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segunda-feira, 15 de março de 2010

Metamorfose: o bife virou barata!


Lá nos idos dos anos 70, Porto Alegre não tinha MacDonalds. Os lanches se dividiam em meia dúzia de lugares – o cachorro-quente do Passaporte, no Bonfim, o baurú do Trianon, na Protásio Alves e uma dezena de trailers de chessburgers com receitas que arrepiariam qualquer nutricionista. Toneladas de entulhos gordurosos pães e bifes fartamente untados com margarina e maionese. Tudo isso, muito bem prensado para facilitar o ingresso no sistema digestivo. Higiene era um detalhe que a gente não questionava muito.
Eu pessoalmente gostava do “x bastantão” do primeiro Mac de Porto Alegre: o Mac Dinhos. Era semelhante a toda concorrência, mas servido em porções maiores e variações com pernil, lombinho e frango. Tinha uma clientela fiel. Com preços módicos, acalmava a fome.  Saciado, o estômago pesava uma tonelada e o sangue nas artérias imitava um composto oleoso que somente meus 20 e poucos anos poderia suportar. Ao redor, tudo quase limpo. O cheiro forte da chapa, ovos e bacon fritos disfarçavam outros odores. A digestão eu fazia no caminho de volta para casa. A pé, na madruga. Eram tempos menos violentos na Capital.
Todo esse nariz de cera é para comentar que o mesmo MacDinhos, agora virou restaurante. Tem lanches,  pizzas e até karaokê para os que gostam de cantar com a boca cheia, o que não o livrou de ser punido pelo Tribunal de Justiça  por vender comida com barata grelhada. Em um simples e puro prato de feijão com arroz! Nunca conferi o que havia dentro dos meus sebosos lanches. A coisa mais crocante que eu mordia era a batalha palha (eu acho), ou talos de alface que não haviam cozido durante o massacre da prensa. De qualquer forma, porcaria por porcaria, aqueles hambúrgueres eram quase tão ameaçadores quando o inseto nojento que repousara na comida da cliente.
O garçom tirou o prato rapinho. Quem sabe não tentariam justificar ao juiz que o bife metamorforseara-se à moda Kafkaem barata mal-passada. Algo assim como eu, que de tanto “x bastantão” me transformei em um batráquio gordo. Bem feito! A multa que levaram ainda é pouco diante do que já paguei em dietas. 

2 comentários:

Gilberto disse...

Amigo Ari! Na década de 80, quando cheguei à cidade grande, costumava almoçar num restaurante localizado num porão, naquele beco situado entre o City Hotel e a as Lojas Americanas. Lembro que o rango era gostoso, barato e disputadíssimo. As filas dobravam o beco e invadiam à Rua da Praia, onde havia o famoso Rib's, na esquina com a Ladeira. Mas o preço era proibitivo. Anos depois, a Secretaria da Saúde lacrou o lugar porque descobriram uma criação de inocentes ratinhos... certamente para alimentar cobras e lagartos! Bricandeiras à parte, nunca passei mal, pelo contrário: saía de lá com sensação de "quero mais", a exemplo de chineses e outros habitantes do planeta Terra que lutam contra a fome, devorando tudo que se mexe...

Ari Teixeira disse...

Giba, eu também era cliente deste mesmo restaurante. Na época eu trabalhava no Banco Real, agência da Borges de Medeiros. Não sei se eram recheados com gordas ratazanas, mas os pasteis deste restaurante eram muito bons.