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quarta-feira, 3 de março de 2010

Traição, baixo Q.I. ou fantasia?

Sentou próximo a um grupo de senhoras que tomavam chá com torta. A confeitaria com seus aromas doces, a música leve e o ar-condicionado o libertavam do desconforto úmido de uma típica tarde quente na capital gaúcha. O tagarelar animado de suas vizinhas de mesa colocavam um ponto e virgula nas atribulações pelas quais passara desde que amanhecera. Primeiro a falta de fundos do cheque assinado por seu maior cliente, depois a discussão sem sentido com a esposa que não aceitava esperar mais um dia para juntos, irem ao supermercado. “Está faltando tudo em casa!” esbravejara a mulher.

Ele sentia-se uma espécie de fugitivo, tentando escapar das broncas domésticas em um lugar tão mimoso. Ainda por cima, deleitava-se com a futilidade da conversa alheia. “A Itália continua linda e desorganizada”, afirmava a mais velha da turma. “Mas os homens... Estes são o maior trunfo daquele país”, acrescentava outra, entre olhos maliciosos. “Que teu marido não saiba”, envenenou uma terceira. “Não te preocupa, eu viajo sempre sozinha. Pra que levar sanduíche, quanto tenho pratos mais gostosos para provar lá...” Gargalharam juntas, indiferentes as pessoas a sua volta.

 “Cada qual com seus problemas”, pensou enquanto escolhia alguma coisa para comer. A fofoca alheia lhe abrira o apetite, desviara a atenção de seus próprios problemas para um outro mundo, muito distante do seu, onde dizem que homens traem mais. E pior, tem baixo Q.I. E as mulheres que pulam cerca? Elas seguiam em inconfidências. Relatos de temporadas gloriosas na Europa, Ásia, queixas contra a paranóia norte-americana que as afastara de Nova Iorque. “Tenho lá eu cara de terrorista?” inquiriu uma. “Botóx não é explosivo. Você jamais será barrada em aeroportos, querida ”, brincou maldosamente outra.

De repente, a mais quieta da turma faz ares de mistério e diz: “Vocês sabem o que fez uma amiga? Primeiro seduziu um colega de aula, do tipo carente, baixa estima e conta bancária em alta. O cara acabou caído por ela. Casada, faz tudo na maior discrição. Ela é decoradora, mas vocês sabem que hoje em dia qualquer uma se diz designer e acaba inflacionando um mercado já pequeno. É o caso desta amiga. O quadro piora porque seu marido anda com problemas financeiros. Negócios em baixa. Uma tragédia. Para manter o padrão, ela assegurou esse amor novo. Às vezes o arrasta até o mercado e ele paga a conta. A danada enche o carrinho com vinhos importados, especiarias e até as lâminas de barbear do marido. O que vocês acham disso?”

Antes de ouvir o veredicto da senhoras, nosso amigo pagou a conta e tomou o rumo de casa. Ao chegar não encontrou a esposa. Na mesa da cozinha, um bilhete: “Fui levar nossas filhas na avó que está com saudades. Mas para te poupar, já fiz as compras. Não te preocupa não gastei muito meu único excesso foi contigo: comprei aquele Malbec argentino que tanto gostas. Vamos bebê-lo juntos e fazer as pazes. OBS: Também te comprei um aparelho de gilete novo. Assim teu rosto fica macio como eu gosto. Um beijo!” Em qualquer outro momento, adoraria tanta disposição para reatar em plena crise. Mas depois daquela tarde...

Quando a esposa chegou, ele estava virado em um zumbi pálido diante da tevê. No íntimo queria sumir dali, xingar, expulsar o vendaval que lhe atormentava a alma. Mas sentia-se impotente e atônito. Um diminuto personagem de fofoca. Mas fazer o que? Dizer o que? Encurralado, decidiu freqüentar cafeterias, só a distância das línguas venenosas. E o rancho da família, a partir de agora seria sempre feito a dois, “Afinal, essas coisas chatas temos de dividir”, justificou. A mulher achou melhor não contrariar. “A gente fala sobre isso depois” e correu para a cozinha onde duas taças aguardavam um brinde. “Não falta uma?” pensou em provocar, desconfiado. Mas optou por recriminar a maldade alheia que lhe envenenara.

Afinal, uma ilusão oportuna dói menos!

3 comentários:

Flávio Dutra disse...

Texto instigante,provocativo, como diria um ex-editor nosso. E mais não avanço sobre o periogoso tema...

Ari Teixeira disse...

É... Ninguém gosta de ser a vítima, com as antenas de baixo QI a mostra... espetando

Gilberto disse...

Eu pensei que o Flávio Dutra fosse mais valente... ou haveria outros motivos pra "pipocar", heim?

GILBERTO JASPER