com a régua rasa da sua própria mediocridade, bem que poderia ter-lhes respondido com o melhor de meu sarcasmo e neutralizar a humilhação imposta. Mas estes, eu os vejo solitários em sua trajetória anacrônica, mendigos de perspectivas.

Diante do espelho percebo que a dieta não engrena. Cuida-te, gordinho! Diante de tudo que acontece a minha volta, nem sei se terei trabalho na virada de ano. Meu advogado negocia o pagamento de uma dívida que afiancei. Vejam! Eu ainda sou o tipo que assina fianças! Mais uma vez, a decisão tomada pelo vil coração é assaltada pela crueza da realidade. Lição anotada.

Sim, eu poderia levar o urso de volta ao sono de um inverno que está de partida. Quem sabe soterrar a razão no fundo da mina abandonada e não voltar mais. Não me salvem! Mas tudo é muito maior. A atenção de um amigo na hora difícil, o amor macio de minha amada. A família doida de atar, mas sempre presente. Café com leite, feijão com arroz e aquela almôndega tão macia que somente a mãe sabe fazer. É isso que importa.

As madrugadas com seus fantasmas, afasto com um copa d'água e uma respirada funda do ar gelado do alvorecer. Em seguida, o café coado é a primeira lição de que muitas coisas sempre serão mais perfumadas do que gostosas. E assim se leva a vida. E a quero muito. Preciso cozinhar ainda para muitos outros bons amigos. Alguns tão próximos, outros mais distantes mas todos sempre bem-vindos a minha maturidade.

6 comentários:

Tárik disse...

Pai ! Por motivos como esse que você sempre vai ser o meu maior ídolo. Abração !

Ari Teixeira disse...

A modéstia não me impedirá de concordar contigo, amado filho. Nós somos ótimos!

Caren Mello disse...

Ídolo de muitos outros, Tárik. Um dia, sei lá se ele chegará, um dia quero escrever a quinta parte do que o Arizinho escreve. Aliás, a sexta já me sossegaria um pouco.

Gilberto disse...

Lamentavelmente o mundo e a glória nem sempre são conquistas dos bons, competentes ou íntegros. No mundo que vale a pena - dos decentes e desprovidos de interesses meramente mundanos - és um diferencial. Para teus amigos - uma legião! - és um farol a nos iluminar permanentemente através da ética, da paciência e da retidão que pautam teu comportamento pessoal e profissional. Uma pena o cotidiano valorizar tanto o TER em detrimento do SER... Fazer o que? Mas nós, teimosos da carteirinha ilustrada por valores 'imexíveis', torceremos sempre por um e-mail ou uma ligação tua com um convite para dividir um choppe com fritas para jogar conversa fora num boteco qualquer. Não te entrega, parceiro! ELE tá de olho em nós e fará justiça!

GILBERTO JASPER
Jornalista - POA

Ju disse...

O texto sintetiza a pessoa inteligente, sensível que vc é!
Homem, com "H" maiúsculo e com alma feminina!! Ah! São tão poucos..
Mas, quero lembrá-lo que já passou por tantas "tempestades", aguarda o melhor que a vida te oferece..às vezes ela é danada!Mas,tudo se resolve!

Ana disse...

Tenho o privilégio de sentar ao lado do Arizinho na Redação. Sou testemunha discrita e indiscreta desse jornalista, fiador e antes de tudo, amigo. Fiador e ouvidor de inúmeros sonhos meus. Capaz de me suportar em dias dos quais, nem eu me aguento. Dele vem compreensão, apoio,palavra,amizade sincera e tudo o que de verdadeiro advém dela.Esse ser elegante, totalmente vocacionado para a felicidade, suspira discretamente, na busca de solução concreta de seu problema. E eu, desastradamente, tentando formar uma corrente de amigos, encontrar uma fórmula viável de socorrê-lo.Deve existir uma ação real, consistente, dos amigos se fazerem presentes.