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quarta-feira, 21 de abril de 2010

A noite em que Bruna nasceu de novo

Escutei agora a pouco que a jovem acidentada no quilômetro 127 da BR 290, está fora de perigo. Terça-feira à noite, ela bateu seu carro, de frente com um caminhão carregado de cal. A violência do choque fez o imenso veículo capotar na rodovia, atravessado entre as duas pistas, jogando o Fiat Pálio no acostamento. Eu vinha logo atrás e custei a entender o que acontecia. Tudo, de repente, escurecera. Os faróis sumiram na noite chuvosa. Enquanto reduzia a velocidade, percebia os vultos, o desenho disforme da tragédia. Pneus rasgados, lataria queimada, pisca - alerta de outros veículos, Gente correndo para atender os acidentados. O carro da jovem tivera toda a frente destruída. Eram pouco mais de 21h da véspera do feriado e só conseguiríamos sair de lá, às 2h da madrugada desta quarta-feira.
Um caminhoneiro nos garantia que um animal solto - um cavalo - surgira no acostamento, assustando a motorista que acabou chocando-se com o caminhão. Outro achava que ela teria perdido o controle da direção, dormido ao volante. “Bruna você está aqui comigo?” insistia o policial federal, tentando fazer a moça reagir. Inicialmente debatera-se ensangüentada. Um dos joelhos estava deslocado. O motorista que vinha à minha frente, disse que ela debatia-se no carro. Tentara sair, escapar dali, Mas aos poucos, fora perdendo energia. Todos em volta, com lanternas e palavras de conforto tentavam reanima-la. 

O estado do carro nos fazia imaginar o pior. Senti um aperto grande no peito, uma vontade de ajudar sem saber como. Voltar no tempo não era possível. Bruna ameaçava entrar em convulsão, sentia frio, tinha os olhos fechados, inchados. O sangue vertia no rosto pálido. “Bruna, estamos aqui contigo. Está tudo sob controle”, diziam a sua volta. Bruna queria viver. Nós queríamos sair dali com ela reagindo. Ao ser levada de maca, gritou de dor. E chorou.
 

Hoje sabemos que Bruna está a salvo. O motorista do caminhão também. Parte de meu feriado, foi pras cucuias. Curtir a casa, esperar a chuva com uma taça de vinho. Concluir mais uma edição da Carta Mensal de meu Distrito de Rotary... Mas não consegui dormir. O sangue na pista, os pneus e a lata retorcida no asfalto cutucavam o travesseiro. Eram imagens fortes demais. Veio-me a voz sem força de Bruna, enfrentando talvez seu pior momento. O choro, o corpo trêmulo. "Estou com muito frio" reclamava. Acordei com dor de cabeça e uma sensação oca de ressaca. O feriado foi tenso. Sem cor.
 

Todo dia aprendemos alguma coisa nova. Espero que aqueles que estavam lá, e os que cruzaram em seguida, tenham aprendido sobre a necessidade de reduzir o estresse, a ansiedade por chegar sempre na frente de todo mundo. Ultrapassar a qualquer custo. Vamos viver mais, aproveitar melhor as horas que passam tão rapidamente. Buscar um sentido que não seja instantâneo e assassino. Olho na estrada, respeito e amor à própria existência.

E que Bruna aproveite sua nova vida, com as bênçãos de Deus.

4 comentários:

Gilberto disse...

Amigo Ari! Lamentavelmente existe um prazer mórbido de "olhar" o acidente. Nos primeiros quilômetros depois do evento, a maioria dos motoristas volta a pisar firme no acelerador. A pressa, a má educação e a fé cega de que 'comigo isso não vai acontece' sõ fazem inchar as estatística. Números horripilantes, levantamentos aterradores e pessoas cada vez mais bestializadas ao volante parece um tormento sem fim!
Gilbeto Jasper - POA.

Ari Teixeira disse...

Hoje, sexta-feira, eu chegava pro trabalho e o que vi? Uma Eco Sport com a lateral esquerda destruída e a direita colada no muro do elevado da Rodoviária. Já pensou se o cara despenca? Tem gente muito afoita ao volante. Pô!

Léa Aragón disse...

Putz, amigo, tu não merecia este início de feriado. Mas com o teu coração e no dia seguinte ao Dia do Índio, até dá pra entender.

Ari Teixeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.