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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Subir, subir. Depois cair, cair.

Tudo que está lá em cima pode desabar. É a implacável lei da gravidade. Então evitemos desafios inconsequentes (vejam: o trema também desabou vítima das novas regras ortográficas). Quando era guri, o edifício Santa Cruz, o mais alto da cidade com 34 andares, na rua da Praia, tinha também o elevador mais veloz de Porto Alegre. Eu brincava naquele sobe e desce só para curtir o arrepio na barriga proporcionado. Um dia, um senhor me disse que temia ver aquela caixinha de metal despencando a toda velocidade. “Iríamos virar sardinha”, imaginou com ar grave. 

Mas como já era íntimo do condomínio, eu sabia da atenta manutenção dos elevadores e continuava nos meus “vôos” até os altos de onde se tinha uma das mais belas vistas do centro histórico de Porto Alegre e do Guaíba. É assim que vejo as coisas: é preciso atenção, cuidado para evitar quedas como tem acontecido no Rio, onde atores e prédios desabam com uma frequência (olha outra trema que caiu!) assustadora.

Edifícios, pontes, viadutos, casas em encostas de morros, paisagens tidas como firmes e inspiradoras desabam diante da beleza natural. Um cidadão carioca (ou desafortunado turista) pode estar bem firme no chão, que permanece a ameaça de uma tampa de bueiro explodir, enviando o incauto às alturas para um mortal retorno ao solo quase sempre firme. Foi assim que o Teatro Oi Casagrande, no Rio, acabou palco de uma quase tragédia quando, durante o musical “Xanadu”, o público tomou um susto ao assistir os artistas Danielle Winits e Thiago Fragoso despencarem de uma altura de cerca de 5 metros! Ela teve mais sorte e caiu sobre Fragoso que fraturou cinco costelas e ainda está hospitalizado. Quantos não curtiriam ver uma linda mulher caidinha e quantas quem sabe não curtiriam provocar um apaixonado peso às costelas do ator? Mas esta, definitivamente, não é a melhor maneira de se chegar a esse objetivo.

O ator contou à imprensa que, ao cair, tentou se posicionar de forma a proteger a atriz e os espectadores na plateia, usando seu corpo para amortecer o impacto. Eu lhes pergunto, como um cabo de aço, supostamente resistente, se rompe, assim de repente? Alguém não teve o cuidado que Fragoso teve enquanto caía, ou segundos antes, quando percebeu que havia problema ali, nas alturas. Tem muita oferta de serviço, muito discurso e pouca responsabilidade neste país. Pouca fiscalização, quase nenhuma seriedade em coisas mínimas. Tem gente que se imagina lá em cima, no topo da escala da inteligência ou ilusória esperteza e, do alto de sua autossuficiência, assiste impune à tragédia provocada.

É preciso seriedade, seja no serviço público ou privado, para sacarmos do topo esses que se consideram muito acima de nós, mortais que acreditam, ou são levados a crer em eficiência ou boa vontade alheia. Isso vale em qualquer instância de nossas vidas. Às vezes colocamos pessoas lá em cima – reis e rainhas de nossas existências – e frustramos expectativas. Acaba o que era amor e desabamos às masmorras de nossas fantasias. Quebrados em mil pedacinhos, morremos pela sedução do sentimento de que nada nos derrubaria. 

Quando o vendaval da indiferença sopra, a queda é feia. Em outras palavras, de um projeto de engenharia a uma relação afetiva, é preciso manutenção e cuidados com reformas que não estavam nos planos, no contrato assinado anteriormente. 

O tombo será sempre mais sofrido e doloroso do que o tempo gasto na elaboração de qualquer projeto.

2 comentários:

Flávio Dutra disse...

Sábio, Ari. Gostei muito das conclusões finais.

Caren Mello disse...

Belíssimo, Ari! Com a inteligência, sensibilidade e perspicácia de sempre!