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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A poeira e tudo o que não se aposenta

Ela levantou cedo, sacudiu levemente os ombros do marido e disse que iria comprar pão e frutas para o café da manhã. Aposentados, com filhos criados e responsáveis por suas próprias famílias, viviam tranqüilos entre as atividades rotineiras da casa – afinal a poeira não descansa – diziam, quando alguém os via na faxina. É bom para manter o corpo em atividade, acrescentava ele, ex-jogador de basquete.

Por volta das 10h, saiu da cama. O café estava posto, o chimarrão servido e os jornais que assinavam, dispostos sob a mesa como todo dia. Tinha pão e frutas também. Chamou pela mulher e ela não respondeu. Não estava no interior da casa, tampouco no pátio. Devia ter ido a um vizinho. Estranhou porque ela sempre avisava. Tentou o celular que chamou até entrar na caixa postal. Tentou outra vez e registrou mensagem: “Brincadeira, é? Ou foi seqüestrada?”

Estava quase acionando a polícia quando ela respondeu ao chamado. Disse que trazia um frango assado com polenta e salada para o almoço. Eram 13h30min. Contou que perdera o aparelho celular. Refizera todo o percurso matinal e não o localizara. Era um aparelho caro, com toda a agenda gravada. “Um menino o achara e seu pai ligara para um dos números da agenda: Maria, a massagista da estética. A coincidência é que eu estava lá,” argumentou.

Ele ouviu, mas não entendeu porque não o avisara. Deixar um bilhete, ou quem sabe direto da estética mesmo, ora! Sabia que a mulher era muito organizada e responsável. Sumir assim? Comeram aquele frango que lhe pareceu indigesto. A mulher não o olhava nos olhos. Parecia tensa, distante. Juntou e lavou a louça. Nem o tradicional chá de hortelã de todos os dias conseguiu tomar. Não se autorizava, em sua idade, a desconfiar das atitudes da esposa. Mas que havia alguma coisa mal contada no ar, lá isso havia. A sombra da velha figueira, atraía um vento gostoso, mas quem disse que podia cochilar. E lhe veio a mente a certeza matreira de que não era apenas a poiera que jamais se aposentava.

4 comentários:

Gilberto Jasper disse...

Prezado mestre da cizânia!
Acho que o maridão precisa abrir o olho! O tórrido verão transtorna as mulheres menos resistentes. As cenas calientes da nova novela da Globo adicionam ainda pimenta às cabeças ociosas fazendo aflorar idéias engavetadas há décadas. Imagens de aventuras geram comichão pelo corpo e conflito entre o anjinho do casamento e o diabinho de tórridas cenas num motel qualquer. Sei não... mas nem o vento que sacode a velha figueira é suficiente para aplacar o furor da nossa heroína!

GILBERTO JASPER
Jornalista - P.Alegre

Tárik disse...

´Sou vítima desse texto.
Não passo por uma dessas paizão.
Mas a lembrança, na minha fé, tchê, vem de séculos passados.
Acho que já vi( passei ) por isso.

Flávio Dutra disse...

Ari, afinal o que aconteceu.Sei lá, estou sem imaginação pra essas coisas...

Ari Teixeira disse...

Flávio, achei melhor deixar para a livre interpretação dos leitores. Será que ela aprontou? Ou foi apenas um lapso de comunicação entre eles? Como é um fato verídico, só posso antecipar que ambos continuam juntos. E resolveram a questão... ou quase, sei lá.