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terça-feira, 21 de junho de 2011

No meio do inverno, o verão invencível


Lá de casa, a beleza da paisagem fria

Confesso que já gostei mais dos invernos. Reparava mais na chuva, na geada que queimava o pátio. Dava mais atenção a correria de meus filhos, gostosos de apertar, feito bichinhos de lã, de bochechas vermelhas e fofas. Lembro do frio que cortava feito diamante o vidro da janela e me obrigava a recorrer ao mais encorpado dos meus vinhos. Até uma confraria criei ao lado de amigos. O gelado era um convite a reuniões animadas, onde enquanto o gelo cobria a capota dos carros lá fora, no calor da lareira esquentava-se a vida.

Lembro dos amigos que recitavam poesias, inspirados pelo mesmo deus Baco que, de propósito, os fazia esquecer estrofes, ou engolir rimas. Mas tudo era válido, tudo era quente e aconchegante. Porque era inverno e estávamos juntos. A lareira parecia nunca apagar, a adega sempre cheia. Os confrades traziam seus vinhos e pães, queijos, salamos coloniais e caldos a ferver seus vapores aromáticos. O inverno se cobria de um frio suportável assim, mesmo que insistisse em chuvas intermináveis, entremeados de raros dias de sol pleno, abaixo de zero. Lagartear era tudo o que se precisava para recarregar as baterias.

Chimarrão, chás de todos os tipos e cafés servidos direto da cafeteira italiana. Era energia pura, que se agarrava na certeza de que toda estação tem seu escanto, mesmo que absolutamente fria, com ares melancólicos, quase depressivos. Eu não me permitia sofrer contra o óbvio. Para que reclamar do inverno frio, se não tinha como ser diferente. A alternativa, o norte ensolarado, era apenas uma fantasia cara demais para ser verdade. E durarira poucos dias. Longos seriam os meses a pagar passagens aéreas e hospedagem.

Quero de volta esse frio que convida a algum tipo de celebração. Que não me isole em um edredon solidário, enroscado nos pés de minha amada. É bom, mas não é tudo. Brindar a reação ao frio é importante também. Tão mais quanto provar o advento gostoso da primavera e verão. É qquando tudo se torna mais fácil e dinâmico. Quero a certeza de não faltará parceria para aquecer por alguns minutos, a tão necessária alegria. Quebrar o gelo. "E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível," disse Albert Camus. Que assim seja!

2 comentários:

Anônimo disse...

Amigo Ari!
Já gostei do inverno. Pelo tempo verbal, vê-se que se trata de uma relação conflituosa.
Quando piá, andava 3 km numa estrada de chão batido (ou barro nem tão batido) até chegar à escola, onde um segundo par de chinelos era sacado da mochila para não sujar a sala de aula.
Na adolescência curtia o frio, gostava de ficar na rua com a tchurma (bah...) até altas da madruga, jogando conversa fora, rindo de qualquer bobagem.
Como diz minha mulher "nesta idade a gente não sente frio!". Virou chavão lá em casa e é a pura verdade!
Hoje - confesso - curtir quase nada o congelante frio gaudério. Na verdade - e não apenas por causa do clima - gostaria de migrar para o Nordeste, talvez o Rio de Janeiro.
Sobreviventes desta ponta meridiconal avançada, somos submetidos a mudanças extremas do termômetro.
Lazanhas, cabernets, edredons a dois, passeios ao sol regados a bergamotas e pinhão... ok! De resto, passo!

GILBERTO JASPER
Jornalista - Porto Alegre

Tárik disse...

Estes atos que nos deixam confortáveis são super boêmios. Tá certo, parecidos somos. Quero estes momentos também, mas por enquanto fico com um rock rápido num show.