Pesquisar este blog

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A vida sofrida de um gordo pra cachorro


A mulher passou ao meu lado e ordenou severa: “Gordo, vem cá!” Surpreso, mirei nos olhos dela que, ao dar-se conta do mal-entendido, apontou o arbusto onde um cãozinho peludo fazia xixi. Gordo era o nome próprio de seu animal de estimação. “Nem reparei que o senhor era gordinho”, desculpou-se, aumentando o constrangimento.

Aceitei as desculpas, e fiquei ensaiando os desaforos que meu elevado teor de tolerância jamais permitiria. Mas que deu vontade, deu. Ela já cruzava a rua com o gordo de quatro patas – que até magro era – quando jurei iniciar uma dieta, pra já! Ser magro tem todas as vantagens. Primeiro, não é proibido o mau-humor. Gordo tem a obrigação da simpatia e docilidade.

O maior exemplo disso é o Natal, onde o gordinho da família é sempre Papai Noel. Dê-lhe suor por baixo daquela ridícula roupa quente e barbas de algodão. E os apelidos que nos batizam? Porquinho é um clássico na linha veterinária, seguido de hipopótamos, elefantes e demais paquidermes. Baixinhos atarracados são comparados a “liquinhos”, aqueles pequenos botijões de gás.

Gracejos que virariam em grossa pancadaria, não fôssemos nós obrigados a agir como os mais bem “humorados” da espécie humana. Outra chatice são os "conselhos” de amigos e frases tipo “até que você é bonito, porque não faz um regime?” Arre! É triste! Um sujeito magro não se abalaria, como eu, com uma estranha gritando pelo “gordo”. Não é nada com ele, ora! 

Assim, eu me rendi! Caminho todos os dias, contabilizo cada grama eliminada e mesmo assim, enfrento humilhações, como ser ultrapassado por vovós melhor condicionadas. Tento acompanhá-las e as pernas fraquejam. Desesperado, confiro, o relógio. O tempo não passa... Pior, quem passa são as mesmas senhoras. Uma, duas vezes!

A recompensa após tanto sacrifício é o bar da academia. Deliciosas saladas de frutas, bebidas e yogurtes light. Eba! Sanduíches naturais! Mas a turma sarada come – bem ao meu lado - cheeseburgers com bacon e ovo. Hotdogs de molhos vermelhos suspeitos e fritas, toneladas de batatas fritas! Se eles podem, por que não eu?

A ansiedade é a maior inimiga dos fofos. Aliás, só de lembrar do incidente que motivou este desabafo, me bateu fissura por algo doce. Amanhã, compenso com uma caminhada extra. E se outra tia me confundir com o cãozinho de estimação. Eu mordo! Afinal, paciência tem limite. (texto publicado no jornal Diário Gaúcho - Porto Alegre - RS)]

4 comentários:

Gilberto disse...

Infelizmente muita gente está abrindo mão das coisas boas da vida por causa de duas "ditaduras". A primeira é da estética, que proíbe a barriga,despreza as bochechas e faz, da celulite, uma obsessão feminina sem limites, embora pouco importantes para os homens, que nem ligam tanto. Outra pressão diária é feita pela xaropona "vida saudável", que obriga a tomar um café da manhã reforçado (mesmo que a gente não tenha paladar e prefira um bom chimarrão!), um almoço repleto de suculentas alfaces e um jantar minguado. Graças a estas exigências, o mundo se transformou num cantão lotado de gente mal humorada, frustrada com a única preocupação de desfilar o dia inteiro diante dos espelho. Aproveitar sem abusar talvez fosse mais saudável. Para o corpo e principalmente para a cabecinha de certas pessoinhas...

CarolBorne disse...

Sabe que andei me policiando nesses dias de trégua da chuva? Botei na minha cabecinha obesa que voltaria a correr e tal... só que São Pedro, que além de velho é gordo e preguiçoso, resolveu tirar onda com a minha cara e o meu corpinho. Não rolou! Vou ali comer uma colherada de açúcar antes que eu tenha um aneurisma de ansiedade.

Léa Aragón disse...

Putz! minha integral solidariedade. Só uma gorda pra entender tão bem este canino episódio. Mas não te entrega, irmão. Ser bem-humorado é muuuuito melhor que ser magro (argh!!!) Já decidi, podem me botar os cachorros (opa!), vou continuar sendo feliz.

Larissa Bohnenberger disse...

Ai, nem me fala...
Por que é que comer é tão bom, heim?
Eu não sei mais o que faço, porque cada vez que tento (e consigo) emagrecer, acabo engordando mais do que perdi, de maneira que tempos após cada dieta passo a pesar mais do que jamais havia antes. Inferno!