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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Música caseira na era da geração MP3


I-pods, I-phones, DVDs, Blu-Ray, jogos eletrônicos de altíssima resolução e qualquer música, a qualquer hora a disposição nos mais diversos formatos, deixaram algumas cenas no passado. Antigamente as pessoas sentavam ao redor do "estéreo" para ouvir discos. Meu pai reunia amigos para curtir lançamentos de música erudita! Meu avô me chamava para ouvir as Big Bands, que tanto amava. Agora, as pessoas escuta música no rádio do carro, uma grande maioria, em fones de ouvido, fechados em seu mundinho sonoro. Ótimo. Nada contra, desde que o volume não seja alto demais. 

Mas quem sabe, só para variar,  que tal dar chance ao filho prodígio do violão? Eu sei, às vezes é um tormento desafinado. Vale o sacrifício, mesmo assim. Estimular talentos refina a sensibilidade da criança, ajuda a dar um sentido a vida de um adolescente rebelde. Vamos mudar os termos, ao invés de um sarau, vamos promover um "show caseiro de talentos".  Nem todos seguirão o caminho da música, ou da poesia, mas serão profissionais mais sensíveis em qualquer outra área, com certeza. 

Em um desses reencontros casuais, conversei longamente com um ex-colega de ginásio, o Ulisses, agora um bem sucedido corretor de imóveis. Nos tempos de guri, era um excelente músico. Adorava o Rick Wakeman, tecladista da banda inglesa Yes. E foi o Ulisses que me relatou um momento com ar de tempo antigo vivido recentemente, quando um velho piano, na sala do casarão dos avós, chamou a atenção de seu filho caçula. Os olhinhos curiosos grudaram-se no imenso instrumento empoeirado no canto de uma parede, coberta de fotos antigas. 

Desde que vovô Armênio falecera, as noites de cantoria improvisada entre familiares e amigos haviam sido sepultadas junto às lembranças de um passado feliz. Mas a curiosidade infantil acabou obrigando Ulisses a dedilhar outra vez aquele teclado branco e preto. O som cheio e forte encantou o menino. Ao perceber a alegria do filho, arriscou uma antiga canção – uma das poucas que lembrava.  As notas mesmo inseguras, atrapalhadas pela desafinação do instrumento, encheram a casa de uma emoção nova. Renovadora.

A pobre avó, assustada, correu a sala e emocionou-se ao ver pai e filho cantando: “Olha, dentro dos meus olhos vê quanta tristeza de chorar por ti, por ti.... De saudades eu chorei, e até pensei que ia morrer, juro que eu não sabia, que viver sem ti, eu não poderia...”. Era uma canção dos tempos da Jovem Guarda, de autoria do “rei” Roberto Carlos. “Vó! Toca para nós”, exigiu o menino. E os dedos trêmulos da mãe de Ulisses, professora aposentada de música, ensaiaram algumas canções. 

A partir daquele dia, a vovó transformou o piano em uma ponte entre o passado e o futuro representado pelo neto que agora aprende a tocar. A família voltou a reunir-se com maior freqüência. Trocaram a poeira por música e risos aos sábados. A saudade virou lembrança gostosa, com direito a muita cantoria. Ulisses insiste que em um sábado eu o visite para, juntos, lembrarmos hits dos anos 70 e 80. Quem sabe? Mais importante do que saber cantar é não perder espaço para o mofo e a depressão. Isso sim desafina.

2 comentários:

Gilberto disse...

Amigo Ari! Apesar do esforço (e da insistência) de meu falecido pai, jamais consegui tirar um som inteligível de um velho acordeão. Me confesso frustrado porque gosto de vários gêneros musicais, embora não entenda nada de teoria e solfejo... O destino quis que meu filho Henrique, aos 14 anos, seja um talentoso guitarrista que não dispensa o "pródigo" violão, vertente inicial do seu gosto musicial. Estou muito satisfeito com a escolha dele. Além de trocar idéias (e músicas) com amigos e colegas de aula, ele reúne guris e gurias em festas e encontros. Evito cobranças. Pago uma aula semanal que foi suficiente para aguçar o gosto pela música. Realmente... é um orgulho!

Ari Teixeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.